opinião

Tem muito orgulho em ti



O meu nome é Diogo e sou homossexual. 

Lembro-me de ser assim desde dos 6 anos. Nunca me senti atraído por mulheres, embora sempre quisesse ter amigas em vez de amigos.

Nunca me senti muito masculino, mas cedo percebi que isso era uma construção social. Não gostava de jogar futebol. Não gostava de estar nos balneários masculinos. Sentia-me desconfortável. Usei imensa vezes a caderneta para não fazer as aulas. Falsifiquei a assinatura da minha mãe vezes sem fim para não ir às aulas de educação física.
Quem jogava futebol era o maior. Quem queria fazer outros desportos sendo homem era “gay, feminino, borboleta” entre outros nomes menos simpáticos pelo meio.
Sempre que tinha amigos novos tinha de ter a certeza que não reparavam que eu era diferente. Tinha “amigos” que falavam comigo em privado, mas em público gozavam comigo.
Pesava 120kg, usava óculos e era muito feminino (à luz do mundo binário). Foram anos terríveis. Tinha medo de ir para casa. Inventava caminhos para que nenhum rufia me apanhasse e me fosse insultar, roubar ou bater. Era um alvo fácil. Sempre fui um alvo fácil. Tive a “sorte” de passar muito tempo em casa. Devorava documentários, livros e procurava informação. Era isso a fonte da minha força. Era aí que me sentia validado. Era aí que percebia que haviam mais pessoas como eu e não tinha problema nenhum em sentir-me diferente.
Era sempre o último a ser escolhido para os jogos e, aquando da selecção, pedia baixinho a alguém que me ouvisse para poder jogar com as raparigas. Elas ouviam-me. Defendiam-me. Podia ser eu próprio.

 

Era sempre o último a ser escolhido para os jogos e, aquando da selecção, pedia baixinho a alguém que me ouvisse para poder jogar com as raparigas. Elas ouviam-me. Defendiam-me. Podia ser eu próprio.

 

Lembro-me da primeira vez que tentei assumir a minha orientação sexual a alguém. Perguntei à Elsa se ela deixaria de ser minha amiga se eu fosse gay. Ela respondeu “não, tu és não é?”. Eu neguei. Mas ela sempre soube. Ela ajudava-me a comprar as revistas ditas de menina. E eu, às escondidas, gostava de experimentar baton.
Primeira queixa a fazer sobre a anomalia gay: eu não tinha jeito nenhum. Porém a vida deu-me uma amiga super competente que sempre se divertiu a pintar-me. Ainda hoje gosto de ser a sua cobaia.
O medo parecia menor. Mas sempre o tive.
Mais tarde, na faculdade, sempre me insurgi quando se usava o termo “paneleiro” como insulto ou como forma de provocação.
Comecei a insurgir-me cada vez mais. Tinha medo? Tinha. Sempre tive. Mas algo me dava força. Eu sabia que as pessoas que passassem por mim e ouvissem a minha história talvez protegessem alguém como eu. Numa outra cidade. Numa outra escola.
Eu já mal vivia por mim. Eu vivia para que o dia em que a discriminação ia acabar. Eu vivia para que mais nenhum rapaz gordo, de olhos verdes tristes e com a pele branca de quem não apanha sol porque tem vergonha de sair de casa tivesse de passar por aquilo que passei.
O meu pai biológico abandonou-me aos 6 anos. O meu pai adoptivo nunca me deixou. O meu pai biológico era violento com todas as pessoas. O meu pai adoptivo nunca me tocou. O meu pai biológico nunca me ligou nos anos. Nunca me pediu desculpa. Nunca quis saber. O meu pai adoptivo liga-me todos os dias. Para mim a família não é sangue. É afecto. Ser pai biológico, não é ser pai. Ser pai é uma coisa distinta.
E é por isso que não uso o nome dele. E é por isso que nunca o vou usar.
O meu nome é Diogo, tenho 27 anos, sou licenciado em criminologia e tenho uma pós-graduação em comunicação clínica. Aos 25 apaixonei-me por teatro. Aos 27 vou fazer uma licenciatura em teatro. O meu pai apoiou-me de forma incondicional.
Tenho uma vida. A minha vida. Tive problemas, quem não os teve?
Adoro Senhor dos Anéis, Harry Potter e Lego.
Vivo com o meu irmão no Porto há 1 ano.
Vivo com o meu irmão e só há 1 ano é que me sinto numa casa segura. Sinto que estou em casa. Lutei imenso para chegar aqui. Tive de lutar contra a família biológica que me detestava por ser homossexual. Tive de me proteger. Tenho uma mãe super lutadora que iria sem pestanejar ao fim do mundo buscar qualquer coisa por mim.
Venho de uma família pobre. E mesmo agora, com um pai que me proporciona uma vida melhor e um irmão médico não me esqueço de onde vim.
Faço parte da Slutwalk Porto e marcho com as minhas mágicas contra o machismo nojento que está impregnado na nossa sociedade.
Vou ao teatro e por vezes escrevo sobre teatro.
Vi a minha peça preferida tantas vezes que os dedos das mãos não chegam para contar.
Vejo as peças que gosto mais do que uma vez.
Quando tinha 7 anos tive a minha primeira crise de asma. Até aos 18 anos a minha mãe andou sempre a correr comigo para o hospital para eu ficar melhor. Quando emagreci consegui ter uma vida praticamente normal e as crises deixaram de acontecer.
Já tive uma depressão. Perdi a minha avó. Já tentei abandonar o mundo antes do tempo.
Não sei se tenho uma anomalia. Se a tenho há 27 anos que ela está comigo. Não sei se ela se manifestou em todas as coisas más que me aconteceram. Talvez a sua única forma de manifestação seja o facto de eu gostar de pessoas do mesmo sexo.
Porém, a única certeza que tenho é que doentes ou anómalos são os que discriminam com base na orientação sexual da outra pessoa.
O meu nome é Diogo e, a ti, que me estás a ler, se algum dia te sentires mal porque houve um médico que tentou dizer que és uma mutação, um defeito genético, uma anomalia ou um coitado… lembra-te: não estás sozinho. Vais encontrar pessoas que te vão proteger. Vais ter de procurar algumas.

 

lembra-te: não estás sozinho. Vais encontrar pessoas que te vão proteger. Vais ter de procurar algumas.

 

Estuda! Estuda muito! Estuda para que nunca te apanhem em ignorância! Estuda feminismo, estuda genética, estuda teoria Queer, estuda tudo o que quiseres. Tenta munir-te de argumentos para desarmares aqueles que te querem esgotar na orientação sexual.
E tem orgulho. Tem muito orgulho em ti. És especial. E no dia em que te faltarem forças, não tenhas vergonha de pedir auxílio. Estamos todos aqui para ti ❤️.

 

Diogo Sottomayor, criminólogo e estudante de teatro

 

15 Comentários

  • Francisco

    Neste país, confunde-se “liberdade de expressão” com “libertinagem de expressão”. Ofender, ostracizar, enxovalhar, discriminar, estigmatizar, sob o pretexto de que se tem direito a esta ou àquela opinião, é “liberdade de expressão”. Não, não é! Com a “liberdade de expressão” vem o sentido de responsabilidade de exercer essa liberdade. Há maneiras responsáveis e maneiras irresponsáveis de exercer esta liberdade. É deplorável e preocupante ver personalidades (Gentil Martins, Quintino Aires e outros), com poder simbólico de acesso aos espaços públicos mediáticos, proferirem afirmações de forma tão perigosamente irresponsável, ou antes, libertina.
    Obrigado pelo teu testemunho, Diogo!

  • M.

    Que testemunho poderoso. Que todos o possam ler. Identifiquei-me com muitas, muitas partes. Algumas dessas memórias estavam bem guardadas. É bom recordá-las, apesar de negativas. Enquanto me lembrar delas, saberei de onde vim e o caminho que tive que percorrer.
    Obrigado, Diogo!

    E agora, o que é que eu faço, que não tenho lenços à mão para limpar as lágrimas?

  • José Soares

    Grande homem!
    Para ti e para os que te amam, serás sempre o maior.
    És um verdadeiro herói!
    Um testemunho importantíssimo para tantos adolescentes que precisam de ajuda e não têm a força que tu tiveste.
    Um testemunho que deixará muita gente a pensar nas “pseudo teorias preconceituosas” de tantos “Gentil Martins” que em pleno sec. XXI, abundam pelo mundo.
    Seria tão importante e uma grande mais valia, se a tua história e a de tantos outros jovens, fossem amplamente divulgadas e tornadas publicas.
    Bem hajas 🙂

  • Anónimo

    Revejo me tanro….em criança era obeso, era o último a ser escolhido para qualquer equipe no desporto detestava futebol e estava sempre a desejar não ter aulas de educação física, claro fui gozado mas escondia me tanto que aprendi a estar e passar despercebido, nunca senti esse lado feminino, mas cedo percebi que era duferevte, a educação religiosa parental, castrou me ao ponto de só aos 31 assumir para mim quem sou, e foi tão libertador tão fácil afinal “sou o que sou” foi a maior vitória. Tive depressões, tenho depressões, aliás sei que é uma luta diária, já pensei…. já tentei desistir, mas mesmo que a família não queira que toque no “assunto”, ironia precisam que eu cá esteja para cuidar deles, amo muito a família que tenho, não é perfeita mas afinal qual é?
    Sou o que sou é o meu lema é não é um professor um médico com 87 anos, por quem tinha e reforço tinha muita consideração que vai mudar este meu eu, tenho 45 anos

  • Anónimo

    Até que enfim que alguém – sem medo de contar a verdade, mas deixando uma mensagem positiva – lá conseguiu escrever alguma coisa de jeito.
    Estava ver que nunca mais…

  • Anónimo

    Conhecimento é tudo. É a maior arma. Com ela, ninguém nos vence. Esta manhã li este texto. Mas só agora pude ver a cara. Parabéns.

  • Anónimo

    Felizmente nunca vivi o que descreves mas vivo em França desde os 12 anos porque os meus pais emigraram.
    Entristece-me ver que o pais onde nasci trata tão mal os gays. Vivo numa pequena localidade Francesa onde todos convivem e se respeitam e não descriminam os casais gay sejam de homens ou mulheres.
    Mas há uma coisa muita importante que vejo aí e nunca vi aqui: os Franceses sabem comportar-se em publico e nem casais hetero nem gay andam a “comer-se” na rua ou num restaurante. Já vi no Bairro Alto verdadeiras cenas gay quase porno na rua e num restaurante. Parece que fazem de propósito para provocar e a sociedade reage mal…
    Nos bares gay de Paris vê-se outra coisa que não se ve muito em Portugal: gays e lésbicas misturam-se.
    Acho que Portugal está muito atrasado e agarrado à cultura dos travestis talvez por causa dos muitos emigrantes brasileiros. Cá não há bares com shows de travestis e funcionam como no Trumps em Lisboa ou seja fazem ocasionalmente parte da animação mas a animação não é centrada neles. Aqui é simplesmente impensável pararem o divertimento dos clientes que estão a dançar para aparecer um show de travestis. Os clientes abandonavam a discoteca e iam a outra…

  • Anónimo

    “os Franceses sabem comportar-se em publico e nem casais hetero nem gay andam a “comer-se” na rua ou num restaurante”
    Olha o slut-shaming fresquinho. Vê-se mesmo que nunca foste a França.

  • Ana

    Anormal é a nossa sociedade Diogo! A orientação sexual de cada um, apenas diz respeito a nós próprios!
    Obrigada pelo forte testemunho.
    Cumprimentos.

  • Amigo

    Fui adolescente entre as décadas de 70/80 (século XX) e, minha 1a. ejaculação surgiu pela atração que as pernas de um colega me despertaram. Anos difíceis aqui no Brasil e, também quando o mundo começou a conviver com a AIDS/SIDA! Sempre gostei de estudar o que me fazia mais próximo dos professores, inclusive os de Educação Fisica! No Ensino Médio, ficava mais perto do professor do que “procurando” jogar futebol e percebendo essa tal atração que mesmo velada e discreta, muitos homens já a possuem desde a fase da puberdade! Chegamos até a conversar sobre sexualidade e foi primeiro cara que beijei e recebi carinho, selando amizade. Ele era Bissexual e lamento que atualmente passados 37 anos da formatura do Ensino Médio, não tenha encontrado um homem bissexual tão sensivel, carinhoso e que demonstrasse saber beijar tão bem um homossexual (inexperiente)!

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