opinião

A caixa de Pandora foi aberta. E agora? (II)



Lê aqui a primeira parte.

Para atingir o objectivo da eficácia, será importante reorganizar e descentralizar. 

A concentração de esforços em vários centros LGBT (como existem em Lisboa, por mérito da ILGA e da Opus Diversidades) espalhados pelo país permitiria uma melhor coordenação e criação de sinergias. Não é o meu objectivo dar sugestões sobre o modo como estes centros funcionariam. Teriam de responder aos novos desafios com eficácia. Eis alguns cenários em que uma resposta organizada poderá fazer a diferença: 

Como responder quando um grupo como o “Habeas Corpus” anunciar que irá perturbar o lançamento de um livro LGBT ou lançar uma nova lista online de pessoas alvos? Seria importante o acompanhamento dessas páginas e preparar uma resposta organizada e coordenada para tomar medidas preventivas (nomeadamente com a polícia). E exigir uma resposta do poder político e das forças de segurança, caso ocorram ataques. E monitorizar todo o processo. Imagino que haja acções reais no terreno. Mas pode ser feito algo mais?

Como responder se a polícia nos começar a “encostar à parede” à saída de alguma sauna ou outro local de diversão LGBT (a coberto de uma qualquer justificação de suspeita de tráfico de droga, por exemplo)? Seria importante saber como agir: seria melhor filmar a operação com o telemóvel? Exigir o nome dos agentes? Qual a melhor estratégia? Um grupo de juristas organizado poderia dar uma ajuda importante.

Como responder se for suspenso o financiamento de centros como o CheckpointLx ou outros centros de atendimento dirigidos a HSH? Teríamos forma de substituí-los com mecenato, apoios da União Europeia ou campanhas de angariação de fundos? Um grupo de pessoas com conhecimentos e em ligação com as entidades locais poderia ajudar.

Se algum lugar emblemático LGBT for vandalizado e correr o risco de fechar, uma estrutura local pode coordenar mais eficazmente a recolha de donativos para impedi-lo. 

Por outro lado, a criação de alianças com outros grupos LGBT e não LGBT (professores, médicos, juristas, sindicatos…) é fundamental para defrontar problemas em diferentes contextos (escolas, hospitais ou nos locais de trabalho). E quem melhor para fazê-lo do que um centro LGBT conhecedor dos recursos da sua região e que tenha um interesse transversal a todos os problemas que possam existir localmente? 

Há ainda um outro tipo de argumento para esta abordagem: a militância. A protecção da comunidade vai exigir um enorme trabalho político, social e mediático. Sobretudo quando/se começarem a tentar reverter direitos como o do casamento ou da adopção por casais do mesmo sexo. A envergadura da luta só é compatível com o envolvimento de muitas mais pessoas. E a presença destes centros a nível local poderá ser uma boa forma de recrutamento. 

Por tudo isto, deixo aqui um apelo público para começar este trabalho. Se queremos mudar as coisas, é agora que temos de agir.

“Da caixa de Pandora, na qual fervilharam os males da Humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo mais comovente; pois, ao contrário da crença geral, a esperança é igual à resignação. E viver não é resignar-se.” 

O mito de Sísifo, Albert Camus

Ter esperança não basta. Este tempo de treva tão cedo não passa. E, não havendo solução à vista, podemos resistir. Não temos de facilitar a vida a quem nos quer voltar a meter no armário. Ou nos asilos. Ou na prisão. Só depois fazer tudo o que é humanamente possível é que nos podemos dar ao luxo da esperança. De outro modo, a esperança é uma maldição. O conforto com que o medo nos corrompe.

João Francisco

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