1.
Eu sou mesmo gay e a minha conta não foi pirateada.
Sou gay desde o dia em que ouvi um tipo de cabeça de fora do carro a gritar para o meu pai desaparecer do mapa.
Ainda parece que o estou a ouvir naquele carro em movimento.
“Panasca nojento, andas a comer o miúdo”.
Eu não deveria ter mais do que 14 anos e o meu pai assumira a sua homossexualidade desde sempre, desde que me lembro de o conhecer, desde que começou a ser conhecido na música, depois no Partido Comunista, depois como estudioso de fado ou símbolo entre os doentes com SIDA em Portugal.
Sou gay desde o instante em que ele mo disse, em que me contou que a minha mãe fora a sua única mulher, um equívoco muito bonito.
Sou gay desde uma manhã inesquecível em que entrei com ele num autocarro e metade das pessoas levantaram-se quando o viram por não quererem estar no mesmo espaço que ele.
2.
Ah, sou gay como as tias da minha vida.
A Cristina e a Teresa que me ajudaram a criar.
Que me ofereceram os primeiros livros que li.
Que me ensinaram o valor de um abraço, de um beijo, de um olhar entre pessoas que se amam.
Sou mesmo isso.
Aprendi a amar com elas.
Com o seu exemplo, até perante a morte da primeira que partiu.
Sou mesmo gay e a minha conta não foi pirateada.
Gay em solidariedade com os tantos e tantas que tiveram de se esconder.
Que têm de se esconder por o preço a pagar ser ainda demasiado elevado.
3.
Sou gay por acreditar na liberdade de cada um decidir o seu modo de amar.
Por acreditar que cada um o pode mostrar ao mundo sem receio de represálias, de achincalhamentos, de humilhações.
Sou gay por me sentir bem entre quem ama.
Por me sentir bem entre homens que desejam outros homens ou de mulheres que desejam outras mulheres, por nunca ter dito “desta água não beberei”.
Sou mesmo gay por ter com a vida uma relação de humildade, de abertura, de comprometimento total.
4.
Sou um gay que nunca teve uma relação com outro homem.
Que nunca dormiu sequer com um outro homem.
Mas… compreenderão… que ao ler a declaração de Casilllas… uma declaração desmentida a seguir pelo próprio… me tenham vindo à cabeça todos os gays que o foram sem terem a possibilidade de o dizer ao mundo.
Compreenderão que respeite quem sou, que respeite o homem de quem sou filho, o homem que tanto sofreu para que mais gente pudesse assumir quem era na sua plenitude.
A conta de Casillas pode ter sido pirateada, mas no que aconteceu foi tudo mau.
Se foi verdade perdeu uma excelente hipótese de afirmar que “não o sendo” também não viria mal ao mundo se o fosse.
E se foi apenas um gozo (para o deixarem em paz com as notícias sobre namoradas) então a infelicidade foi ainda maior, uma triste falta de respeito e de noção.
Pela minha parte, sou mesmo gay.
Um gay que nunca teve a sorte de se apaixonar por um homem.
Luís Osório

Foto: Luís Osório e o pai



5 Comentários
sofia
Não sei escrever como o Luís… Adorei, cada palavra…
Mas sou Lésbica, sem nunca me ter apaixonado por uma mulher….
João Felgar
Devem se respeitar os Crédulos todas as pessoas, não criar tabus e de marginalização das pessoas lá por serem Gays, são iguais a qualquer pessoa.
Mas como vivemos numa Sociedade vincada pelo conservadorismo da Católica e da hipocrisia, leva a que haja marginalização das pessoas por se assumirem.
Gostei da sua coragem e frontalidade em se assumir.
Mas na Igreja Católica, temos isto:
Maioria dos membros da Santa Sé é gay – Mundo – Correio da Manhã (cmjornal.pt)
Autor francês fez 1500 entrevistas na Cúria e afirma que 80% dos sacerdotes do Vaticano são homossexuais e muitos deles pagam por sexo.
Francisco J. Gonçalves
14 de Fevereiro de 2019 às 01:30
A esmagadora maioria dos sacerdotes do Vaticano são homossexuais não assumidos. Parte deles tem relações estáveis e outros recorrem a prostitutos.
A chocante revelação surge num livro de quase 600 páginas que será publicado na próxima semana, coincidindo com o início da cimeira papal sobre abusos sexuais na Igreja.
Com o título: ‘In the Closet of the Vatican’ (algo como, ‘No Armário do Vaticano’), o livro foi escrito por Frederic Martel.
Antigo conselheiro do governo francês e gay assumido, Martel viveu mais de quatro anos no Vaticano para fazer a investigação. As conclusões apontam que quatro em cinco padres são gay, ou seja, 80% dos sacerdotes do Vaticano.
Estes Sacerdotes criticam os outros e fazem coisa pior, devia existir Bom Senso e assumirem se, mas não, preferem a Mentira.
Ricardo
Em cada palavra, uma humanidade indescritível. Parabéns, pelo texto mágico, genial.
Amadeu Escorcio
Gostei. Há que desafiar os estereótipos daqueles que não admitem a diferença dos outros. Ou, como dizia quando era mais novo: só não sou gay porque nunca encontrei o homem da minha vida…
Maria Araújo
Com todo o respeito, e porque não sou homofóbica, parabéns pelo seu post.