Vão ouvir-me falar mais vezes de despolarização – e da necessidade de resgatarmos o pensamento crítico, para acendermos a luz da consciência e nos aproximarmos, com empatia, da complexidade do mundo.
No auge do mês do Orgulho, celebramos a visibilidade conquistada, procurando assinalar a sua importância na vida de tantas pessoas. Reivindicamos os direitos que carecem de ser garantidos e reafirmamos a luta contra a discriminação. Desde 1969 que assim é, um pouco por todo o mundo que se foi desarmariando.
Portugal marchou pela primeira vez em 2000, de rostos velados, mas não por covid e muito menos por vergonha. Em duas décadas, vieram a união civil, o casamento igualitário e a adoção. Cada conquista foi construída nas ruas. Marchar vale a pena.
O colorido mosaico LGBTQIA+ está longe de ser uniforme na sociedade e no planeta – daí que toda a luta individual seja também uma luta comunitária. A cada passo ou conquista pessoal corresponde um impulso afirmativo de todos os corpos dissidentes que ainda ficam por libertar.
É isso que muitos não entendem – ou não querem entender. Ser queer e apoiar a Palestina é possível e profundamente coerente, porque a luta por justiça não se limita à orientação sexual, nem às questões de identidade ou expressão de género. Inclui também a liberdade, a dignidade e a auto-determinação de todos os povos e corpos.
A imagem de “paraíso queer” promovida por Israel contrasta violentamente com o bárbaro extermínio aplicado ao povo palestiniano. É uma incoerência gritante. Ao mesmo tempo que exibe uma narrativa de modernidade e direitos LGBTQIA+ para o mundo, o Estado israelita perpetua políticas de apartheid, ocupação e violência. Essa estratégia tem nome: pinkwashing – o uso instrumental da causa queer para melhorar a imagem internacional de um regime opressor. Não se pode defender a liberdade queer e, ao mesmo tempo, ignorar ou justificar a repressão brutal de um povo.
É certo que a sociedade palestiniana é profundamente conservadora e que a homossexualidade permanece fortemente estigmatizada. No entanto, há vozes e grupos queer que se levantam, tanto na Cisjordânia como na diáspora – pessoas que desafiam não só as imposições do conservadorismo local, mas também as estruturas de ocupação que condicionam todas as formas de liberdade.
O mundo não se afigura linear nem perfeito. Devemos olhar em perspectiva, com distanciamento, e ler nas entrelinhas o real sentido das incoerências.
As amarras culturais acabarão por se desprender – esvanecendo até cair por terra, como caem agora corpos dissidentes, esvaziados de dignidade e respeito. A linha evolutiva segue a linha cronológica da vida, ainda que nem sempre a percepcionemos como tal. Ninguém voltou da morte até hoje, que eu saiba. Embora haja quem os pareça querer ressuscitar.
Ao passo que a humanidade se aprimora e reinventa, as amarras repressivas abrem crateras profundas, gerando feridas difíceis de curar. Impedem de respirar outros seres apenas porque são, expressam e sentem de forma diferente do que a tradição determinou.
Mas os recuos não são necessariamente retrocessos efectivos. Se pensarmos na lógica da osmose, um aparente recuo pode ser apenas a pressão necessária para um avanço mais firme e consciente.
A ninguém devia caber o privilégio de decidir quem tem direito a existir – e em que condições o pode fazer. Só a imperfeição do sistema societário o poderá justificar.
«Duvidar de tudo ou crer em tudo são duas soluções igualmente cómodas que nos dispensam, ambas, de refletir.» (Henri Poincaré)
É por medo de nos encontrarmos que não nos projectamos no outro?
Bruno Kalil



Um Comentário
Dário Pacheco
Bravo Bruno 👏