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Violência entre casais: “O facto de não ter dado importância, fez com que se tornasse contínuo”

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Ao longo dos anos as diferentes formas de violência ocorridas nos relacionamentos íntimos entre pessoas do mesmo sexo estão a ser alvo de cada vez mais estudos académicos. Investigadores, bolseiros e até vítimas procuram o dezanove.pt como plataforma de divulgação. Alguns destes trabalhos são inclusive premiados. Por exemplo, no passado mês de Dezembro, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima concedeu uma menção honrosa à dissertação de mestrado da psicóloga Ana M. R. Santos. Santos decidiu investigar a "Violência nos Relacionamentos Íntimos entre Indivíduos do Mesmo Sexo”.

Porque sabemos que nem todas as relações são de paz e amor, sobretudo hoje, Dia dos Namorados e das Namoradas - dia em que o amor parece ofuscar tudo - decidimos fazer o caminho inverso e partilhar o testemunho de J., uma bissexual do sexo feminino de 29 anos, ex-residente em Lisboa ligada à área da Educação. J. partilhou connosco as agressões continuadas de que foi alvo por quem lhe devia entregar apenas amor. J. decidiu dizer “basta” e fugir. Hoje, dois anos depois, não tem dúvidas: “Comportamento gera comportamento, a violência gera violência”.

Porque acreditamos que a força do exemplo pode ajudar a mudar mentalidades e que a ignorância, o facto de ocultar, de não expor soluções ou simplesmente que ficar calado não é solução, eis a história de J.:

 

dezanove: Consegues descrever a tua relação – como se conheceram, o que as atraia uma na outra e a duração que tinha a relação quando experienciaste a primeira situação de violência?

J.: Conheciamo-nos, há algum tempo, antes de nos relacionarmos intimimamente. A atracção surgira outrora, pois participávamos de convívios de amizades em comum, ora na faculdade, ora pela noite de Lisboa. Apreciávamos, nesses momentos, a provocação, de ambas as partes. Foi o que, então, alimentou o início do nosso relacionamento amoroso que, embora tenha iniciado bem, terminou sacrificadamente mal. Os ciúmes tornaram-se um comportamento constante, os pensamentos automáticos negativos da outra parte e as consequências que deles partiam. A relação-ralação começou após os 6 meses iniciais de namoro. Namoro esse que chegou ao fim, após cerca de dois anos, com a minha saída – por mim forçada – da cidade de Lisboa e regresso à terra natal. Senti que, caso não fugisse, (des)apareceria nos confins do mundo.

 

Apercebeste-te de imediato que foi um episódio de violência? Ou admitiste-o para ti própria só depois? Nessa ocasião: a agressora teve alguma reacção?

Desculpabilizei-a, pois garantiu-me que não se repetiria. Inicialmente foi, “apenas”, violência psicológica, posteriormente social, afastando-me, através de manipulação, dos meus amigos e, por fim, física, deixando marcas consideráveis, que me imposibilitavam de frequentar as aulas dos três cursos superiores (os quais frequentava em simultâneo). Considerei um acto irreflectido, que não seria sistemático, não pensando que seria, de facto, violência. Porém, o facto de não ter dado importância, fez com que se tornasse contínuo. Conseguiu colocar a culpa em mim. Eu pensei, muitas vezes, “Tens razão, a culpa é minha”.

 

Quanto tempo durou mais essa relação depois do primeiro episódio?

O relacionamento teve a duração de dois anos. O primeiro episódio surgiu após seis meses.

 

Consegues quantificar o número de episódios de violência que se sucederam até terminarem a relação?

Não faço qualquer ideia do número total. Foram vezes infindáveis.

 

E consegues descrever esses episódios? Foram de índole psicológica, física, verbal? Consegues apontar algumas situações que tenham acontecido?

Os episódios iniciavam-se, sempre, com agressões verbais e psicólogicas e terminavam com violência física. Surgiam desconfianças, sem qualquer relevância. Começava por me insultar e, depois, atirava-me com objectos, agarrava-me, partia loiça... Uma vez, questionaram-me relativamente às marcas visíveis e, de imediato, respondeu por mim “Estivemos a foder”. No início das agressões, fechei-me no quarto, impedindo que houvesse contacto físico. Consequência? Deu murros na porta e deixou uma marca considerável. A chamada de atenção (não) funcionou. Abri a porta e forçou-me a envolver sexualmente. Não tinha amor, somente raiva.

Vivemos em união de facto, os últimos quatro meses, porque achei, erradamente, que seria a solução mais credível para o bom funcionamento da relação. Piorou! Conseguiu afastar-me da sociedade; não podia comunicar com os meus amigos nas redes sociais; reforçava “Porque é que os ‘gajos’ são teus amigos? É só porque tu és boa, não é porque tu és muito interessante e inteligente”; se fosse ao ginásio proferia “Vais é mostrar o rabo. És uma puta!”; agredia-me e dizia “Quero-te destruir a cara, para mais ninguém olhar para ti”, etc. Na casa que partilhávamos, caso estivesse lá sozinha, tendo a outra pessoa ido trabalhar, trancava-me, eu, com receio que regressasse e se zangasse euforicamente. Eram imensas as vezes que, após as agressões, mencionava “Eu não sou assim. Tu tornaste-me numa pessoa que eu não sou”. Já estive perdida em um bairro problemático, sem conseguir amparo... Enfim. Um relacionamento mordaz.

 

Na sequência da violência alguma vez recorreste a serviços como psicólogos ouhospital? Se sim, mencionaste a verdadeira razão do que motivou a tua ida? Se não, por quê?

Não. Ameaçava vingar-se. No entanto, a vizinhança chegou a chamar a polícia. De momento, encontro-me a ter acompanhamento psicológico, que tem sido bem sucedido, mas que não nos elimina as memórias regulares de tristeza.

 

Sabes se a agressora foi a algum tipo de serviço de apoio que pudesse reverter a situação? Aconselhamento psicológico, médico, etc.

Não. Julgava que o problema estava em mim.

 

Consideras que a violência foi a razão para o fim da vossa relação?

O fim da relação foi a ausência da minha assertividade.

 

Como foi o desfecho da vossa relação? Houve mais violência após isso? Ameaças? Como te sentiste quando terminaste?

Após o término da relação, continuaram ameaças, de uma possível vinda à minha terra natal, de destruição, de vingança. Quando entrei no avião e percepcionei que não teria de estar na presença de um monstro, senti-me livre. Tive esperança.

 

Após o fim da relação recorreste a algum tipo de ajuda ou cuidados? (psicólogica, família, amigos,  hospital, associação, etc.)

Como referi, anteriormente, tenho acompanhamento psicológico, iniciado há alguns (poucos) meses atrás. Em breve, irei fazer voluntariado numa instituição, talvez a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) e, posteriormente, farei um curso de Técnico de Apoio à Vítima. Sou mentora de um Programa de Prevenção da Violência e Promoção da Cidadania em Meio Escolar, conseguindo colaborar, com a minha realidade.

 

Apresentaste algum tipo de queixa em alguma entidade formal (polícia, associação, hospital, local de trabalho, etc.)? Mencionaste a tua orientação sexual?

Não. Embora o meu melhor amigo tenha sugerido isso.

 

Hoje, dois anos depois, como te sentes por te veres livre dessa situação de violência? Que sequelas ficaram desse tempo?

Ainda não me consigo separar do conceito e da prática “violência”, pois a mesma predomina, novamente, na minha relação amorosa actual.

 

Na tua opinião, o que faz falta no nosso país para que estes casos não sejam negligenciados?

Falta modificar o pensamento das vítimas portuguesas. Não há que temer as represálias. As taxas de violência no namoro são absurdas. Porém, é mais fácil não dar voz às experiências.

 

Por que decidiste partilhar o teu testemunho, ainda que sob anonimato, com os leitores do dezanove no Dia dos Namorados? Que conselhos dás a quem esteja a viver por situações semelhantes?

Quanto maior o número de vítimas a não arquivar as suas vivências, maior a possibilidade de amenizar a realidade da violência.

Para terminar, gostava de enfatizar que o comportamento gera comportamento, a violência gera violência. Desde cedo, que me questiono. A violência será o arquétipo de dominação a longo prazo? O meu pai batia no meu irmão, que bateu em mim. A pessoa do meu passado longínquo e, ainda, assombrador, feriu-me sem pesar as consequências. Hoje, sofro do mesmo mal: reprimem-me as vontades, os saberes, as virtudes. Não obstante com isso, mata-me por dentro, sem dó nem piedade.

 

Artigo corrigido a 16 de Fevereiro rectificando o nome da autora da dissertação de mestrado "Violência nos Relacionamentos Íntimos entre Indivíduos do Mesmo Sexo”. À visada e à socióloga Ana Cristina Santos as nossas desculpas.

 

Se és ou foste vítima de violência ou agressão contacta as autoridades, uma associação LGBT ou a APAV.

Violência no Namoro

Campanha: "Se te marcam, sabes com quem podes partilhar"
CARMEN (Young Network) | 2016

 

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