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Natasha Semmynova: "Temos a dádiva de explicar aos outros o que somos"

Natasha Semmynova transformista.jpg

Vítor Fernandes é um dos artistas transformistas mais conhecidos da noite portuense, onde actua como Natasha Semmynova, personagem andrógina cuja história foi contada no documentário “Fácil de entender”. Em entrevista ao dezanove.pt, fala sobre Natasha, da sua participação na peça “Longe do Corpo”, que levou ao teatro o tema da transexualidade, e da importância de continuar a desmistificar a diferença.

dezanove: O teu site abre com uma citação tua, sobre a Natasha ser uma personagem. Como é que a Natasha surgiu na tua vida?

Vítor Fernandes: A essência da Natasha surgiu com a minha primeira performance em Junho de 1999. Só cerca de meio ano depois surgiu o nome. Ao sair com amigos na noite para um bar gay, na altura o extinto “Gente Gira” (onde se alojou o “Boys’R’Us” mais tarde), os amigos e colegas viram que tinha “queda” para a dança. Alguém mencionou que eu poderia fazer um show de transformista e eu disse logo que não! Mais tarde vim a perceber que é tudo a mesma coisa, mudam apenas os nomes e as vertentes artísticas em que cada um pretende enquadrar-se. Assim, em Agosto de 1999. Fiz a minha primeira performance apenas um mês depois de me assumir como homossexual. Eram dois mundos completamente novos e fascinantes para mim!

 

Que influências artísticas convergem em Natasha?

As minhas influências sempre foram relativamente claras: pop rock alternativo dos anos 90. Ainda hoje, aos 35 anos de idade, estou completamente pegado a bandas que algumas já nem existem ou dão passos muito pequenos no mundo da música: The Cranberries, Garbage, Alanis Morissette, Madonna, entre outros. Tento sempre ter vários nas minhas performances, mas a verdade é que bandas como os The Cranberries e os Garbage já eram a minha eleição para cantar ao vivo nas festas da escola secundária onde andei, e até tive uma banda onde cantava!

 

Na entrevista que deste ao António Martinó, descreves o transformismo que realizas como fora do comum, por não esconderes que és um homem. Quais são as características do transformismo que exercem uma atracção sobre ti?

Desde o início que me intitulei como drag queen. Mais tarde, como performer. Apesar do drag queen não deixar de ser um transformista, acho que as minhas apresentações serão catalogadas de melhor forma como performances. Hoje em dia apresento-me como drag queen, entertainer e performer. Tudo isto um misto que engloba a apresentação de uma música, o sentimento por ela interpretado, o canto ao vivo (numa grande parte das vezes), a maquilhagem e o guarda roupa. As características que mais aposto para a Natasha são, sem dúvida alguma, a maquilhagem, o playback/canto ao vivo e a interpretação da música. Nunca dei muita importância ao guarda roupa. Já tive quem me acusasse de não ter “brilhos” nas minhas roupas, mas a verdade é que prefiro apostar e dar mais intensidade a outros factores que ao “brilho”. Mas, por vezes, há um coordenado ou outro que têm um pouco mais de qualidade e brilho.

 

Natasha Semmynova.jpeg

Surpreendeste-te a ti próprio na tua primeira actuação como drag queen? Sabias que tinhas essa energia e intensidade em ti?

Na verdade, a minha primeira actuação/performance como Natasha não foi de todo surpreendente para mim. Eu já cantava, como mencionei anteriormente, em bares locais e na escola secundária onde andava. Pisar os palcos e ter as pessoas a olharem para mim era, e ainda continua a ser, totalmente confortável e um ambiente seguro para mim. Surpreendi, sim, as outras pessoas, que não sabiam do meu background e portanto foi um choque - pela positiva, claro - para elas, verem-me a dançar daquela forma!

 

Como descreves aquele Agosto de 1999, em que assumiste a tua orientação sexual e começaste a actuar? O período mais conturbado ou o mais pacífico da tua vida?

Foi, ao mesmo tempo, uma época de descobertas e um mundo totalmente novo para mim. Assumi-me como homossexual a todos os amigos e conhecidos na altura, e ainda hoje não me arrependo. Sempre agi de cabeça muito quente, sem pensar nas consequências. Sorte ou não, correu tudo minimamente bem. Claro que umas pessoas afastaram-se e outras aproximaram-se, encaro isso como a lei natural das coisas. Hoje olho para trás e acho que não mudava nada, a não ser reagir de forma mais racional em alguns aspectos ou atitudes durante o meu percurso até hoje. Acho que esse mês deve ter sido dos mais pacíficos, pois desde então que tem acontecido tanta coisa que aquele mês foi apenas para entrar neste mundo e começar a conhecê-lo cada vez mais!

 

Quem entra em contacto com a tua história, provavelmente presume que foi difícil contar com o apoio da família, mas no documentário "Fácil de entender" vemos o contrário. A tua mãe mostra muito orgulho em ti. Quão importante foi esse apoio familiar?

Eu não contei imediatamente aos meus pais que sou homossexual, e muito menos saberia como lhes ia contar que fazia espetáculos como drag queen! Ao longos dos anos os meus pais e outros familiares foram percebendo que eu era diferente em vários sentidos. As roupas e os acessórios que eu levava para casa devem ter sido o mais difícil, pois fez alguma confusão à minha mãe, no início. Atempadamente expliquei que aquilo que usava e levava para casa era pura e simplesmente acessórios e roupas de teatro, de espectáculos e de danças que eu fazia em bares e discotecas. Expliquei-lhe a diferença entre um homossexual e um transexual, que eram coisas completamente distintas uma da outra e que nada tinha a ver para o assunto. Assim, os anos foram passando e os meus pais perceberam que sou um homossexual que faço espectáculos ao vivo, mas estes têm que ver com a minha carreira artística e não com outra coisa qualquer.

 

Vítor Fernandes Natasha Semmynova Longe do Corpo.

Participar em "Longe do corpo" foi a tua primeira experiência numa peça de teatro? Como se proporcionou?

Eu já entrei num musical há alguns anos atrás, chamado RENT. Foi a minha primeira experiência em teatro, ainda que musical. A peça “Longe Do Corpo” foi diferente e bem melhor. Recebi um mail da Marta Freitas que me convidou para fazer espectáculo na sua peça, e o facto de cantar ao vivo era uma mais valia, uma vez que ela fazia questão de escrever as músicas de propósito para o efeito. A Marta foi, e é, das mulheres mais profissionais com que alguma vez possa ter trabalhado ate hoje: fez-me uma proposta, apresentou-me imediatamente as condições, as datas da peça, o assunto da mesma, qual o meu papel exacto e tudo aquilo que queria de mim. Trabalhei com as melhores equipas com que alguma vez possa ter trabalho e de facto tenho de agradecer, novamente, à Marta pelo convite, que ainda hoje esta dentro do meu coração com um eterno obrigado! Além disto, trabalhei uma parte da personagem que interpretei na peça, que acabou por ter um bocado de mim próprio. Ao mesmo tempo que foi tudo um pouco natural por estar a interpretar um transformista com o meu nome e a minha própria personagem, também foi um pouco exigente pois tive de decorar textos, ensaiar cenas, entre outras coisas que valeram a pena para todo o meu crescimento como pessoa e como artista.

 

Carlos, a personagem principal de "Longe do corpo" é um homem que sente ter nascido no corpo errado. A dada altura, apareces para lhe explicar que existem várias formas de cada um se sentir no seu corpo. De que maneira és diferente do Carlos?

“Eu sou um homem e gosto do meu corpo. A Natasha é uma personagem, a Carlota é uma pessoa. Percebes?” é a frase que mais faz sentido para mim no pequeno diálogo que tenho com o Carlos/Carlota. O Carlos é, na verdade, uma mulher - Carlota - presa num corpo de homem. Tem uma disforia de género, ou seja, o seu género psicológico é oposto ao seu género sexual. A homossexualidade é uma questão de orientação sexual. NÃO É uma opção e muito menos uma escolha. É tal e qual a heterossexualidade, apenas menos comum (ou não). A transexualidade tem que ver com a identidade de género e o corpo a que se pertence, que deve estar em sintonia com essa identidade. Eu sou um homem, homossexual. A Natasha Semmynova é uma personagem que criei e desenvolvo desde 1999, apenas para fins artísticos. Não tenho qualquer vontade em mudar de sexo ou de género, sempre me senti bem com o meu corpo e com a pessoa que sempre fui, o Vítor.

 

Quão importante achas que é falar e representar a transexualidade em Portugal?

Acho que é cada vez mais importante. Infelizmente, ainda há muitas pessoas que acham que um homossexual é um homem que quer ser mulher. Ou que acham que por vestir roupas para fazer show que quero ser mulher. A transexualidade, infelizmente, ainda é vista como um estigma muito negativo na nossa sociedade. Acima de tudo que começa sempre em nós: temos a dádiva de explicar aos outros o que somos, se assim for importante fazê-lo, quanto mais não seja aos nossos mais chegados, família biológica ou amigos verdadeiros. Acho que devia haver mais informação clara e simples, sem entrar em detalhes, sobre o que é a transexualidade. Contudo, há sempre o senão: as pessoas querem sempre fugir daquilo que é diferente, daquilo que não é mainstream. Mas, aos poucos, chegaremos lá.

 

Em Almada, abriste literalmente o espectáculo, com uma breve actuação de drag queen, no corredor que dá entrada à sala. Actuar para pessoas que, porventura, nunca viram ou esperavam ver um show de drag queen aumenta o grau de desafio?

Actuar em cima dum palco, para mim, aumenta sempre o grau de desafio. Sabia, em Almada - tal como sabia em todos os teatros onde apresentamos a peça - que ia ter pessoas completamente fora do comum a que estou habituado (comunidade gay). Além disso, ainda tenho mais características que aumentam esse desafio: a Natasha não usa perucas, não usa peito e não esconde/tapa o sexo do autor (eu, o Vítor). Isto faz com que algumas pessoas achem ainda mais estranho, ou fora do normal a que estão habituados a ver dentro do mundo do transformismo. Portanto, tendo isto tudo em conta e ao ter noção de tal, nunca deixei de fazer o que faço sempre da mesma forma: como se fosse a primeira vez, com muita garra, determinação, qualidade e profissionalismo!

 

Como tem sido o feedback à tua actuação? Que planos tens no horizonte?

O feedback em relação à peça “Longe Do Corpo” foi muito positivo e, na verdade, muito emotivo. Lembro-me que nas primeiras apresentações tive pessoas muito conhecidas na área do teatro que elogiaram a minha prestações, quer como drag queen mas também como na interpretação da personagem Vítor. Classificaram-na de natural, verdadeira e real, algo que nem todos os actores por vezes conseguem. Confesso e saliento mais uma vez que talvez essa naturalidade tenha sido assim devido a estar a interpretar uma personagem muito próxima daquilo que sou na realidade, mas correu tudo muito bem.

 

Quem quiser ver a Natasha ao vivo, onde e quando o pode fazer?

A Natasha trabalha como drag queen, entertainer e performer em regime de freelancer, ou seja, por conta própria. Estou neste momento como artista convidado do Pride Bar, no Porto, onde estou a actuar de quinze em quinze dias. Depois, depende muito dos convites que me fazem e das propostas. De vez em quando vou também ao Café Lusitano (Porto), Why Not? Bar (Leiria), entre outros. Estes mencionados são onde vou mais regularmente e onde sou sempre muito bem recebido e tratado como uma verdadeira estrela!

 

Vês-te a fazer teatro sem ser na pele de Natasha?

Na verdade, não sei. Acho que seria um desafio ao qual provavelmente não diria que não. Tudo depende das propostas que possam aparecer e do grau de dificuldade que as mesmas tenham. Nunca digo que não a uma proposta sem a analisar primeiro e ver quais os prós e os contras da mesma. Por isso, só o futuro o poderá dizer…

 

Pedro Neves

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