opinião

Situationship



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

Situationship: A romantic or sexual relationship that is not considered to be formal or established. (Oxford)

Curioso como, em psicologia, estão sempre a aparecer novos termos. E, confesso, apesar de ser uma pessoa interessada, muitas vezes, a menos que passe pelas coisas, estas definições que enchem o mundo moderno passam-me completamente ao lado.

Perguntar-se-á o leitor porque decidi abordar o assunto. Mas, não se está mesmo a ver? É que, ainda que caminhe rapidamente para os 50 anos, sou um queer moderno. Claro está que me envolvi numa “situationship”. 

Não sei até que ponto o que se passou há uns meses comigo encaixa a 100% na definição do Oxford. Umas vezes era amizade, mas mais, não só amizade, outras era um “vamos ver no que dá sem pressões”, outras nem consigo definir. 

Uma das coisas que define a “situationship” é que há sempre duas criaturas com os mesmos papéis: um, que ama e procura compromisso; outro, que não sabe lidar com as emoções e, portanto, recusa rótulos e empurra com a barriga. Claro que teria de ser o primeiro. Não me chamasse eu António e facilmente seria confundido com o Simão do “Amor de perdição” (gargalhada nervosa).

Não foi uma situação nada fácil de gerir. But we need two for tango. E eu nunca fui adepto de dançar sozinho. Gosto de conversas honestas e metas claras, se assim não for sou o primeiro a deixar o barco.

Foi complicado gerir a situação e a catadupa de acontecimentos e sentimentos. De um momento para o outro dei por mim com uma auto-estima de merda, a replicar comportamentos do passado. E não, não desisti à primeira contrariedade. Muito pelo contrário. Insisti – sempre na esperança de que algo iria mudar – até que tive de desistir. Se temos de batalhar para caber no mundo de alguém, foi porque nunca lá pertencemos. E não é apenas isso. Há que priorizar a saúde mental e o nosso bem estar.

Tenho a certeza de que sairão vários estudos acerca do tema. No entanto, só posso partilhar o que tirei para mim de todo este circo. O que era amor, talvez namoro, depois ah e tal, namorar talvez… Ficou apenas uma amizade. E digo isto, respirando de alívio. Cada qual viva como queira, mas a mim caem-me mal situações pouco claras. Custou e doeu sair disto. E chorei e bati com a cabeça… Mas passou. No fim de contas, já dizia a minha avó, há solução para tudo, menos para a morte.

E a vida continua. Não posso, no entanto, estimado leitor, deixar de lamentar toda a falta de amor e empatia existentes na nossa comunidade. Mas não é por morrer uma andorinha, que acaba a Primavera. O meu coração? Continua aberto ao amor.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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