(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Isto de ser gay é engraçado. Como poderei dizer isto doutra forma? Muitos de nós, nascidos nos anos 1970 e 1980, somos, de uma ou de outra forma, heróis. Abrimos caminhos, lutámos para haver liberdade e igualdade para todos, fizemos impossíveis para abrir caminhos para um mundo mais equalitário. Ainda há muito a fazer, mas as coisas estão melhores, bastante melhores.
Ainda assim muitos de nós, os que desbravaram caminhos, fomos desprezados e repudiados pela nossa família. Logo aqueles que nos deviam amar incondicionalmente. Por muito que pense não percebo em que é que o facto de gostar de homens pode incomodar tanto. Sobretudo, os que me são próximos…
Mas, não há bela sem senão – ou deverei dizer não há senão sem bela? Adiante. Ao longo destes quase 50 anos de vida, tenho observado um fenómeno curioso: quando há problemas de saúde na família, deixamos de ser o filho paneleiro/roto/vergonha da família, para nós tornarmos cuidadores. Quando a vida aperta, pouco importa se levamos no cu, normalmente somos nós que nos chegamos à frente e tornamos cuidadores.
Nunca tive grandes problemas com a minha família, um outro bronco que pus de parte, mas nada de muito grave. Nunca fiz distinção entre os meus pais e os meus avós. E, como não poderia deixar de ser, quem é que se chegou à frente e foi chamado à pedra? Consegue o leitor adivinhar? Ora bem, EU. Não me arrependo, todavia, questiono, questiono tudo. Porque somos tão maus, devido a uma orientação sexual diferente da norma? Algo não bate certo.
A minha avó faleceu no Natal passado, mas aqui o gay é que ainda este mês está a desperdiçar as férias para tratar de casas, terrenos, campas e outras trapalhadas. O filho gay, apesar de desprezado, posto de parte, indigno de ser família, quando o cu aperta, é o primeiro a aparecer. Não observo o que me acontece a mim apenas. Tenho um grande amigo, cujo pai o desprezou, mas ao ter um AVC, ninguém quis saber dele, apenas o filho que havia desprezado. Todos somos dignos de amor e, não é por gostarmos de levar no cu, que somos melhores ou piores que ninguém.
A minha orientação sexual é apenas uma parte da minha vida é só me diz respeito a min. Não influencia os meus valores ou o amor que tenho pela minha família. Pelo contrário, quando alguém precisar, só se não puder, é que não sou o primeiro a chegar. Será tão difícil para as famílias perceber isso? Eu creio que não. Mas, continua a ser. Que os nossos nos valorizem por quem somos… Se gosto de levar ou dar no cu, em nada influencia o homem que sou. Como diz o nosso Ney Matogrosso, sou homem com H. Sempre…
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António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


