O Pride Month tem como propósito celebrar a diversidade e o direito de cada pessoa ser quem é, promovendo mais aceitação e tolerância em relação às diferenças — algo extremamente importante. Ao mesmo tempo, é uma altura para lembrar as pessoas que lutaram e arriscaram a própria vida para que hoje se possa ser e amar em liberdade.
Para além da conhecida Marsha P. Johnson, uma das protagonistas da Revolta de Stonewall, Sylvia Rivera — sua grande amiga — também esteve presente nesse processo de luta por igualdade e respeito dentro da comunidade LGBTQIA+.
Sylvia identificava-se como mulher trans, filha de pai porto-riquenho e mãe venezuelana. Nasceu a 2 de Julho de 1951, em Nova Iorque, onde viveu até ao fim da vida, fazendo a diferença na sua cidade natal.
Quando tinha 3 anos, a mãe — que sofria ameaças constantes do pai ausente de Sylvia — acabou por beber leite com veneno para ratos e ainda ofereceu um gole à filha, que recusou. A mãe adoeceu gravemente durante alguns dias e acabou por falecer. Nessa altura, a solução encontrada foi que Sylvia e a irmã mais nova fossem viver com a avó materna, em Jersey.
Desde pequena, Sylvia mostrava interesse pelo universo feminino — roupas, maquilhagem, acessórios… Ao reconhecer essa feminilidade na neta, a avó reagia com bastante hostilidade e agressividade. Fora de casa, nas ruas, Sylvia também sofria bullying, o que tornou a sua infância ainda mais difícil.
Aos 11 anos, decidiu sair de casa. Passava muito tempo nas ruas e, com dificuldades para se sustentar, começou a recorrer à prostituição infantil nesse mesmo ano. O que lhe deu alguma segurança foi ter conhecido a comunidade de drag queens. Com elas, pôde ser ela mesma, sem julgamentos — era cuidada, protegida e acolhida.
Foi nesse contexto que conheceu Marsha P. Johnson, e as duas criaram uma grande amizade que transformou a vida de Sylvia a partir de então. Começou a desenvolver os seus próprios ideais e a defendê-los. O seu envolvimento no activismo começou com a Revolta de Stonewall, onde esteve ao lado de Marsha. Sylvia foi presa durante a manifestação, mas não desistiu da luta: três anos depois, participou na Marcha Anual do Orgulho.
No meio do evento, pegou no microfone e falou sobre a importância das drag queens na luta da comunidade LGBT. Na altura, foi vaiada e mal recebida, o que abalou muito a sua autoestima e saúde mental. Mas ela não desistiu.
Nesse mesmo ano, Sylvia e Marsha fundaram a STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries), uma organização que dava apoio a jovens transexuais e travestis. Depois de muito esforço para juntar fundos, conseguiram comprar um prédio para acolher jovens rejeitados pelas suas famílias. Viveram nesse espaço durante muitos anos.
Aos 50 anos, Sylvia foi diagnosticada com cancro e faleceu um ano depois. Após a sua morte, várias homenagens foram feitas, como o Sylvia Rivera Law Project, que presta apoio jurídico a minorias sociais, especialmente pessoas trans e não-binárias. Sylvia continua a ser lembrada em muitas iniciativas de sensibilização sobre o papel das mulheres trans na comunidade LGBT.
Sylvia foi uma pessoa que lutou incansavelmente pelo reconhecimento das mulheres trans negras dentro da comunidade LGBT — mulheres que arriscavam as suas vidas, expunham-se e enfrentavam preconceitos que pessoas gays cis não enfrentavam.
Referências:
Foto: Por Roseleechs – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, Hiperligação
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Carolina do Nascimento Bueno, Mestre em História de Género
@mulheres_que_marcaram no Instagram


