opinião

A tirania do corpo 



(Crónica de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Sou gay desde que me conheço como gente, mesmo numa época em que ninguém o era. Ser queer era algo reservado às putas e aos paneleiros. Pelo menos era o que me diziam os meus pais. Quem era eu para questionar o que quer que fosse. Nasci para filho perfeito, não para pensar por mim. Isso foi depois, muito mais tarde.

Quem me lê sabe que observo e analiso, não para desmérito ou para dizer mal só porque sim. O mundo já tem demasiados críticos, sobretudo se fazemos parte do mundo LGBTQ. E daí nasce a minha reflexão de hoje. 

Quando era miúdo, anos 1980, havia uns quantos homens e mulheres que se dedicavam à “arte do bodybuilding”, mas era raro ver ginásios. Mexer o cu era actividade dedicada às humilhantes aulas de Educação Física, nas quais, sobretudo aqueles como eu, ainda que com botas ortopédicas e uma falta de jeito inata para actividades físicas, eram obrigados a jogos de futebol em terrenos pedregosos, sujeitos a todo o tipo de humilhação, muitas vezes por parte dos professores.

Estamos em 2025. O mundo não é o que era, para o bem e para o mal, o que foi. E em cada esquina um ginásio. Começou, até no meio científico, médico, a ser propagada a ideia da importância do exercício físico para o bem estar do corpo e da mente. E bem, muito bem… Tendo em conta as vidas que levamos – sim, somos os novos escravos -, o exercício físico tornou-se uma espécie de obrigatoriedade, para qualquer um que, como eu, está preso a uma secretária 12 e 14 horas por dia.

E, conhecendo-me o leitor, imaginará que tenho uma opinião bem própria. Ainda que ache de extrema importância a prática do exercício físico, por vezes há situações que me encanitam. E mais uma vez vou ter de falar da minha comunidade.

Aos 40 anos tive uma depressão e, devido à medicação, passei de 60 kg para 80kg. Medicação e a ternura dos 40 são uma combinação explosiva. E sim, já fiz muito ginásio… Mas, confesso, não é para mim. No entanto, para quem gosta, sou o primeiro a encorajar. Ainda que o queer aqui prefira outras andanças.

Nunca fui escravo de dietas, nem do corpo perfeito. E, confesso que adoro ver um corpo trabalhado, bonito… Ainda assim, questiono. Os meninos que vemos nas pistas de dança nos fins-de-semana, sem camisa – isso é obrigatório, tirar a camisa, claro – fazem exercício porque é bom, porque faz bem, ou simplesmente porque, tendo um corpo bonito e bem tratado é mais fácil coleccionar fodas? É que, a comprovar-se o que digo acompanhado de comportamentos discriminatórios, se tirarmos a beleza não fica nada.

Não se choque o leitor com o que digo… Não vomito palavras sem conhecimento de causa. Há cerca de um ano – e já não falo de saunas, porque, enfim… – decidi conhecer um bar de cruising. Foi um mixed feeling. Gostei de tantos corpos a transpirar beleza e saúde tanto quanto desprezei do fundo do coração todo o desprezo com que os donos desses corpos olhavam para mim, por ter a barriguinha própria de quem já passou dos 40 e não gosta de exercício físico. 

Nunca fui escravo de nada. Nem de patrões, nem namorados, nem do raio que me parta. Aplaudo de pé todos aqueles que diariamente retiram horas aos seu dia para cuidarem de si. Ah, e mais importante, não falo por despeito, cada qual sente-se atraído por quem sente. No entanto, entristece-me profundamente o perpetuar de estereótipos. Tens de ser bonito e ter um corpo esculpido para fazeres parte, caso contrário, não és digno de levar no cu ou de seres objecto de desejo.

Reafirmo o meu respeito por todos quantos fazem exercício físico e se esforçam para ter uma saúde física e mental sãs. Os outros, os que são escravos duma imagem idealizada, lamento. Tenho pena por vocês. E até por mim. Numa época em que a extrema-direita ganha terreno em Portugal e ninguém está seguro, não deveria ser a imagem física motivo de desprezo, nojo ou exclusão. Mas, isto digo eu, com os nervos…

Foto: https://depositphotos.com/pt

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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