a ler

Quando Lisboa dorme, Elas cuidam da cidade 



“Invisíveis, elas ‘abrem a cidade’.”

— Françoise Vergès, Um feminismo decolonial

Quem atravessar o Cais do Sodré por volta das seis da manhã vê chegar em debandada as mulheres que “abrem” Lisboa: mochilas às costas, luvas de borracha a espreitar dos bolsos, saídas de Almada, da Amadora, de Queluz ou de Odivelas num vaivém ferroviário (e fluvial) que começa ainda de noite. Entre elas estão Adelina, Fernanda ou Elissangela – nomes fictícios de trabalhadoras que já venceram dois autocarros e um comboio antes das sete, para que os gabinetes da Avenida da Liberdade cintilem quando os primeiros executivos ali pousam o casaco. Viajam quando a cidade dorme, regressam abafadas em detergente quando Lisboa já janta. Sustentam‐na sem aplauso, projecto silencioso de um cuidado colectivo votado a corpos invisíveis.

É daqui que parte Françoise Vergès em Um feminismo decolonial (Orfeu Negro, 2023). Em poucas páginas, a autora recupera a genealogia da “colonialidade do poder” forjada por Aníbal Quijano – ideia de que modernidade, racismo e divisão internacional do trabalho partilham raízes siamesas – e cruza‐a com a viragem decolonial de Walter D. Mignolo e Ramón Grosfoguel, que lêem a modernidade como o avesso luminoso de uma sombra permanente: a(s) colonialidade(s). Na linhagem de Angela Davis (Mulheres, Raça e Classe, 2016), Vergès insiste que não há emancipação possível sem entrelaçar género, raça e classe – e, sobretudo, sem escutar quem limpa o mundo enquanto os outros lhe acrescentam camadas de pó.

Ao denunciar o “feminismo civilizatório” – esse verniz liberal que justifica guerras “em nome das mulheres” enquanto ignora as trabalhadoras que esfregam o chão – Vergès escreve: “O homem branco (outra invenção da colónia) constituiu uma ferramenta poderosa de controlo racial, e a análise da colonialidade de género não pode prescindir de prestar atenção em masculinidades diversas” (pp. 92-93). A frase acende duas pistas: lembra-nos, por um lado, que nem todas as masculinidades ocupam o mesmo degrau de poder; por outro, reconduz o debate queer às entranhas da economia doméstica.

O resultado é um ensaio curto, feroz e militante que interessa – e muito – a todas as comunidades subalternizadas. Porque sem as mulheres que descem na Linha de Cascais ou atracam nos barcos do Barreiro e de Cacilhas às primeiras luzes do dia, não haveria cuidado. Vergès obriga-nos a abandonar o palco confortável da representatividade e a olhar para o chão sujo da cidade, lembrando que descolonizar o feminismo começa por dar bom-dia a quem, desde a madrugada, já cuida do nosso presente comum.

.

Tradução: Anabela Carvalho Caldeira e José Alfaro

EAN: 9789899071575

Data de publicação: janeiro de 2023

Nº de páginas: 152

.

André Castro Soares 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *