Vi-me ali.
No ecrã. Nos gestos. Nos silêncios que falam mais do que mil palavras.
Chorei com o filme Alerta de Spoiler (Spoiler Alert), mas não foi só pelo que vi. Foi pelo que senti. Pelo que vivi. Pelo que continuo a viver, todos os dias.
O filme, inspirado na história real do jornalista Michael Ausiello, acompanha o amor entre dois homens, desde o início cheio de descobertas até ao enfrentamento da doença, com todas as fragilidades, medos e beleza que esse percurso carrega.
E talvez por isso me tenha tocado tanto.
Porque há histórias que, mesmo sendo de outros, parecem contar a nossa.
E foi isso que aconteceu.
Vi-me ali, no amor que se constrói no dia-a-dia, entre cafés quentes e torradas com muita manteiga, olhares cúmplices e pequenas rotinas que passam a ser tudo.
Vi-me nos abraços demorados, nas conversas interrompidas pelo medo, na força que aparece quando o outro precisa – mesmo quando nos sentimos a desabar por dentro.
Lembro-me tão bem de quando o Fernando começou os tratamentos.
Sabia que era o caminho certo, que estávamos a fazer o que tinha de ser feito. Mas foi também o momento em que o vi mais frágil.
E ninguém nos prepara para isso.
Para ver quem amamos assim – cansado, vulnerável, mas ainda com aquele brilho nos olhos que diz: “estou aqui.”
Doeu. E ainda dói às vezes.
Mas tudo é amor. Que está nos gestos pequeninos. No cuidado. No saber estar perto sem dizer muito. No silêncio que conforta.
E nisso, reconheci-nos.
O filme não me deu respostas, mas trouxe-me uma pausa.
Fez-me olhar para tudo o que temos vivido, não só com o olhar de quem cuida, organiza ou protege, mas com o olhar de quem sente.
De quem ama.
E chorei, sim. Mas não foi só tristeza.
Foi também gratidão.
Pela sorte de amar assim. Pela beleza que ainda mora nos dias simples.
Pelas flores que estão sempre na sala. Pelos risos que resistem. Pela nossa família e pelos nossos amigos e pelos nossos cães, que nos lembram que a vida também pode ser leve.
Vi-me ali.
E, no meio de tantas emoções, percebi que o que temos é real. Forte. E bonito.
Mesmo quando custa.
Mesmo quando o coração se aperta.
Mesmo quando as lágrimas aparecem sem avisar.
Porque no fim de tudo, o importante – acima de qualquer medo – é o amor.
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Rui de Sousa


