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"Tchindas", o premiado filme trans cabo-verdiano que está a dar que falar (com vídeo)

O filme cabo-verdiano “Tchindas” (2015) realizado pelos catalães Pablo García Pérez de Lara e Marc Serena venceu o prémio para Melhor Documentário no Cape Verdean American Film Festival 2015. A película está a percorrer vários festivais um pouco por todo o mundo e este é já o oitavo prémio que arrecada.

Há, aqui, neste filme uma clara história de amor. Uma paixão arrebatadora. Daquelas histórias com final feliz. Não é um bajulação, é mesmo uma homenagem e uma dádiva. Não é um simples documentário, é um documento histórico que retrata como numa sociedade fechada se pode fazer pouco para mudar muito e que todos temos o dever político e militante para que isso possa acontecer. "Tchindas" é isso tudo e muito mais.

Marc Serena, jornalista de formação visitou Cesária Évora em sua casa, acompanhado de Tchinda e Edinha. Durante a conversa a cantora disse a Serena: “Tem de voltar para ver o Carnaval, é o melhor da África”. Cesária morreu 36 horas após esse encontro e Marc tornou-se no último jornalista do mundo a falar com a ilustre artista. Marc Serena levou muito a sério essas palavras e voltou mesmo à ilha, o resultado é este documentário.

Tchinda Andrade é hoje uma das mulheres mais amadas da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Esta notabiliza-se sobretudo a partir de 1998, ano em que decide sair do armário, assumindo-se como trans a um semanário local. O seu nome torna-se então na forma como as pessoas queer passam a ser designadas no seu país.

Tchinda tem agora 35 anos e vive de forma humilde, a vender coxinhas pelo seu bairro. Durante todo o ano, reina a calma, mas tudo muda quando chega o Carnaval. No mês que o antecede, toda a ilha se põe a trabalhar para do nada criar algo verdadeiramente deslumbrante. São Vicente torna-se um “pequeno Brasil”, como já descreveu Cesária Évora numa morna incontornável. A sua música e as tchindas guiam-nos numa viagem fascinante a um recanto desconhecido de uma África que poucas pessoas podem imaginar.

 

Apesar de Tchinda ser uma pessoa muito amada pelos cabo-verdianos no passado dia 25 de Novembro aconteceu um episódio de discriminação no mínimo caricato, eis o relato de alguém que presenciou tudo: “[Estava] no Aeroporto Internacional Cesária Évora, no Mindelo, poucos minutos depois das 6h da manhã, para embarcar para a Praia, no voo dos TACV. O sistema não funciona (o que é normal em qualquer companhia) e o cartão de embarque é feito à mão (uma autêntica relíquia nos tempos que correm). Já na sala de embarque um funcionário dos TACV diz em voz alta e em português: “quero homens do lado direito e mulheres do lado esquerdo”. Algumas dezenas de turistas, absolutamente intrigados com esta decisão, resolvem obedecer; nós, os nacionais, com menos indignação e acompanhados de algum sentido de humor, resolvemos também acatar a estranha ordem. Ironia dos destinos, estavam neste voo, três travestis. Inclusive a famosíssima Tchinda: de salto alto preto, macacão preto; nas orelhas uns vistosos e compridos brincos; unhas pintadas elegantemente de vermelho. Perante a ordem de homens e mulheres, cada um para um lado, os três travestis, ficaram, compreensivelmente e por breves instantes, ao meio. Após isso, o funcionário dos TACV ordenou que os travestis ficassem no grupo dos homens. Indignadas, com um sentido de humor e de encaixe próprio dos mindelenses, ficaram no grupo dos homens mas de pé. Tudo isso, porque o bendito funcionário, na ausência do sistema, queria saber quantos homens e mulheres estavam a bordo, de forma a distribuir o peso no avião. Haveria, de certeza, outras formas de fazer esta contagem.”.

Luís Veríssimo

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