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Corpos fora da caixa: Butler e a “cruzada” contra o género



Há livros que meramente relatam factos. E há livros que, de cada vez que viramos a página, parecem atear luz sobre a realidade que nos rodeia. Quem Tem Medo do Género?, o livro  mais recente de Judith Butler (Orfeu Negro, 2024, trad. Nuno Quintas), chega a Portugal no exacto momento em que a direita parlamentar – PSD, CDS-PP, IL e Chega –  fez aprovar, em 28 de Fevereiro de 2025, a retirada do guia O Direito a Ser nas Escolas, silenciando nas salas de aula a vida de estudantes trans e não-binárias. O cenário não podia ser mais paradigmático sobre os “fantasmas anti género” que Butler disseca ao longo destas páginas.

Esse gesto, aparentemente burocrático, é afinal sintoma de um pânico que Butler disseca desde as suas origens: do labor teológico do Vaticano sob Bento XVI, que baptizou como “ideologia de género” aquilo que não compreendia, até à retórica inflamada de Trump e ao fervor que une igrejas católica, evangélica e pentecostal num mesmo púlpito contra tudo o que cheire a “woke”.

O primeiro capítulo expõe o mapa global desse medo, e percebemos que não há inocência onde gritam slogans sobre “proteger as nossas crianças!!!!”. Logo depois, Butler mostra como a tinta do Vaticano escorreu para parlamentos, noticiários e panfletos de puritanos, instalando a ideia de que discutir género é conspirar contra a ordem natural (contranatura). O caminho nos Estados Unidos foi o que sabemos, primeiro a nível federal com alastramento a nível nacional: leis que proíbem livros, que recusam cuidados médicos, que policiam pronomes; a prova de que censura e privação andam sempre de mãos dadas. No quarto capítulo, Trump surge como o polícia do mundo e da linguagem num decreto que faz do sexo uma sentença biológica, enquanto atiça multidões contra o inimigo imaginário o politicamente correcto. Butler não poupa a esquerda quando é preciso: questiona as feministas trans excludentes e lembra as fronteiras do seu essencialismo e sugere que, se o feminismo quer ser radical, terá de enfrentar primeiro o seu próprio espelho (um espelho partido e em cacos como se vê nos resultados eleitorais da esquerda um pouco por todo o mundo).

À pergunta “então, e o sexo?”, a autora responde com paciência cirúrgica, recordando que o corpo nunca é uma simples soma de cromossomas. Depois devolve a interrogação “de que género é?”, não para exigir resposta fixa, mas para expor a violência que habita na pressa de catalogar. Quando retoma o dilema natureza versus cultura, fá-lo com a convicção de que ambos se co-constroem, que nenhum existe sem o outro (retoma aquela ideia de que não há natureza sem cultura, nem cultura sem natureza – ver Philippe Descola, Para Além da Natureza e Cultura). 

Nos últimos capítulos a autora avança para os legados racistas e coloniais do dimorfismo: recorda-nos que a ciência que legitimou impérios foi a mesma que catalogou corpos “exóticos” como desviantes. E, num derradeiro volte-face, investiga o tumulto da tradução, esse momento em que as palavras atravessam fronteiras e perdem a inocência, para nos deixar com uma conclusão que é meio aviso, meio convite: o medo da destruição exige um esforço da imaginação. A ideia de que a direita persegue o género como forma de desviar a atenção para os problemas que estão à nossa frente: destruição climática, as guerras, o extrativismo e a exploração, a desigualdade social e económica, a crescente precariedade e o desamparo económico, os sem-abrigo, os bairros de lata, a falta de habitação, as formas sistémicas de racismo, o neoliberalismo, o autoritarismo e as novas formas de fascismo. 

O coração do livro pulsa na página 144, onde Butler escreve: «Se o amor foi reduzido à heterosexualidade obrigatória e o ódio tem propagado as suas próprias distorções para justificar os ataques, então aqueles que se recusam a odiar – ou a amar por decreto – são convertidos em forças demoníacas e perigosas.» Lida no contexto português, esta frase lembra-nos que a obsessão em simplificar o mundo até caber numa caixa tem custo humano que não aparece nas manchetes: jovens a quem se ensina vergonha antes da gramática, professores obrigados ao silêncio, pais que atravessam corredores de escola como se pisassem gelo fino.

Butler insiste que o medo não é destino, é construção política. E se foi construído também pode ser desmantelado. É aqui que o livro se torna ferramenta: ajuda-nos a reconhecer a máquina que transforma categorias académicas em bodes expiatórios, o mesmo engenho que, nas redes sociais, oferece respostas fáceis a uma juventude cansada de complexidade. Contra esse afunilamento, a filósofa propõe imaginação: imaginar alianças, práticas de cuidado, linguagens futuras onde nenhum corpo seja uma nota de rodapé.

Ler «Quem Tem Medo do Género?» é, portanto, mais do que folhear teoria crítica do mundo a que chegamos. É abraçar um convite para abraçar o mundo, rasgar o pano de fundo que apresenta violência como a única via e reivindicar a dúvida como espaço de respiração. Vamos respirar mais liberdade, igualdade e fraternidade? É essa a proposta que nos lembra a revolução francesa. Num país onde se fala muito e pouco se escuta, este livro lembra que, sem pensamento crítico, a liberdade de escolha não existe. Talvez seja esse o verdadeiro terror de quem grita contra o género: descobrir que, depois de tanta cruzada, o medo não resiste à luz de uma pergunta bem feita. 

TÍTULO ORIGINAL Who’s Afraid of Gender?
TRADUÇÃO Nuno Quintas
CONCEPÇÃO GRÁFICA Rui Silva
ILUSTRAÇÃO Dayana Lucas
1.ª edição 2024
N.º páginas 400
EAN 9789899225053

André Soares

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