Escrito em 1981 por Annie Ernaux (1940, França), vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2022, A Mulher Suspensa reflecte o estilo característico da autora, que combina autobiografia e análise sociológica para oferecer um olhar íntimo e crítico sobre a condição feminina.
A narrativa percorre várias etapas da vida da protagonista e inicia-se na infância, marcada por referências femininas fortes, um pai cuidador e, sobretudo, uma mãe confiante e destemida: “Através dela eu sabia que o mundo existia para nos lançarmos nele e sentirmos prazer, que nada nos poderia impedir disso.” Este ambiente inspirador desperta-lhe o desejo de autonomia e de afirmação profissional.
Contudo, a entrada na escola revela um choque: depara-se com um mundo contrário ao que conhecia, regido por normas de género rígidas, em que se esperava delicadeza e submissão das raparigas, força e racionalidade dos rapazes. Apesar de não se identificar com essas expectativas, com o tempo, a pressão social e o desejo de amor masculino levam-na a aproximar-se do modelo tradicional de feminilidade, cumprindo o destino traçado para uma mulher: casar, ter filhos e cuidar da casa e da família.
O quotidiano do casamento e dos filhos expõe enormes desigualdades entre marido e mulher: “Por que razão, dos dois, sou eu a única obrigada a tentar saber quantos minutos para um frango, se se tiram as sementes do pepino (…) enquanto ele fica a estudar intensamente o seu direito constitucional.” As tarefas domésticas ocupam-lhe tempo e mente, “A roupa a escolher para a máquina de lavar, um botão de camisa para coser, consulta no pediatra, já não há açúcar”, e relegam frequentemente o percurso profissional para segundo plano: “Não tive tempo para enviar um único trabalho durante o primeiro trimestre (…) os meus objectivos anteriores perdiam-se numa névoa estranha.”
É desta experiência de desconforto face à desigualdade de género que nasce a tensão central da obra: de um lado, a identidade construída a partir de referências femininas inspiradoras; do outro, as normas sociais que confinam a mulher à domesticidade. “Como pude pensar que era isto a plenitude!”
Como feminista, é angustiante constatar que, quase meio século depois, a leitura continua perturbadoramente actual. Quantas mulheres continuam a viver o dia a dia desconfortáveis com os papéis que lhes são impostos? Quantos homens ainda hoje investem nas suas carreiras, usufruem de tempo livre e cultivam interesses pessoais, enquanto as suas companheiras permanecem sobrecarregadas por uma rotina exaustiva de tarefas domésticas e cuidados familiares? Para eles, a liberdade; para elas, o desgaste e a limitação de horizontes.
Mas a leitura é também inspiradora, no sentido de nos estimular ao activismo, contribuir para dar visibilidade a outras formas de existência: mulheres sem filhos, solteiras, em relações não convencionais, centradas na carreira, na criação artística ou em qualquer outro projeto. Romper o círculo de opressão denunciado no livro exige abrir espaço a modelos de vida plurais, para que a escolha de cada mulher seja verdadeiramente livre e emancipadora.
Sendo uma obra autobiográfica, o livro coincide com a fase em que Ernaux se separou do marido, simbolizando o início da sua libertação. É uma leitura indispensável para compreender como a intimidade pode ser um lugar de opressão e como a libertação é, mais do que uma experiência íntima, também um acto político.
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Daniela Alves Ferreira


