Se houvesse um sinónimo de resistência, entrega e suor, seria o futebol (europeu) como desporto. Durante 90 (ou até 120) minutos, os atletas correm, desarmam, caem, levantam-se e continuam. É o chamado desporto-rei — uma modalidade historicamente associada ao sexo masculino, pela dureza dos confrontos e pelo risco de lesões de longa recuperação. Mas será que isso justifica o preconceito?
A verdade é que o futebol sempre carregou um rótulo heterossexual. É um espaço onde os homens são vistos como “machos”, e tudo o que fuja a essa norma é visto como corpo estranho. Quando uma mulher quer jogar, encara a discriminação. Quando um jogador se assume gay, vira escândalo. Mas porquê? Porque é que o futebol não pode pertencer a todos que o amam — independentemente da identidade ou orientação sexual?
Como ex-praticante de voleibol durante quase uma década, tenho uma confissão a fazer: adoro assistir a uma boa partida de futebol, seja masculino ou feminino, desde que a qualidade esteja presente dentro das quatro linhas. No entanto, também reconheço — e com grande tristeza — que o desporto, no geral, ainda não é um lugar seguro para a comunidade LGBTQIAPN+. E o futebol, em particular, tem funcionado mais como um repelente do que como um acolhimento.
Na cabeça de quem rejeita a diversidade, quando um futebolista revela algo “fora do padrão”, passa a ser visto como um adolescente perdido, alguém que “ainda não sabe o que quer”. Frases como “isto é uma fase, vai acabar por gostar de mulheres” ou “que não andem a brincar uns com os outros nos balneários, seus paneleiros de m****” não são apenas insultos — são agressões emocionais. Marcam. Ferem. E podem até ditar o fim de uma carreira promissora.
Para além disso, este grande passo para muitos pode criar um clima de desconforto dentro da própria equipa. De repente, os colegas começam a vê-lo como uma ameaça, ou pior: como alguém que os deseja no duche. Querem a minha opinião sincera? Nos meus tempos universitários, via os meus colegas de balneário como irmãos, mesmo sendo homossexual. Companheiros de luta num campo com 162 metros quadrados. Nunca como brinquedos sexuais. Ser gay não significa estar constantemente a cobiçar um moço — significa apenas amar de um jeito diferente. E isso ainda assusta muita gente.
Olhando para o paradigma do futebol feminino, é bastante distinto. Desde a inauguração do Mundial, em 1991, o número de atletas aumentou de forma exponencial. O espírito competitivo ganhou destaque e a antiga imagem da mulher submissa ou “fora do lugar” do desporto começou a desvanecer. Sim, ainda há preconceito, mas o futebol feminino tem sido mais aberto à diversidade — incluindo a visibilidade de jogadoras lésbicas. E isso prova uma coisa: quando há espaço para todos, o jogo só ganha. Na minha perspectiva, até se tornou, em muitos aspetos, uma lição de humildade para o universo masculino — uma prova de que também os homens podem viver com as suas verdades, sem medo nem vergonha.
Hoje em dia, já temos alguns exemplos que decidiram sair “fora do armário” e que jogam ativamente: Joshua Cavallo (Austrália), Jakub Jankto (Chéquia), Jake Daniels (Inglaterra) ou Collin Martin (Estados Unidos). Todavia, ainda há um longo caminho a percorrer. Respondendo às perguntas iniciais: o futebol é — e deve ser — acessível a todos, incluindo eu. Não tem de ser predefinido como algo “másculo” ou “durão”, porque todos temos esse lado dentro de nós — também na comunidade LGBTQIAPN+.
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Agostinho Teixeira


