Pois desde que parei com essa história, desde que decidi que o meu lugar nessa vida tinha que ter era a forma que eu trazia dentro de mim, foi que as cicatrizes que o senhor cravou perderam a fundura, ficaram só na pele, meu jeito, meu desejo não me doía mais, e eu pude olhar a vida desse outro lugar, mais alto, mais claro, claro que enfrentei gente, onde que se vive sem enfrentar gente? – Stênio Gardel in “A Palavra que Resta”
“A Palavra que Resta” foi publicado pela primeira vez em 2021. Nesta obra, Stênio Gardel narra a história de Cícero e Raimundo Gaudêncio, dois rapazes que vivem no campo, no interior de um Brasil típico e tradicional. Os jovens apaixonam-se mas as suas famílias acabam por descobrir e reagem de forma brutal. São separados, mas antes de se despedirem, Cícero deixa uma carta para Raimundo. No entanto, Raimundo não sabe ler e nunca se atreveria a pedir a alguém que lesse a carta por ele.
À primeira vista, “A Palavra que Resta” parece ser uma simples história de amor. E, de facto, é uma história de um amor que perdura por toda a vida, um daqueles amores inesquecíveis e únicos. Mas o livro vai além disso. É também uma narrativa sobre preconceito e discriminação, uma história de uma brutalidade maior do que poderíamos esperar inicialmente, especialmente à medida que conhecemos outras personagens da trama.
Além de retratar uma história pessoal, o livro serve como um espelho para a sociedade, reflectindo as barreiras sociais e culturais que muitas pessoas enfrentam devido à sua identidade. O autor utiliza a trajectória de Cícero e Raimundo para explorar temas como o analfabetismo, a marginalização e os traumas familiares e pessoais, que, combinados, acentuam a dor e a solidão dos protagonistas. Gardel revela, com sensibilidade e profundidade, como a ignorância e a intolerância podem destruir vidas e sonhos, tornando a obra não apenas uma história de amor, mas também uma crítica social poderosa e necessária.
Esta obra revela de forma aberta muitas das dificuldades enfrentadas pela comunidade LGBTQIA+ no passado e, por vezes, ainda hoje. A realidade retratada é tão crua que chega a ser perturbadora. Mais do que uma história de amor, este livro marca e permanece na mente do leitor precisamente por isso: pela exposição do sofrimento. Mostra também diversas maneiras de enfrentar esta realidade.
Acreditamos que este livro merece ser amplamente discutido e lido, não apenas pela comunidade LGBTQIA+, mas também por quem se encontra fora dela. “A Palavra que Resta” relembra-nos algo que muitas vezes é esquecido por quem não vive estas situações diariamente: o preconceito e o sofrimento que dele advém.
ISBN: 9789722081313
Editor: Dom Quixote
Páginas: 176
Anabela Risso


