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Eva Duarte fala sobre sexualidade, despatologização e descentralização

Eva Duarte Psicóloga Caldas da Rainha.jpg

Eva Duarte, sexóloga e psicóloga, é licenciada em Ciências Psicológicas e mestre em Psicologia Clínica pelo ISPA, a mesma instituição onde se encontra actualmente a realizar um doutoramento em Psicologia Clínica. Com formação complementar em Sexologia Clínica e experiência em aulas de Educação Sexual, Eva abriu recentemente um consultório nas Caldas da Rainha. Fomos falar com a Eva e saber o que a motivou a abrir este espaço fora dos centros urbanos e saber como são as questões LGBT abordadas no seio da Psicologia e Sexologia.

 

 

dezanove: Como surgiu a oportunidade de abrir um consultório de sexologia e psicologia nas Caldas da Rainha?

Eva Duarte: Apesar de ter residido em Lisboa durante alguns anos, sempre mantive o objectivo de regressar à cidade onde cresci e de contribuir simultaneamente para o desenvolvimento da mesma e para o meu próprio desenvolvimento profissional. Após algum planeamento logístico - e depois de ter a formação académica essencial e alguma experiência clínica - decidi que era o momento certo para iniciar este projecto e criar um espaço de comunicação, relação e reflexão.

Considero que a localização do Sinapsis Consultório é uma mais-valia, uma vez que é necessário descentralizar os serviços de saúde das grandes cidades e aproximá-los da população.

 

Qual a necessidade de ter sexólogos e psicólogos especializados e/ou sensibilizados para questões de orientação sexual e identidade de género?

Penso que esta é uma necessidade central, embora muitas das vezes posta em segundo plano tanto em termos de formação académica, como na prática clínica. Em termos gerais, há ainda muitos profissionais destas áreas que desconhecem a importância destas questões ou que as encaram de forma pessoal, sem recorrer, por exemplo, à produção científica. É claro que esta postura tem repercussões ao nível da intervenção clínica, precisamente por dar espaço a julgamentos de índole preconceituosa.

Durante o meu percurso académico sempre me ensinaram que um psicólogo deve colocar os seus princípios morais e éticos entre parênteses a fim de evitar avaliar o cliente/paciente consoante o que considera "correcto", mas no espectro da orientação sexual e da identidade de género este é um ponto sensível. Não considero possível tentar manter uma postura supostamente neutra sem se ter reflectido sobre estes assuntos e sem compreender as implicações dos mesmos. Por acréscimo, parece-me importante sublinhar que não se trata aqui de reformular uma opinião e sim de reconhecer que estas questões são aspectos centrais na constituição de um indivíduo e que não devem ser sujeitas ao julgamento alheio.

 

Existem diferenças nas questões de sexualidade entre os casais do mesmo sexo e de sexo diferente? Se sim, quais?

Embora escassa, a maioria da literatura científica existente no campo da Sexologia Clínica neste âmbito conclui que existem algumas diferenças, nomeadamente quanto à prevalência de disfunções sexuais diagnosticadas em contexto clínico. Alguns estudos concluíram, por exemplo, que homens homossexuais apresentam uma maior prevalência de dificuldades de erecção. Por outro lado, diversas investigações revelaram que mulheres bissexuais ou lésbicas apresentam menos problemas ligados à excitação sexual e ao orgasmo.

Para além destas problemáticas, há ainda outros aspectos que interferem na saúde sexual e que, no caso de casais ou sujeitos LGBT, podem ser elementos importantes. Refiro-me, nomeadamente, a questões de cariz social, pressões normativas, discriminação, e problemas identitários.

Pessoalmente, prefiro fugir a distinções do tipo "casais hetero versus casais LGBT", uma vez que perspectivo a sexualidade em termos individuais e relacionais. Neste sentido, considero que cada pessoa vivencia a sua sexualidade de modo distinto, independentemente da sua orientação sexual, identidade/papel de género, ou tipo de envolvimento amoroso. Reconheço que existem certas particularidades características a cada uma destas definições, mas tento evitar este tipo de compartimentação.

 

Parte do activismo transexual luta pela despatologização da disforia de género, o que acha que é preciso ser melhorado neste processo de transição sexual?

Antes de mais, é indispensável que todos profissionais de saúde estejam informados sobre este tema, e não somente que tenham conhecimentos genéricos sobre o mesmo. Seria também importante que a população em geral estivesse igualmente informada, a fim de evitar repercussões negativas no âmbito educacional e social. Fazer juízos sem compreender aquilo de que se fala é algo recorrente, perigoso e muitas das vezes com consequências práticas.

Reconhecendo que a legislação Portuguesa tem feito relevantes avanços no sentido de facilitar este processo, há ainda muito por melhorar, especialmente perante a constatação de que o Sistema Nacional de Saúde é incapaz de responder adequadamente a todos os pedidos de intervenção. Neste sentido, é necessário reconhecer a insuficiência dos recursos actualmente existentes e criar mais unidades hospitalares dedicadas a esta área e que proporcionem um acompanhamento transdisciplinar.

No referente à despatologização da Disforia de Género, há ainda um longo caminho a percorrer devido a uma série de implicações sociais. Não considero, por exemplo, que o nosso sistema social esteja "preparado" para reconhecer que algo não patológico deva ser objecto de uma intervenção médica desta dimensão.

 

De que forma sente que ainda existe um tabu em relação ao sexo?

Não penso que exista um tabu em relação ao sexo em geral. Pelo contrário, sinto que assistimos a uma progressiva banalização do sexo num formato de asfixia normativa: temos critérios estéticos para o que é atraente e erótico, convivemos diariamente com representações sexualizadas de relações heterossexuais e monogâmicas, somos bombardeados por publicidade que assenta nestes parâmetros. Por conseguinte, o tabu residirá precisamente nas vivências da sexualidade que não encaixam no que é definido enquanto normativo, seja em termos de orientação sexual, tipos de relacionamentos amorosos, ou mesmo práticas sexuais.

Focando especificamente a Sexologia Clínica, considero que esta área se tem vindo a tornar um tema mais comum, especialmente pela crescente exposição mediática de assuntos dentro deste âmbito. Há, contudo, algum desconhecimento quanto ao que é concretamente a Sexologia Clínica e ainda se mantém a ideia de que só casos considerados muito graves deverão recorrer a este tipo de serviços. Contudo, penso que cada vez mais existe a noção de que a sexualidade é um dos elementos indispensáveis para o bem-estar de cada um e que pode ser abordada de uma forma frontal, sincera, e sem tabus. É importante sublinhar que o principal objectivo da Sexologia Clínica é ajudar cada indivíduo a vivenciar plenamente a sua sexualidade, não se centrando somente no diagnóstico e tratamento de disfunções sexuais.

 

E em relação à psicologia?

Actualmente, o papel da Psicologia já é aceite de um modo mais natural devido à propagação da mesma a diferentes áreas (como nas instituições de ensino, por exemplo) e ao reconhecimento de que é algo quase omnipresente. No entanto, tal como na Sexologia Clínica, ainda se mantém a ideia de que só quem tem problemas graves deve recorrer a um psicólogo, embora pense que tal tenha tendência para desaparecer.

 

André Faria