a saber

Dormi ao lado do meu agressor



Nota:  a violência doméstica atinge demasiadas pessoas, independentemente da orientação sexual. 

Cheguei do Brasil há três anos. Tenho emprego e já consegui trazer a minha filha para Portugal. Ontem fui, novamente, agredida, mas acredito que o meu marido não me queria magoar. Tenho de ser paciente e perdoar. 

Casei-me, há seis meses, com o jovem português que me arrendou um quarto no seu apartamento. Julgava que o apartamento era seu, porém descobri que subalugava os quartos e dormia na sala, para ter lucro com isso. Orgulhava-se de ser «empreendedor». Eu e a minha sogra dividimos a renda e ele não contribui com um tostão. Na verdade, a discussão de ontem foi sobre dinheiro, pois ofereceu-se para pagar as nossas passagens, quando fui buscar a minha filha.

– Vou cuidar de ti e da Maria Luísa.

Os seus gritos apagam o amor que diz sentir, quando, por saudades, quis que eu regressasse o mais rapidamente possível, mas hoje:

– Tens de me pagar com juros! Sem mim, não terias conseguido voltar.

Ontem, as suas mãos marcaram o meu pescoço, prendendo-me de encontro ao chão, com os seus olhos, transformados pela raiva. Julguei que me matava.

«Não posso fazer barulho, a minha filha e a minha enteada estão a dormir» –, pensava eu. Mordi-lhe o polegar e consegui escapar. A minha sogra estava a ligar para o 112.

– Vá, vamos começar do início: boa noite, minha senhora – a voz do outro lado da linha tentava desacelerar a minha sogra, por isso o meu marido conseguiu tirar–lhe o telemóvel e desligá-lo. Ninguém retornou a chamada.

 

Apesar da hora tardia, chamei o bispo da nossa igreja mórmon. Contei-lhe tudo.

–  Não vamos falar sobre o que se passou hoje – pedia o bispo, o mesmo que nos aconselhou a casar, para não vivermos em pecado –, vocês amam-se. Eduarda, ele vai melhorar. Peçam desculpa um ao outro.

Não sugeriu que eu fizesse queixa, apesar de saber que somos todas vítimas e que ele já esteve proibido de se aproximar da mãe.

Vim à procura de uma vida melhor. Como caí nesta armadilha?

 

No dia seguinte, pela tarde, tínhamos o velório do seu avô materno. Ele acordou com febre e ficou por casa. Fui para a igreja e a minha cunhada reparou nas minhas marcas. A minha filha de três anos também.

–  A mãe caiu, filha.

A minha cunhada esbugalhou os olhos ao ouvir a história, disse-me que ele voltará a bater-me e que este ciclo não irá parar, no entanto, eu tenho medo de perder o meu emprego. A creche da minha filha custa mais de trezentos euros e não pretendo voltar para o meu país.

A Maria Luísa chegou há pouco mais de um mês. Não quero que ela se aperceba do terror que vivo. Recomeço a chorar, mas dirijo-me à esquadra, com a minha cunhada. 

Tenho pressa, ele não pára de me ligar. Pede-me fotos do sítio onde estou, quer confirmar se estou na igreja. 

Digo ao agente que tenho de me apressar. 

– A menina não pode vir aqui às pressas, isto demora tempo. Ou quer voltar amanhã? 

O Carlos não trabalha, como justifico a minha ausência? Como é que vou ao hospital mostrar as marcas que tenho no pescoço, nos braços, nas pernas? Ele continua a ligar, quer fazer uma videochamada. Pergunta-me porque demoro tanto. 

– O que estás aí fazer, se eu estou doente? O avô nem sequer era teu!

Regressamos à capela. Deixo os papéis da queixa escondidos no carro da minha cunhada. A minha filha já dorme. Não posso arriscar e ir para a casa de alguém, o Carlos iria descobrir ou, se não, num momento de raiva, poderia deitar as minhas coisas fora, os únicos bens que juntei aqui em Portugal. 

A minha sogra acompanha-nos, somos duas mulheres e duas meninas que voltam ao seu covil. Tenho de fingir que está tudo bem, por isso paramos na farmácia, e compramos paracetamol. 

Deitamos as meninas. Deito-me a seu lado. Adormeço ao lado do meu agressor.

 

Artigo inspirado em factos verídicos. Em 2022, até esta data, já morreram 22 pessoas por violência doméstica.

 

Márcia Lima Soares

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