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A Parede de Marlen Haushofer



A Parede narra, na primeira pessoa, a história de uma mulher que fica isolada quando uma parede invisível a confina a uma zona de floresta. Do outro lado da parede, não parece haver qualquer sinal de vida. Perante esta situação extrema, a protagonista, inicialmente despreparada, começa a caçar e a dedicar-se à agricultura para garantir a sua sobrevivência. À medida que as estações passam, o seu estado de espírito oscila entre momentos de pânico e bem-estar, sendo a ligação com os animais, os afazeres diários e o contacto com a natureza o que lhe dão forças para continuar.

 

Apesar da dureza do dia a dia na floresta, a protagonista não parece sentir falta da vida anterior. As suas memórias do passado revelam uma mulher passiva, que apenas se sentiu verdadeiramente feliz quando as filhas eram pequenas.

À medida que o isolamento se aprofunda, dá-se uma transformação clara na protagonista. De uma mulher moldada pela sociedade, passa a adaptar-se ao meio natural, libertando-se de várias construções sociais, como o género ou a idade:

“Perdi, ao mesmo tempo, a consciência de ser mulher. O meu corpo, mais sensato do que eu, adaptara-se às condições e reduzia os achaques femininos ao mínimo possível. Podia esquecer, sem qualquer problema, que era uma mulher. Às vezes era uma criança que andava em busca de morangos, outras vezes um homem jovem que serrava lenha e, outras ainda, um ser muito idoso, assexuado, que, sentado no banco com a Pérola sobre os magros joelhos, contemplava o pôr do sol.”

Ao afastar a protagonista da sociedade industrializada e patriarcal, colocando-a numa comunhão íntima com o mundo natural, A Parede, escrita em 1963 pela autora austríaca Marlen Haushofer, antecipa o movimento ecofeminista, que só viria a surgir na década de 1970.

A escrita clara e ritmada confere à leitura grande fluidez, sendo uma escolha ideal para acompanhar um fim de semana tranquilo em contacto com a natureza. O relato desta mulher sem nome leva-nos inevitavelmente a reflectir sobre a vida moderna e a aspirar a uma existência mais próxima do mundo natural.

 

Daniela Alves Ferreira

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