opinião

Conversa séria



Não há forma simpática de dizer isto: o resultado das Eleições de ontem foi péssimo. Sei que é justamente o que não querem ouvir neste momento. Mas é a realidade e quanto mais depressa aceitarmos isso, mais depressa reagimos.

Sei que preferiam que vos dissesse que é mentira, mas não é minimamente produtivo. Isto é mau e terá consequências. Mas, assim como negar a realidade não é produtivo, deixar-se sufocar por ela, também não.

Isto é mau, mas não é de todo irreversível, ainda que pareça cada vez mais definitivo, neste momento. Deixarem-se abater é entregar o jogo. De 1933 a 1974 houve gente que morreu sem ver a Liberdade. Houve gente que nasceu em Ditadura e morreu em Ditadura, sem fim à vista. Houve gente que nasceu em Ditadura e nunca pensou viver o 25 de Abril. Estavam numa situação comparativamente pior. E, contudo, ele aconteceu.

Por isso, aqui vai um plano de acção em traços largos, para que percebam que nada – nunca – está fechado:

Levantem a cabeça

Compreendo que talvez queiram tirar um tempo, para se recentrarem, para voltar a meter os pés no chão, para se sentirem em segurança, para pensar direito. Façam-no. Não fiquem é, contudo, nessa fase, congelados indefinidamente.

O Fascismo conta com a vossa passividade e com a colaboração prévia dos que acham que “agora é para fazer assim e é…”. Enquanto houver quem não se conforme, eles não ganharam nada. O mesmo vale no sentido inverso (e foi isso que em que falhamos). Por isso…

Reconheçam a dimensão da luta

Deixem-me pôr as coisas de outra forma. Esta Democracia foi conquistada ao longo de 47 anos de luta. Mais do que feita de coragens históricas – que também são necessárias, para criar símbolos – foi uma luta de muitos sacrifícios anónimos. Foram 47 anos de noite para presenciar a manhã que tanto esperavam os que nos trouxeram a esse dia do 25 de Abril. Mas a reacção começou nesse mesmo dia, e a noite de ontem foi o resultado de uma longa cadeia de erros políticos, de más decisões pessoais – que não começou este ano, nem nesta década.

O dia de ontem foi o resultado de 51 anos de corrosão lenta, de infiltração nas nossas instituições (desde a comunicação social às forças policiais e sem esquecer o Ministério Público), a coberto da passividade dos fracos, do ressentimento dos egoístas, da ignorância dos narcisistas e do afastamento do povo da Democracia. As razões que levaram a essa alienação podem e devemos ser analisadas, para evitar futura recaída. Mas o memento é de resposta e resistência, antes de mais.

E, para isso, é preciso perceber que para revertermos isto, não será através de «golpes de asa». Não vai haver uma acção específica que resolva tudo. Mesmo as acções simbólicas surgem no encadeamento de uma data de micro-escolhas quotidianas.

A reversão do Fascismo é uma higiene de longo prazo. Por isso…

Cuidem da vossa saúde mental

A propósito da higiene, percebam que estamos a entrar numa fase emocionalmente exigente. Não se desgastem já, porque temos um longo caminho a percorrer. Não tentem isolar-se e engolir tudo em silêncio. Isolamento é fraqueza, por mais do que uma razão. Se não conseguirem ter acesso a um terapeuta, tentem arranjar alguém – nem que seja online – que vos possa servir de voz e ouvido amigo. Não é a situação ideal, mas pelo menos evitam a sensação de desespero que deriva de estar a remoer indefinidamente em pensamentos negativos. Falar não resolve problemas – mas ajuda. Confiem em mim. É melhor fazê-lo, do que o contrário.

Arranjem diariamente um tempinho para recuperar energias a fazer alguma coisa de que gostam. Valorizem o vosso espaço e o vosso silêncio. Não sejam heróis que se estouram completamente num único acto e depois deixam de poder servir a luta, por se terem esgotado.

Todas as mãos que se removem da Democracia são mãos que estão a faltar à defesa da Democracia. Por defeito, esta é uma luta que tem sempre falta de mãos. Se já não podemos contar com as mãos daqueles que se retiram da Democracia, não desperdicemos, por esgotamento, as mãos de quem quer lutar por ela. Ou seja, …

Usem a vossa energia de modo inteligente

Muito rapidamente: quem entra no caminho do Fascismo só vai sair dele quando sentir o problema na própria pele. Logo, não percam tempo a debater malucos – ainda por cima, contas anónimas – na net. Foquem-se nos indecisos e naqueles que politicamente ainda não têm grande noção.

O Fascismo cresceu no vazio que deixamos que se instalasse, seja nos jovens ou nos idosos, a quem, nós, os mais envolvidos, nós, os mais conscientes, nós, os mais instruídos, não fornecemos formação e consciencialização política. Perdemos mais tempo a debater entre nós (“o meu activismo é maior que o teu”), do que a preencher o espaço de discussão com a nossa agenda.

O Fascismo aproveita-se do facto que o ser humano tem uma atenção limitada. Por isso, desvia a conversa dos pontos que realmente têm impacto na vida das pessoas e introduz pseudo-conversas, no seu lugar – além disso, não introduz o tema de forma neutra, mas já com uma narrativa. Quando deixamos que isso aconteça, estamos a correr atrás do prejuízo.

Em vez de rebaterem ponto por ponto, recentrem a conversa em temas que realmente importam. E vacinem os indecisos com informação, para que quando a narrativa dos Fascistas chegue aos seus olhos e ouvidos, elas possam logo ter um afastamento crítico e não se deixarem envolver.

Aprendam com um profissional de Marketing: quando somos os primeiros a ocupar um posicionamento, um espaço mental na cabeça das pessoas, o esforço está nos outros, que querem ocupá-lo, para nos remover de lá. Foi isso que os Fascistas fizeram, pela calada, ao largo da nossa indiferença, transformando cada cidadão num agente adormecido, envenenado e silenciosamente infectando outros. Até que agora, estão todos a eclodir.

Repito: isto é reversível.

Falem – silêncio é morte

Como dizia ao início, percam o medo de falar de política. Os Fascistas não têm medo de introduzir as suas lutas, ressentimentos, argumentos e narrativas no meio de toda e qualquer conversa. Eles vivem esses agravos em cada aspecto da sua vida e não se auto-censuram nunca. Por que é que nós, que defendemos uma sociedade mais humana, o deveríamos fazer?

Não deixem que as narrativas deles passem, nas conversas do dia-a-dia, sem contradito. Eles contam com o nosso silêncio. Parece contraditório com o ponto anterior, mas repito: não devem um debate aos Fascistas. Mas se sentirem a urgência de o fazer, façam-no com aquele enquadramento anterior, gerindo de modo inteligente as energias.

Quem já discutiu com eles, deve saber, de antemão, que eles dificilmente desistem, dando-nos aquela sensação de satisfação de ter vencido o argumento. E isto porque, seguindo o princípio da gestão de crise reputacional que diz” se não gostas do que estão a dizer de ti, muda de conversa”, eles vão fazer-vos percorrer uma longa cadeia de mini-discussões sem objectivo, que vos prenderá pela ideia que se finalmente os deixarem sem um dado argumento, vencem tudo por ali acima, num efeito dominó. Esqueçam. Isso dificilmente acontecerá.

Entendam que eles, antes de mais, querem desgastar-vos, para vos esgotar, de modo a que se removam da discussão (revejam a parte da conservação de energia). Se converterem alguém menos seguro, politicamente, isso é bónus.

Vocês não devem debates a ninguém

Há uma regra prática, que quem gere páginas de presenças digitais de marcas como eu, usa: ao fim de três comentários sucessivos, é uma discussão. Cortem o argumento logo, uma e outra vez. Mas – daí a importância de estarem bem, emocionalmente, para que consigam detectar este comportamento e, antecipando-o, possam jogar com ele, em vez de se deixarem arrastar pela sucessão de conversas inúteis – aprendam a reconhecer a manipulação que estão a sofrer, no próprio momento.

Se conseguirem ver a conversa de fora, reagirão, recentrando a conversa no assunto inicial. Ou façam o mesmo que eles: mudem vocês o assunto para algo que realmente seja válido, que expõe completamente a falta de soluções que eles têm. Vale para ambos, se é assim.

Notem que ninguém vai ter tempo para ler vinte comentários seguidos, para ver “quem ganhou”, a menos que já torce por um lado. Portanto, o ideal, ao fim de duas ou três trocas, é perceber que não estão a falar com uma pessoa que está honestamente a debater convosco: verbalizem a desonestidade do comportamento deles e cortem a conversa – e, em vez disso, foquem-se nos indecisos e ignorantes, a quem vocês podem realmente ajudar. Revejam o ponto anterior – vocês não devem uma discussão a ninguém.

Aproveitem para consolidar a formação política

Reparem que a política é um conceito que transcende os políticos e os partidos. A política é a actividade que decide o rumo da sociedade e ela faz-se no voto, mas também no protesto, na arte, nas conversas de rua, nas acções colectivas da associação de moradores de que fazemos parte, nos boicotes, nos projectos a que doamos o nosso IRS ou aquele livro que oferecemos. E vamos aprender isso, nem que seja à força, pelas circunstâncias.

Leiam, leiam, leiam… vejam documentários, estudem, informem-se. Participem em reuniões políticas, em debates, em grupos, em associações. Esta acção não só reduz ao vosso isolamento, como vos organiza melhor as ideias, expande as vossas perspectivas, consolida a vossa visão. E pode ser uma via de acesso a iniciativas em que podem aplicar o vosso voluntarismo, que não só ajudarão à luta maior, como vos farão sentir alguma satisfação de curto/médio prazo, que combata o sentimento de esmagamento perante a tarefa gigantesca que temos à frente.

Percebam, também, que isto é um projecto que não só é de longo prazo, como também não será resolvido por uma pessoa. Não há heróis. O processo vai resolver-se pelo trabalho de toda a gente, coordenada – ainda que possam cumprir papéis diferentes e ter abordagens diversas. E isso traz-me ao ponto seguinte:

Criem outros lutadores

Não tentem apagar todos os fogos. Vocês têm uma vida para viver – é novamente a questão da gestão inteligente da energia e o ponto de se focarem nos indecisos e não-formados politicamente. Se tentarem fazer tudo sozinhos, vão acabar esmagados. Se, contudo, educarem outros, consciencializando-os (em especial, quem é vítima directa do Fascismo, mas indo desses, para a sua rede de relações, formando aliados que se envolvem na vossa causa), mais mãos se juntarão às vossas, para vos ajudar: pessoas mais competentes do que vocês em certas tarefas poderão ajudar-vos e elas próprias, formar outros. É assim que se criam acções de resposta. Podem ter a certeza que foi assim que eles foram crescendo.

Façam-lhes entender o quão fundamental é, eles envolverem-se e ajudem-nos, guiando-os. É por isso que é importante que se consolidem politicamente: se não souberem, vocês mesmos, o que faz sentido, como os poderão ajudar a eles a percebê-lo? E, para ajudar a isso,

Vejam a luta como mais diversa

A luta faz-se, como disse, em todas as frentes: desde as mais simbólicas, como no quotidiano. Mas ela passa também pela criação de conteúdo, de doutrina, de documentação de informação. Pensem, contudo, em “documentação”, em “conteúdo” de um modo mais lato. Precisamos urgentemente de criadores de conteúdos que saibam usar as novas ferramentas. Precisamos urgentemente de pessoas que saibam fazer TikToks, memes, blogues, vídeos de canais de YouTube, etc. Entendam que “conteúdo” pode ser um graffiti. Pode ser um meme relevante transformado em autocolante. Pode ser um artigo de opinião como este. Vejam o conteúdo como todo e qualquer acto de comunicação e, neste caso, que pode ser imbuído de um argumento político (mesmo que não seja o assunto central).

Não esperem a validação de um partido. Usem a vossa própria voz. Tentem é ter um conhecimento minimamente estruturado – não só para que a mensagem passe claramente, mas também para que não cometam erros bem intencionados. Sejam responsáveis – mas não se congelem. O tempo é de acção.

O tempo é de acção, mas tudo é política. Portanto, vocês podem pegar no vosso hobby e, no meio da exploração habitual dos vossos interesses, passar um ponto político, como acima dei a entender. Foi assim que os miúdos cishétero brancos foram red pilled: eles não foram à procura de podcasts políticos. Eles queriam engatar miúdas. Eles queriam ficar ricos. Eles foram à procura de «profissionais do engate» e criptobros. Eles queriam ver streaming de jogos. Eles queriam ver o que os pares deles pensavam. Eles queriam ver comentadores de MMA.

Entendam que até estas pessoas valorizarem a política como uma dimensão essencial da vida em sociedade, estão interessados em «fun». O que me leva ao último ponto:

Não tentem dizer tudo de uma vez

A maioria das pessoas está desabituada da discussão política e até tem aversão a tocar no tema, porque já sabe que pode descambar na discussão. Mas todos sabemos a alegria que é encontrar alguém que, no meio deste caos, desolação e negatividade, concorda connosco. Contudo, nem toda a gente está necessariamente alinhada – mas, como disse, pode ser trazida para o nosso lado. Deve. Tem de ser.

Para quem já tem uma sólida formação política, a tentação é passar tudo de uma vez, tipo “Curso-relâmpago em Democracia” – até por uma questão de gestão de tempo. Contra mim falo. A atenção das pessoas é baixa. Elas só vão reter uma pequeníssima parte do que vocês disserem. Quanto mais vocês se afastarem da realidade delas e dos seus valores, mais elas começam a viajar, mentalmente, para uma ilha cheia de pinguins.

Passem uma mensagem simples, que as pessoas possam carregar consigo. Se a pessoa quiser saber mais, expandam. O mesmo vale para os conteúdos digitais. Apostem nas mensagens curtas, sintéticas. Há lugar para tudo, no momento certo. Vocês não vão salvar toda a gente. Salvem alguns, se tanto – o efeito multiplicador do ponto “Criem outros lutadores” também conta. Acima de tudo, lembrem-se que isto foi feito ao longo do tempo, com uma progressiva normalização do que era aberrante e de modo cada vez mais envolvente.

Fomos traídos pela comunicação social que preferiu lucrar com o efeito de espectáculo aviltante que eles geram. Fomos traídos pelos multimilionários, donos das plataformas sociais digitais, que decidiram que não é um problema deles, porque eles são ricos e acham que nunca lhes tocará na pele a eles. Fomos traídos pelas instituições que nos deveriam defender, elas próprias cheias de agentes adormecidos. É a nossa realidade mas, como disse, viemos de pior. Isto tem solução. Não será é tão rápida como queríamos, não será tão limpa e sem vítimas como desejávamos. Não será graças a um messias salvador (ao contrário deles, temos essa consciência do nosso lado), mas pelo trabalho de cepa de um exército cada vez maior de Democratas, amantes da República. Será feito por quem me está a ler, neste momento.

Só um último ponto

Há muitos anos que vivo, mentalmente, num paradigma pior do que este, para o qual acordam hoje. Por isso, para mim – sem desvalorizar o momento – este é apenas mais um dia. Desde muito cedo reconheci que “resistir é vencer” e que cada dia que estamos vivos, para lutar, é uma derrota para quem nos quer mal. É importante nunca perder essa perspectiva: o Progresso é natural ao ser humano, ainda que venha sempre acompanhado destes retrocessos momentâneos. A regra é sempre um passo atrás para dar dois passos à frente. Se percebermos isto, não nos deixamos assoberbar pelo momento em si, mas recebemos energia, para continuar em frente, da perspectiva do arco maior e dos que nos rodeiam que também estão na mesma trajectória.

Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas.

João Barbosa

Um Comentário

  • Ana Gualberto

    Obrigada pelo excelente texto. É muito isto que dizes. Nada está perdido enquanto não baixarmos os braços. A esquerda, toda a esquerda, tem de se deixar de questiúnculas intestinas e unir-se. Não interessa qual é a mais pura, somos todos esquerda, mais moderada ou menos moderada. O tempo é de união e trabalho, todos aqueles TPC que a esquerda não fez nos últimos anos. Procurar financiamento – há gente disposta a financiar boas ideias, nem todos os ricos são fascistas, há crowdfunding… Organizar um bom think tank, juntar professores, que têm longa prática de convencer gente relutante, linguistas para construir a nossa própria linguagem, porque é um tremendo erro continuar a combater a direita usando a linguagem da direita, gente do marketing e da psicologia para que as ideias apareçam enquadradas de forma simples e direta mas também eficaz. Apostar no soft power, ajudar o próximo, ser prestável, ser boa pessoa, recuperar a velha ideia comunista de que temos de convencer também pelo exemplo. Expor as ideias com calma, sem perder as estribeiras.
    E ter paciência: vai demorar. Mas enquanto não começarmos não teremos hipótese de chegar a algum lado.

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