(Crónica de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Conhecerá o leitor, porventura, já um pouco da minha história, enquanto queer e activista. Nunca me atrevi a aflorar a parte familiar. Ainda hoje dói e faz muita mossa.
A minha mãe mãe vem duma família completamente disfuncional, preocupados mais com o ser do que com o parecer – atenção, amo os meus pais mais do que tudo no mundo, mas muitos poder-se-ão identificar com isto -, não conversam, gritam, enfim o tipo de ambiente que não aconselho a ninguém, pelo bem da sua sua saúde mental. Desde a juventude, devido aos traumas de infância e juventude, a minha mãe teve muita dificuldade em engravidar, chegando mesmo a perder um bebé. Lembro-me desde tenra idade de duas coisas: ela ser completamente submissa ao pai e irmãos e apresentar sempre um quadro depressivo caótico. Várias vezes atentou contra a vida, várias vezes esteve internada em psiquiatria, factos que me obrigaram a ser adulto aos 14 anos, numa idade em que deveria estar preocupado em viver as parvoíces da adolescência.
Sem se aperceber, a minha mãe sempre reproduziu comportamentos dos pais. Controladora, manipuladora, ciumenta – pasme-se, ainda hoje o faz e eu estou a caminho dos 50 anos. Imaginem o que é para uma criança/adolescente queer crescer neste ambiente. Por outro lado, havia a família do meu pai, que equilibrava, mas nunca foi o suficiente.
Alturas houve em que cheguei a pensar que odiava toda a família da minha mãe. Não por eles, mas por todos os traumas que lhe causaram ao longo dos anos. Acredito não ser fácil para uma criança ouvir coisas destas dos pais:
# Minha filha? Tanto pode ser minha como de outro qualquer.
# Passou o exame da 4a classe? Muito bem, mas ela tem dois irmãos e aos homens é que compete estudar.
Eu, talvez devido ao espírito reivindicativo, se passasse por situações destas, acho que levava sovas de meia noite, mas não me dobravam. A minha mãe tentou algumas vezes, escusado será dizer que sem qualquer sucesso.
Sempre pensei que um dia que os meus avós morressem, que a minha mãe melhorasse e os fantasmas ficassem lá atrás. Mas, pelo muito ao contrário do que esperava, está pior: humor depressivo, agressiva, ciumenta.
Não existem famílias perfeitas. Como disse não trocava os meus pais por outros, mas muitas vezes questiono-me como consigo lidar com as situações e no dia seguinte colocar um sorriso no rosto, trabalhar e responder às 1000 solicitações que tenho, por conta do trabalho enquanto activista. Não é fácil. Nunca é fácil, sobretudo quando se é uma criança ou adolescente queer. Há pouco olhei para o espelho e questionei-me: – Como és capaz, António?
A saúde mental é um tópico de extrema importância na vida de qualquer indivíduo, sobretudo ao tratar-se de uma pessoa queer. Agruras e dificuldades todos temos, eu não seria excepção, deixo, todavia, o desafio a quem me lê, que trate da sua saúde mental. O que lêem é fruto de 11 anos de psicoterapia e de muito trabalho de fundo. Por vezes, quando a vida é mais difícil, permitamo-nos sentir, estar tristes, mas, nunca nos resignemos a ser infelizes e deixar a vida passar, por conta de más escolhas que fizeram aqueles que nos rodeiam.
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Foto: https://depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos



Um Comentário
Vitor Grade
A minha terapia, na minha juventude, agora que estou a chegar aos 60, foi escrever poemas e histórias. Dos poemas que escrevi nos anos 80, rascunhos soltos em cadernos, guardo ainda memórias e um dossier com folhas manuscritas dispersas, que fui sempre deixando “para mais tarde”. Cheguei a imaginar que um dia fariam parte de um livro, mas esse livro nunca nasceu. Ficou suspenso, como tantas coisas que se deixam em pausa quando a vida se vive mais intensamente do que se escreve.
Gostei deste texto e considero que são testemunhos como este que nos dão o exemplo de que nunca devemos deixar de nos preocupar com a nossa saúde mental.