a saber

Chemsex?



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Poderei discordar do que fazes, mas lutarei sempre para que tenhas a liberdade de seres quem és.

A caminho dos 50 anos, esta coisa do chem sex é algo que não me faz muito sentido. E não, não pense o estimado leitor que estou a ser moralista – é que nem tenho roupa para isso. E quando era mais garoto, haxixe era o prato do dia. E erva. Eu e os meus amigos de então apanhávamos grandes mocas de erva. Lembro-me uma vez em que bateu tanto, numa noite de Santo António, que estava na Bica a dançar, dei um bafo eram 2 horas da manhã e, de repente, quando levantei a cabeça, já o sol ia alto. Coisas de miúdo. Acabei por deixar a erva porque batia muito e não me queria estragar.

Contudo, não há bela sem senão. Quando aos 33 anos descobri ser HIV+, enraizou-se em mim de tal forma a certeza de que ia morrer, que marchava tudo. De álcool a cocaína, a poppers… Usei tudo, para me abstrair da realidade, deturpada, que vivia então. Uma noite fui a um bar conhecido em Lisboa e cheirei umas linhas de coca com uns estrangeiros, acabei a noite/manhã a ser acordado pelo empregado na casa de banho. Eu? Eu dormia profundamente. Poppers eram o prato do dia, mas sempre com o intuito de ficar pedrado. Eu, António S. não tenho tesão com drogas, bem pelo contrário… Nunca precisei de substâncias para dar o cu (ou para foder um). Quem gosta, força nisso.

Há uns anos, num engate de Grindr, fui ter com um rapaz muito bonito. Tinha uns olhos de tirar o fôlego. Mas, assim que entrei, fiquei assustado. Queria que tivesse relações anais com ele, tinha uma qualquer substância numa seringa, não se conseguia injectar, o sexo foi para o espaço e tive de me desenrascar manualmente. Atenção, falamos de um rapaz com menos 20 e tal anos que eu. Como já disse, cada um faça o que quiser, só me pergunto: porque ou para quê?

A liberdade é o melhor que temos na vida. Ainda assim. Trabalho há uns anos numa ONG. E é raro o dia em que não tenha solicitações de pessoas que usam chems a pedir ajuda. Perguntar-se-á o leitor: então , mas pedem-te ajuda para reaprender a ter sexo sem substâncias? Mas, não… Infelizmente, o problema vai bem mais longe. Muitas vezes o que começa como uma brincadeira, para potenciar o prazer, acaba como um vício realmente perigoso e a pessoa já não funciona sem drogas, quer no sexo, quer em todos os aspectos da sua vida.

Faça cada qual a sua vontade. Mas, sendo o sexo algo tão bonito – e bom – vale a pena pagar um preço tão alto? Fica a questão…

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S., um homem queer a caminho dos 50 anos

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