(Crónicas de um homem queer a caminho dos 50 anos)
Quando a minha ela morreu, no Natal, tinha de sair de casa. Quando o Pedro, o meu primeiro amor morreu, durante a pandemia do COVID, sem poder despedir-me dele, tinha de sair de casa. Sempre fui ensinado que chorar era coisa de gente fraca. Por isso, sim, saía de casa para chorar. Nem pensar deixar os que me são próximos perceberem que estava mal por algum motivo. Logo eu, que sempre cuidei de toda a gente, nunca me permiti ser um peso para ninguém.
Depois do que aconteceu ontem, comecei a sair de casa. Fomos sair, como amigos, e eu estava convencidíssimo de que já nem tinha sentimentos românticos por ti. Foi um jantar agradável e uma noite de copos simpática, até me dizeres que te havias permitido sair comigo, para esquecer alguém. Que sim, que gostas muito de mim, como amigo e, portanto, não podias continuar a esconder. De novo, cerrei os lábios, fingi estar bem. Ouvi a tua história, precisavas de conversar. Mas, cá dentro, quebraste-me em mil pedaços.
Convenci-me de que não te amava, pois havia passado semanas de dúvida, de angústia, de sofrimento. Convenci-me de que não te amava, pois, uma vez mais não quis preocupar os que me rodeiam. E sim, cheguei a pensar que podia conhecer e estar com outros homens. Este mentir a mim próprio funcionou, de certa forma, até me voltares a partir o coração.
Estavas embriagado, não quis chorar à tua frente. E ao sentir que a dor se materializava em lágrimas, fui à casa de banho e mordi o braço com toda a força. Não podia permitir que me visses chorar. Voltei, cuidei de ti. Meti-te num táxi com a promessa de que me telefonarias ao chegar a casa. Não me amas, mas eu sim. Quando, finalmente, ouvi a tua voz do outro lado da linha, sosseguei e verguei ao peso do que sentia.
Foi a última vez que te vi. Meu último grande amor, desejo que sejas feliz. Por vezes, por muito que doa, é preciso deixar partir. Foste e não voltaste mais. Nem sequer te questionaste do porquê de eu ter parado de ligar ou mandar mensagens. Espero que o meu sofrimento não tenha sido vão e que tenhas encontrado alguém que te fizesse feliz.
Quanto a mim, voltei a sair de casa e a vestir preto. Desta vez fui eu quem morreu.
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António S., um homem queer a caminho dos 50 anos


