(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Nunca me ouvirá o caríssimo leitor dizer que antigamente é que era bom. Deixo esse discurso bafiento para os saudosistas do tempo da outra senhora ou para aqueles que, ainda que usem muito o Tiktok, votam Chega e pensem como os velhos do Restelo de outrora.
Ainda assim, aqui vai mais uma – talvez várias – reflexão. Quem como eu cresceu nos anos 1980 e 1990 sabe que o mundo evoluiu à velocidade da luz… E como. Recordo-me de ser pequeno e ter uma televisão a preto e branco, apenas com dois canais. Desenhos animados? Às vezes, ao fim da tarde e fins de semana de manhã, isto é, se não houvesse nenhuma data que o governo se lembrasse de celebrar em directo, só mesmo para nos lixar a diversão. Computadores? Lembro-me dumas coisas pretas e pesadas ligadas a um gravador de K-7 (ver no Google, por favor), que corria uma série de tempo – já não me recordo bem ao certo – para lançar um jogo totalmente mal feito, mas que para nós, filhos de Abril, era uma invenção fantástica. Falo-vos ainda, caríssimos, do telefone. A primeira vez que tive um em casa tinha já 8 anos. E nada tinha a ver com os computadores de bolso que utilizamos actualmente no bolso, que também servem para quase tudo menos para telefonar. Eram aparelhos pesados, sem teclas, mas com uma roda – na qual se marcavam os números -, normalmente, pretos e feios… Mas há mais. Para o usarmos, tínhamos de esperar uma certa hora, pois a tarifa era menor. E combinar coisas com os amigos pelo telefone? Uma aventura digna de filme – ou objecto de estudo – nos dias de hoje. Combinávamos falar às 9 da noite e tínhamos de estar a essa hora à frente do bicho. Se nos descuidássemos um pouco com as horas, o amigo para quem íamos ligar podia estar ainda em casa, mas também podia acontecer – e acontecia com frequência – o amigo já ter saído. E lá ia a conversa… Ou o copo que havíamos ficado de ultimar detalhes.
Evoluímos imenso, sobretudo do ponto de vista digital. Há cerca de 25 / 30 anos, e porque as telecomunicações em nada se comparam com a realidade actual, vimo-nos obrigados a usar a imaginação. Lembro-me de ser adolescente – e sim, porque havia deixado passar a hora de ligar – e de ir ao café do costume, com sorte encontrava lá a malta (coisa que acontecia frequentemente). E era bom. Convivíamos. Conversávamos. Passávamos horas esquecidas na mesa do café a conversar sobre tudo e sobre nada, com a mesa cheia de copos de cerveja vazios e um cinzeiro a transbordar de beatas – sim, sim… Nesses anos estranho era quem, com 14 ou 15 anos, não andasse com o seu maço de Ventil ou Gigante no bolso.
Mesmo mais tarde, quando comecei a ir para o Bairro Alto e Príncipe Real, pois que sim, que tinha curiosidade em conhecer bares e discotecas gay, toda a dinâmica de engate era diferente. Ele eram olhares, toques de dedos, pagar um copo àquele que nos interessava – ou ainda, para os mais desinibidos, sentir a mão no coiso ou o coiso na mão. Era o que era, nem bom nem mau, fruto duma sociedade que entrou tarde na cultura capitalista em que vivemos actualmente.
Aqui o vosso queer a caminho dos 50 fez uma licenciatura, todavia, o meu Google da altura eram umas pequenas fichas em cartolina, organizadas alfabeticamente num sem número de gavetas e gavetinhas. Confesso que hoje não sei se seria capaz. Fiz outra licenciatura pouco antes dos 40 e, acreditem, era muito mais fácil demorar menos de um minuto a fazer uma pesquisa no telemóvel, do que as horas que passava na biblioteca com as nada saudosas fichas de cartolina. Outros tempos…
Ainda assim a evolução tecnológica e digital não trouxe só coisas boas. Contra mim falo. Acho que nos tornámos escravos do aparelho que carregamos – eu pelo menos carrego – no bolso das calças. Escravos da imagem que queremos vender nas redes sociais, escravos dos emails de trabalho, escravos de likes e taps e… Quando penso nisso – e atenção que sou alguém que usa bastante as redes sociais – chego a ter raiva de mim. Onde é que está o tio gay que passava horas, em jovem, a conversar no café? Juro-vos que me zango e por uns dias ponho o telefone de parte, pois gosto de conversar e de conviver, muito mais do que estar atrás de um ecrã. Já me chegam as 40 horas semanais, não???
No nosso mundo – o queer meninas e meninos, não se percam, para isso estou cá eu – acho que toda esta evolução nos trouxe mais malefícios que coisas boas, sobretudo no que diz respeito à parte relacional. Com o aparecimento dos Grindrs desta vida (e sei que há estudos acerca disto) deixamos de ser homens e mulheres. Apenas uma montra onde este é gordo, aquele feio, aqueloutra nada atraente. Desumanizamo-nos e com isso perde-se todo o jogo que antes havia: o flerte, a troca de olhares, a piadola, o piropo. A certa altura, já tão sovados que estamos desta roleta russa, começamos a acreditar no que nos dizem. Vamos a um bar e ao invés de ver o que se passa à nossa volta, sentir o ambiente, olhar as pessoas nos olhos, é-nos mais confortável estar camuflados por um ecrã. Atenção, fiz isto várias vezes, utilizando para comigo a desculpa:
– Oh, António, tímido como és, o melhor mesmo é estares a fazer scroll na aplicação. Meter conversa? Pagar um copo? Opa, tem juízo, nem tu tens 20 anos, nem o mundo é o mesmo.
Felizmente – digo isto de coração aos estimados leitores – consegui apagar essas aplicações, e é tão bom. Até conheci alguém, como sabem. E não, não foi online.
Há ainda uma outra situação que me azeda o espírito, e como tal cá vai. Mas alguém me consegue explicar qual o intuito de ir tomar um café com um amigo (namorado, marido – usar o adequado) e este estar agarrado constantemente ao telemóvel? Ou estar numa mesa cheia e cada qual agarrado ao seu tirano? Que foi feito da nossa capacidade de conversar, rir, trocar ideias? Ter-nos-ão estas faculdades sido roubada pelo opressor? (em tirano e opressor, ler telemóvel. Não são sinónimos?). Não percebo certos fenómenos, juro que tentei, mas não compreendo. Se saio para namorar ou conversar, o telemóvel fica no bolso – ou, vá, em cima da mesa, sem som e com o visor para baixo – , pois a ideia é namorar ou conversar, se não fosse esse o objectivo, para quê gastar dinheiro no café se poderia ter ficado em casa, tranquilamente, a fazer scroll passivo. E pronto, vá, desculpem os leitores o desabafo… Mas ele há coisas que me encanitam.
Se saio para namorar ou conversar, o telemóvel fica no bolso – ou, vá, em cima da mesa, sem som e com o visor para baixo – , pois a ideia é namorar ou conversar, se não fosse esse o objectivo, para quê gastar dinheiro no café se poderia ter ficado em casa, tranquilamente, a fazer scroll passivo.
Com toda esta revolução tecnológica e digital, é certo, mudanças seriam de esperar. E a vida melhorou, substancialmente, em muitos aspectos. No entanto, continuo a questionar-me como é que nós, seres humanos, escolhemos sempre 90% do pior. E não, não estou a mandar isto para o ar só porque sim, nem tão pouco por achar que a minha opinião é mais válida que a dos outros. Fui o primeiro a confessar que muitas vezes escolhi os 90% do pior. E não imaginam o quanto me policio, de forma a não cair em tentação.
Num mundo onde a direita quer governar, onde – pelo menos pelo que nos vendem na televisão – parece estarmos à beira duma terceira guerra mundial, neste mundo tão desumanizado, se calhar vale a pena colocarmo-nos em perspectiva. E porque convido a isso? Primeiro, porque o faço constantemente e asseguro que vale muito a pena. Depois porque sonho com um mundo com mais conversa, mais beijos, mais sorrisos. Estejamos conectados sim, não ao wi-fi, mas uns aos outros.
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Foto: depositphotos.com/pt
António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


