opinião

O cu é meu



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Como os caríssimos leitores terão tido a oportunidade de perceber, sou um homem queer inconformado, consciente e que reflecte em vários temas que, ou acontecem na minha vida pessoal ou espelham situações ao meu redor. O facto de caminhar para os 50, e já ter vivido o meu bocadinho, permite-me partilhar o que penso, sem medos ou falsos pudores. 

As minhas últimas crónicas aqui.

E sim, o cu é meu e falo disso quando me apetecer. Após anos de armário, desconstrução e reconstrução, observo com alguma tristeza que continuamos uma sociedade falocêntrica. Grande parte de nós considera que para haver uma relação sexual tem de haver penetração. Pasmem-se os mais conservadores, mas o acto sexual vai muito além disso e a penetração é apenas algo que pode ou não acontecer. 

É com alguma admiração – tristeza talvez – que observo entre dois homens comportamentos que sempre criticámos nas relações heteronormativas. Ou seja, assim como para muitos homens – ainda hoje, infelizmente – a mulher é apenas um meio para atingir o prazer, tendo esta, no coito uma atitude mais passiva; muitos como eu, homens queer passivos que sentem prazer com a penetração anal, servem apenas o propósito de dar prazer ao activo, comportando-se estes últimos como os machos tóxicos que sempre criticámos.

Que vida é a minha? 

Polémicas à parte, mas meu cu minhas regras. E não pense com isto quem me está a ler que sou um santo (tentei, mas não sou). Nem quero, tão pouco dar a ideia de que não gosto de sexo: gosto e muito! E, sim, tenho os meus fetiches e fantasias – quantas vezes não sabe tão bem um mamã/papá com o meu parceiro? Ou umas palmadas? Ou uma atitude mais submissa? Todavia, recuso-me a ser – como as mulheres foram ao longo dos anos – apenas um meio para dar prazer ao homem. São preciso dois para dançar o tango. Portanto, os machos tóxicos que usam desculpas como:

# Sou activo, não chupo.

# Sou casado, não sou gay.

# Dás o cu, és a mulher da relação (sexual).

# Sou homem (seja lá isso o que for), não beijo.

Meus amigos, fica o aviso, podem bem seguir caminho. O sexo é comunhão. É dar e receber. É ter prazer e dar prazer. Se assim não for, pelo menos para mim, mal vai a banda.

E por falar em cus… 

Aquilo que digo vale o que vale. Não estou aqui para dar lições de moral – quem sou eu? – ou ditar o que é certo e errado, para isso já temos as igrejas e certos partidos de direita. Falo por mim, penso e coloco-me em questão. E aos estimados leitores, garanto que não há nada melhor que questionar o nosso conjunto de crenças.

Para mim (e volto a frisar que é como penso) um homem que não me trate de igual para igual, num patamar de respeito e confiança, não serve.

Se a ideia é comportar-me como uma senhora do Estado Novo, prefiro ter prazer sozinho. Como já disse o cu é meu – e ainda que seja tabu e vergonha para tantos, ninguém me consegue dar prazer como eu dou, só com masturbação ou recorrendo a brinquedos. No fim de contas eles estão por toda a parte, os brinquedos, e quem os quer usar, usa. Viva a democracia do corpo.

Não me quero alongar, caríssimo leitor, e reafirmo: sou queer, sou passivo e adoro uma boa queca! No entanto não coloco a penetração como fim último para atingir algo (neste caso o orgasmo). Estou e sempre estarei ao lado das mulheres e homens feministas que se recusam a ser objectos. E, reafirmo, o cu é meu!

Foto: https://depositphotos.com/pt

António S., um homem queer a caminho dos 50 anos

2 Comentários

  • Luis

    Carissimo
    Adorei o que escreveste e me revejo na tua atitude que reflete a tua maneira de estar em relação ao que deve ser o prazer. Só ao próprio diz respeito sim e tem de ser respeitado.

  • João

    Apenas um reparo: há quem não tenha prazer em chupar e há quem não tenha prazer em ser chupado. E tá tudo bem. São complementares. Se é mesmo algo da pessoa e é comunicado com respeito e consideração, não há mal. De resto, a mensagem geral do artigo é relevante.

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