opinião

Excesso de futuro dentro do peito 



(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)

A saúde mental é um dos flagelos dos tempos modernos. E estudos há – sei pois já organizei um sem número de conferências acerca do tema – que comprovam que a comunidade LGBTQIA+ é a que mais sofre com problemas de cariz mental (atenção, sofremos mais, estamos longe de ser malucos).

Embora muitos de nós procuremos ajuda, façamos terapia, nos rodeemos de pares, continuamos a ser empurrados para dentro dum quadrado, apesar de o nosso lugar ser o mundo. Desde que me lembro de mim enquanto pessoa que sofro de ansiedade. Os meus pais quando descobriram a minha orientação sexual, claro está, empurraram-me para um psiquiatra que, além de me diagnosticar de forma errónea com depressão genética (soube há pouco que tal não existe, pelo menos nos termos em que me foi vendido), me disse que a minha paneleirice era só uma fase. Aos meus pais ainda perdoei. Que poderiam fazer duas pessoas com a 4ª classe, senão “ajudarem” o único filho. No fim das contas, eram eles que precisavam de ajuda. O médico? Mandei-o à m… no meu mais perfeito português.

E acho que isto aconteceu um pouco com todos nós. Até à idade adulta fomos obrigados a criar uma imagem de quem nunca fomos, para não nos sentirmos ainda mais rejeitados, magoados e postos de parte por aqueles que amamos e pela sociedade.

Apesar de achar que a ansiedade pode ser algo, de certa forma, congénita ou algo a que podemos ser mais propensos, todos os dias me chateio e discuto com a minha. Se saio com alguém, refilo com ela porque me põe a fazer filmes ao invés de me deixar aproveitar o momento. Se é domingo, sou capaz de a fustigar porque me faz passar o dia a pensar em tudo o que tenho de fazer segunda-feira. É cansativo, é doloroso por vezes, mas, e apesar de ser aborrecido, muitas vezes nada mais podemos fazer a não ser aceitar.

É um excesso de futuro que me oprime o peito. É um receio absurdo da rejeição. É uma procura incessante de validação. Se preciso ou quero tudo isto? Claro que não. Mas, acredito que a ansiedade seja um mecanismo de defesa que usei durante anos, quando não me era permitido existir.

Já aqui exortei, pedi, implorei ao estimado leitor… Tomem conta da vossa saúde mental. Os números estão publicados e não mentem. A taxa de suicídio cresce a cada ano.

Possamos ser sempre verdade, a nossa verdade. Possamos ser também empatia, para nós próprios e uns com os outros.

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Foto: https://depositphotos.com/pt/

António S.um homem queer a caminho dos 50 anos

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