opinião

Activismo que salva



Sempre fiz algumas coisitas aqui e ali, nunca imaginei que o facto de ter vivido cerca de sete meses no Alentejo, durante a pandemia, o ter vindo de lá fugido, por nunca esconder ser gay, e o regressar a Lisboa me pudesse salvar a vida. Sim, o activismo salvou-me a vida.

Cheguei cá e, para quem acredita, os astros sorriram. Sou seropositivo, como toda a gente sabe, e fui logo convidado para participar da campanha “Sou VIH+ e visível“, tive o meu rosto estampado de Norte a Sul de Portugal. Nunca imaginei as repercussões. Acredite-se ou não ainda hoje há pessoas que me procuram e pedem ajuda, devido a uma campanha que veio a público em 2022.

Na véspera da campanha, sem falar desta, dei uma entrevista na rádio. E umas semanas antes, aqui neste mesmo jornal, escrevi um artigo de opinião, assumindo-me como homem gay que vive com VIH.

E depois, foi tudo muito rápido (acho que ainda é). O presidente do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), João Brito, convidou-me para a sua lista, ganhámos e lá estou eu na direcção. Continuei a escrever para o dezanove. Mas, houve mais.

Trabalho na Fujitsu Portugal. Temos um programa forte de responsabilidade social e eu, como não tinha mais nada para fazer, comecei a envolver-me nas actividades. Primeiro a medo, principiei por abordar questões LGBTQIA+, depois, não sei bem como aconteceu, alguém resignou do cargo de Pride Network Lead, eu avancei, as minhas chefes foram de baixa de parto e foi-me pedido que dinamizasse uma actividade a cada seis meses. Quem me conhece bem, sabe que isso seria muito pouco. E quando elas voltaram das licenças, eu havia dinamizado dois eventos por mês. Nem sempre foi fácil e tenho um carinho grande por quem me ajudou e incentivou (tenho razão, Inês Reis?) Dei por mim a coordenar actividades para países tão diversos como Portugal, Polónia, Índia, China, Japão, Filipinas e Costa Rica… E tive de aprender muito, cada país tem a sua cultura, mas, juntos, aprendemos a quebrar barreiras e a construir um mundo melhor para todos. Estou há três anos no cargo e não pretendo sair. Apesar de a minha chefe ter dito, gosto muito do teu trabalho, mas 1500 horas de voluntariado…

Continuo, dentro e fora da empresa, a trabalhar muito a questão do VIH. Faz-me muita confusão, no ano de 2025, haver tanta gente com preconceitos para com quem vive com a infecção. Tenho imensos amigos que escondem o seu estado, por receio de retaliações. E, acreditem, há muitas dentro da comunidade LGBTQIA+. Mas peguei neste tema, primeiro porque me é querido, depois porque, mais recentemente fui convidado pela enfermeira Catarina Esteves, do Hospital de Cascais, e com a Dra. Diva Trigo, do Hospital Fernando da Fonseca, para fazer acompanhamento interpares. Em que consiste, perguntar-me-ão? Quando há pessoas com diagnósticos recentes, que não recebem bem a notícia, o meu número de telefone é dado e eu acompanho as pessoas. E é muito bom fazer por alguém o que nunca fizeram por nós.

Perguntar-se-á quem me lê: mas o activismo salvou-te como? Acrescentando horas ao teu dia? Nada disso. O activismo fez-me colocar a minha vida em questão. Odiava o meu trabalho, mas, ainda assim, consegui dar a volta por cima e dar sentido à minha vida… Não se pense que não tenho tempo para namorar, sair com amigos, o que seja, mas cada minuto que dedico a quem precisa, são anos de vida que ganho enquanto pessoa.

O meu maior desejo? Um dia, quando morrer, saber que dei o meu melhor e que deixei este mundo um melhor lugar. Por mim, por ti, por todos.

.

Ricardo Falcato 

Um Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *