opinião

Mesmo nas trevas serei resistência



F

Fui um dos filhos de Abril de 1974 e nunca pensei chegar o dia em que visse uma força política de extrema-direita ter uma votação tão superior à dos partidos de esquerda. Ontem, 18 de Maio, foi um dia triste para a democracia. Ontem fui um dia extremamente aziago para mim, alguém que desde novo luta por uma sociedade justa e equalitária. 

 
Mas, hoje, segunda-feira, outro remédio não tive senão levantar a cabeça, colocar um sorriso, amargo, nos lábios e seguir a luta. No fim das contas não é sempre este o modus operandi das pessoas queer? Fazer da dor força e da fraqueza resistência? Afinal, sempre nos ensinaram sermos errados, sempre lutámos para mostrar que não, que estamos certos e merecemos existir. Até o simples facto de eu levar no cu é um acto político.
 
No entanto, não deixo de me questionar e preocupar com o que se passa. Na semana passada aproveitei um dos poucos momentos livres que tenho e decidi ir cortar o cabelo, aqui mesmo no bairro onde moro. Saí de lá bastante incomodado – e com a promessa de não voltar – pois enquanto lá estive, o dono do estabelecimento não se poupou a elogios a um tal criminoso de seu nome Rui Fonseca e Castro. Sim, criminoso sim. Alguém que rapta os filhos, maltrata os emigrantes, publica videos nas redes sociais com nomes e imagens de terroristas LGBTQ – admire-se fui um dos visados – e com o seu bando de unicéfalos invade escolas e eventos, que promovem a inclusão e a diversidade; desculpem os mais púdicos, mas sim, trata-se dum criminoso, não de um herói. 
 
Este episódio da barbearia foi apenas um. Como aquele no Bairro Alto, no Café Suave, em que levei um estalo dum bastião do Chega , por estar a beijar outro homem, com o dichote: -Atenção que não estás em casa! (abençoado gerente, que proibiu a entrada desta canalha). Ou no dia do Arraial Pride de 2024, em que me partiram uma garrafa de litro de cerveja em cima por trazer uma t-shirt com as cores do arco-íris. Admire-se, na Rua da Escola Politécnica.
 
Tudo isto sempre foi preocupante. A partir de ontem, mais! Os ventos de extrema-direita que sopram na Europa e os resultados nas Eleições Legislativas vão normalizar este tipo de situações e fazer-nos recuar passos de gigante. Ainda mais do que já acontecia, este tipo de gente sentir-se-á no direito de nos maltratar e tentar roubar aquilo que com tanta luta nos esforçámos para conseguir.
 
Hoje, mais do que nunca, a comunidade LGBTQ tem de estar unida, ser comunidade na verdadeira definição do termo.
 
Sempre que a ditadura nos quiser calar, seremos resistência.
 
Ricardo Falcato 
 

Um Comentário

  • zé onofre

    Boa noite, Ricardo Falcato
    Quem luta pela Revolução, luta por todos os oprimidos, ela é para todos.
    Todos continuamos na luta.
    83. canção XXXIV

    025/05/14

    É p´ra anteontem
    Que ontem já é sem tempo
    Para que o futuro comece.
    Não se pode adiar mais um momento
    À espera que o Capital tropece.
    .
    Era p´ra anteontem
    E ontem adiamos p´ra hoje
    Se adiarmos ficaremos sem
    Tempo e a revolução mais longe.

    É já p’ra esta hora
    Não é para o futuro,
    Porque alongar a demora,
    É criar um muro
    A que a Revolução seja agora

    Não acreditemos
    Nos que dizem que este tempo
    Não é de revoluções, é de aceitar o que temos.
    Nós bem sabemos que todo o momento,
    É da revolução e que a faremos.

    Sei que andamos aturdidos
    Neste tempo que nos varre para fora.
    São eles que andam iludidos
    Se pensam que desistimos agora.

    É p’ra anteontem
    Deixemo-los a pensar
    Que a revolução é do passado.
    Nós sabemos e eles sabem,
    Que a revolução vai triunfar.
    Zé Onofre

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