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Não é só um mês: é a “nossa” pele, o “nosso riso”, o  “nosso” grito 



Junho chega sempre com uma espécie de sol interno. De repente, ruas ganham cor,  corpos aparecem mais livres, os abraços parecem mais longos. Para muitas pessoas  LGBTQIA+, o mês do Orgulho é como respirar à superfície depois de meses debaixo de  água. É quando, finalmente, se sentem vistos — e ver-se é mais do que existir: é  pertencer. 

Mas e quando Julho chega? 

A verdade é que, para muita gente queer, junho é o único tempo em que o mundo parece  dizer “tu podes estar aqui” sem levantar o sobrolho. Fora deste mês, o arco-íris volta a  ser só um fenómeno meteorológico e não uma bandeira que nos protege do medo de  andar de mão dada, de usar saia ou gravata, de usar binder ou batom, de dizer “a minha  pessoa” num jantar de trabalho. 

A visibilidade em junho pode parecer uma festa — e é. Mas também pode ser uma  pausa num deserto, um copo de água entre silêncios. E essa água não devia ser  racionada. 

A validação cura (mas não devia ser ocasional) 

Como psicóloga, vejo com frequência o impacto da invisibilidade crónica: pessoas que vivem no modo de sobrevivência emocional, que escondem partes de si por protecção, que normalizam o silêncio como ferramenta de defesa. A ausência de validação não é  neutra — ela dói. E mais ainda quando, uma vez por ano, o mundo diz: “Vá, agora  podem brilhar… mas só até dia 30.” 

A visibilidade tem um efeito terapêutico poderoso. Quando nos sentimos representades,  lembrades, incluídes, algo dentro de nós relaxa. A validação externa pode não ser tudo  — mas é uma ponte para a aceitação interna. E, num mundo ainda estruturalmente cis heteronormativo, essas pontes são valiosas. 

O brilho de Junho não pode ser descartável 

A psicologia tem aqui um papel profundo: ajudar a manter o brilho de junho mesmo nos meses de sombra. 

E isso começa por reconhecer a dor do apagamento — sem a suavizar —, mas também  por criar caminhos de dentro para fora: resiliência, prazer, auto-aceitação. 

Quando exercida com escuta verdadeira, a psicologia pode ser farol — não para corrigir  identidades, mas para recordar dignidades esquecidas. Cuidar da forma como alguém LGBTQIA+ se vê ao espelho não é vaidade — é reparação emocional. Criar espaços  onde corpos possam respirar sem medo é também cuidar da saúde. 

E cultivar orgulho nos dias comuns — nos dias cinzentos — pode ser o mais íntimo dos actos terapêuticos.

Porque o Orgulho, no fundo, não é sobre gritar sempre. É saber que, mesmo em  silêncio, a existência continua válida. 

Não queremos só Junho, queremos o ano todo 

Celebrar junho é importante. É uma conquista histórica, é memória viva, é grito  coletivo. Mas não podemos deixar que se torne uma cápsula de tempo ou uma montra de consumo. O orgulho precisa de estar na escola, no centro de saúde, no mercado de  trabalho, no bairro onde moramos. E também na prática clínica, onde cada pessoa queer precisa ser vista na sua totalidade — com as dores, os brilhos, os traumas e os sonhos. 

Junho é só o palco. A peça é a vida toda. 

E enquanto psicóloga, e como parte desta comunidade, acredito que a nossa saúde  mental precisa de mais do que datas comemorativas. Precisa de políticas públicas, de  espaços seguros, de amor próprio. De validação que não expire. 

Não é só um mês. 

É cor na pele sem pedir licença, 

som no peito que não se cala, 

a permanência do que não desiste de ser. 

Letícia David, Psicóloga

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