a saber

A ascensão dos regimes autoritários – Argentina, Chile, Uruguai (1960s–1980s)



Como dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

embora o pão seja caro

e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros

e a tua pele, morena

como é azul o oceano

e a lagoa, serena

como um tempo de alegria

por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia

no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro

e a liberdade, pequena.

Ferreira Gullar

Contextualização

Com a Guerra Fria, que opunha a União Soviética e os Estado Unidos da América, o continente latino-americano tornou-se uma zona estratégica de grande importância. Os EUA, receosos com o avançar do comunismo no mundo, decidiram por isso apoiar uma série de revoltas e movimentos para instaurar o poder militar. Foi assim que o Chile se viu dominado pelo militarismo entre 1973 e 1990, a Argentina entre 1976 e 1983 e o Uruguai entre 1973 e 1985.

Estes regimes eram baseados num nacionalismo económico e conservadorismo moral, defendendo os interesses nacionais, a família tradicional, a religião e a hierarquia social; num anticomunismo extremo; no autoritarismo e na centralização do poder; e na ordem acima de tudo. 

Direitos humanos

A liberdade de expressão foi reprimida, jornais, rádios, livros, teatro, músicas e filmes eram censurados e muitos artistas, jornalistas e outras personalidades presos e enviados para o exílio; a prisão era muitas vezes arbitrária, feita sem julgamento justo e os presos eram torturados; milhares de pessoas foram sequestradas pelo Estado, mortas e enterradas em valas comuns; e opositores do regime, sindicalistas, homossexuais e outros eram vistos como “inimigos da pátria”, perseguidos e presos. Estima-se cerca de 30.000 desaparecidos e mais de 340 centros clandestinos de detenção na Argentina; 3.200 mortos ou desaparecidos, mais de 40.000 vítimas de tortura, 200.000 exilados políticos e mais de 1.000 casos de execução política no Chile; mais de 6.000 presos políticos, 20.000 pessoas detidas ilegalmente e alvo de interrogatórios com tortura e vigilância, e mais de 380.000 cidadãos forçados ao exilio no Uruguai. 

As ditaduras militares marcaram a América do Sul durante décadas e deixaram memórias vividas e dolorosas nos povos. Com o argumento de combater ameaças internas, estes regimes tiraram a liberdade e a vida a milhões de pessoas. Relembrar estes períodos é mais do que um exercício histórico: é uma chamada de atenção para evitar o retrocesso, para que não voltemos a ver-nos nas garras destes regimes. Esquecer o passado abre as portas do futuro à repetição da história.

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Anabela Risso

Próximo artigo: Estado Novo no Brasil (1937-1945)

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