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PT em (des)construção: Re-Genderizar e Descolonizar a Língua Portuguesa



O toolkit PT em (des)construção: Re-Genderizar e Descolonizar a Língua Portuguesa é um guia apresentado pelas organizações Pela Igualdade e Grupo de Estudos Brasileiros Maria Quitéria que convida as pessoas a identificar, questionar, e transformar estereótipos de género e estereótipos coloniais na língua portuguesa para promover a reflexão pessoal e impulsionar mudanças sociais.

O Grupo de Estudos Brasileiros Maria Quitéria é uma organização estudantil que procura manter viva a história, cultura, e política do Brasil e da América Latina na cidade de Coimbra. Já a Pela Igualdade é uma organização feminista interseccional centrada nas gerações mais jovens que luta por um mundo igualitário, equitativo e livre de opressões.

O toolkit começa por reconhecer que existem várias expressões na língua portuguesa que contêm estereótipos sexistas, homofóbicos, transfóbicos, e racistas que perpetuam desigualdades e invisibilizam as realidades das mulheres, pessoas LGBTQIA+, e comunidades racializadas. As autoras reconhecem ainda que, devido à constante mudança e evolução da língua portuguesa, este guia não é um trabalho finalizado, mas sim em continua construção e adaptação, como se pode verificar pelo facto de terem já organizado eventos em Abril de 2025 para debater publicamente com a comunidade da cidade de Coimbra alguns conceitos e expressões sexistas, homofóbicas, e racistas.

PT em (des)construção divide-se em quatro partes. Numa primeira secção é apresentado o contexto por detrás deste guia. Nas palavras de Érica Moreira, Fundadora da Pela Igualdade, e Beatriz Rodrigues, Coordenadora de Advocacy e Co-fundadora da Pela Igualdade:

“No contexto actual em que palavras são instrumentalizadas, desinformação propagada através dos media sociais, reflectir sobre o poder da linguagem é mais importante que nunca. Na equipa da Pela Igualdade observamos de perto a instrumentalização por parte da direita e da direita radical da chamada “ideologia de género” para advogarem por regressões a nível de direitos humanos, direitos sexuais e reprodutivos e, até mesmo, ao nível do direito à educação sobre todas estas temáticas cruciais na construção e consolidação da nossa sociedade democrática […] Certos termos, como “pessoas que menstruam”, têm sido rapidamente monopolizados e extrapolados para aumentar a desinformação, especificamente contra a comunidade LGBTQIA+. Assim, o toolkit surge em resposta a isto, oferecendo um material consultivo, educativo e, acima de tudo, que pretende ser um convite para questionar e transformar hábitos”

Numa segunda parte, são apresentados conceitos-chave para falar-se de desigualdades de género, de homofobia e transfobia, e de racismo. Conceitos como feminismo, masculinidades, decolonialidade, orientalismo, heteronormatividade, e queer são debatidos.

Na terceira secção são então apresentadas e discutidas criticamente algumas expressões portuguesas que reproduzem estereótipos e desigualdades contra as mulheres, as pessoas racializadas, e a comunidade LGBTQIA+. Expressões como “estudasses”, “índio”, “homem não chora”, “maricas” e “fufa” são desconstruídas para revelar a origem das mesmas e para mostrar como continuar a dizê-las é violento para estes grupos marginalizados.

“Há muitas expressões que utilizamos que, se pararmos para pensar, vemos que não são as mais felizes, mas que continuamos a utilizar simplesmente porque já estão “mecanizadas” no nosso discurso. Contudo, por experiência própria, pensar e reflectir sobre elas é o primeiro passo para reconhecermos que talvez não as devemos utilizar” – Érica Moreira e Beatriz Rodrigues

Na última parte do toolkit são apresentadas sugestões de como descolonizar e re-genderizar estas expressões do nosso quotidiano. Através de técnicas de neutralização e feminização, as autoras procuram incentivar o pensamento crítico e sugerir a quem lê que adote uma linguagem mais consciente e representativa do mundo em que vivemos. Reconhecem que mudar a forma como falamos não é um trabalho fácil, mas que é importante para ampliarmos a representação das mulheres, pessoas LGBTQIA+, e comunidades racializadas na nossa sociedade, e assegurarmos um discurso mais justo e acessível para todas as pessoas.

Relativamente aos desafios encontrados na preparação do toolkit, além da escolha de conceitos-chave e expressões, a Pela Igualdade destaca que:

“É sempre desafiante trabalhar numa área que tende a ser tão atacada: a evolução da língua. Há muitos estudiosos que consideram que pensar fenómenos como a feminização ou (especialmente) a neutralização da língua é um “ataque” à riqueza desta. Se juntarmos a isto falar especificamente de questões de género, questões LGBTQIA+, e decoloniais, então o caldo entorna. Portanto, diríamos que o principal desafio foi perceber como poderíamos abordar tudo isto de uma forma leve, simples, e com um discurso amigável”

Assim, PT em (des)construção é um guia que convida à reflexão sobre a linguagem quotidiana, fornecendo alguns mecanismos para tornarmos as nossas conversas e modo de falar e representar mais inclusivos para os grupos sociais mais marginalizados. O toolkit está disponível aqui. Nas palavras da Pela Igualdade, “a mudança começa connosco, e por isso nada nos pareceu mais oportuno que começar com um material que incentiva à reflexão pessoal sobre aquilo que usamos para dar sentido ao nosso mundo: a nossa língua”.

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Daniel R. Santos

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