Entre 1993 e 2002, foram trinta e três edições. A revista Lilás, publicada a partir da Amadora, surgiu após e influenciada pela Organa, uma das primeiras revistas lésbicas em Portugal. Num tempo em que escrever — e sobretudo publicar — sobre lesbianismo era ainda um gesto de resistência, Lilás propôs um espaço de encontro, reflexão e memória.
Logo na primeira página, apresentava-se assim:
“Porquê a revista Lilás? […] a vontade de pensar, falar, partilhar o lesbianismo (e também de o dançar e rir), e a vontade que as lésbicas têm de se conhecer e conhecer, cada vez mais, como é que somos e também como foi ser lésbica noutros tempos. […] circular de ideias, informações, factos, e opiniões.” (Lilás, nº1, 1993, p.1)
(Capa Lilás, nº29, 2000)
Mais do que uma publicação periódica, Lilás oferecia um arquivo vivo: incluía entrevistas, notícias de eventos, traduções de textos, depoimentos, referências culturais e um diálogo com as leitoras, que respondiam a perguntas lançadas na edição anterior.
Havia também o “Lesbiário”, secção dedicada à memória de outras mulheres lésbicas — nomes por vezes ausentes da história oficial.
(Lilás, nº21, 1998)
O debate em torno da própria palavra “lésbica” era recorrente, a urgência de reivindicar a palavra “lésbica” com orgulho — e não como insulto — revela a luta por uma linguagem que permita existir sem vergonha.
“Infelizmente, a palavra lésbica tem tido conotações negativas […] O que temos de fazer é inverter o sentido da palavra, dizendo que ‘sim, sou lésbica, amo mulheres e tenho orgulho, e ninguém me pode fazer sentir mal por causa disto’. Isto é lesbianismo. Isto é uma consciência lésbica.” (Lilás, nº1, 1993, p. 13)
(Lilás, nº11,1995)
Noutra edição, o gesto político de nomear-se amplia-se para uma ideia de cultura — não como distinção, mas como estrutura:
“A Lilás continua e continuará a preencher as abismais lacunas culturais que existem em relação às lésbicas portuguesas. […] Cultura lésbica é tudo aquilo que serve de alicerce, por muito humilde que possa parecer aos eruditos e pseudo-contraeruditos, que serve de alicerce, dizíamos, à nossa existência enquanto lésbicas. Aquilo que pensamos, aquilo que sentimos, aquilo que podemos ou não fazer, aquilo que foi feito e dito antes de nós.” (Lilás, nº5, 1994, p.1)
A cultura, nesse sentido, não é só o que é celebrado. É também o que resiste — mesmo que à margem, mesmo que sem nome próprio. E Lilás contribuia para esse alicerce através de palavras, escuta, insistência. Uma cultura feita de vozes laterais, mas essenciais. Feita também do que parecia pequeno demais para os arquivos oficiais — o gesto de dizer “nós”.
(Lilás, nº6, 1994)
Hoje, Lilás pode ser lida como documento — mas também como tentativa. De fixar experiências num país que mal as nomeava. De fazer da palavra um lugar onde se pudesse, enfim, habitar.
.
Letícia Emília Batista


