Vivemos tempos conturbados na Europa e no mundo. No próximo ano, quando o Festival Eurovisão da Canção celebra o seu 70.º aniversário, o evento tornou-se inesperadamente um reflexo das tensões geopolíticas actuais. Desde a guerra na Ucrânia à ascensão da extrema-direita na Europa, passando pelo conflito no Médio Oriente, o clima internacional é marcado por violência, violações de direitos humanos e uma crescente pressão sobre os governos ocidentais, acusados de inacção. Salienta-se que o genocídio praticado por Israel em Gaza foi reconhecido pela ONU, manchado pela morte de mais de 64 mil palestinianos, incluindo mulheres e crianças. Neste cenário, muitos fãs da Eurovisão defendem que a presença de Israel no concurso é inaceitável e exigem a sua exclusão.
A contestação já chegou a várias emissoras públicas. Como salienta o artigo publicado pela Euronews, televisões nacionais da Eslovénia, Islândia, Espanha, Irlanda e, mais recentemente, dos Países Baixos declararam que a sua participação na 70.ª edição do festival dependerá da exclusão de Israel.
Na assembleia-geral da EBU (European Broadcasting Union), em Julho, a Eslovénia foi a primeira a anunciar que não competiria caso Israel permanecesse no programa. Desde então, outras estações seguiram o seu exemplo. A RTÉ, televisão pública irlandesa, afirmou que não só não participaria na competição, como também não transmitiria o programa. Recorde-se que, em 2024, Bambie Thug, participante da Irlanda, foi uma das vozes mais críticas em relação ao que classificou como intimidação por parte da delegação israelita durante o concurso.
Também a emissora islandesa manifestou dúvidas sobre a sua participação em 2026. A AVROTROS, responsável pela transmissão nos Países Baixos, ameaçou retirar-se pelo mesmo motivo. O episódio de 2024 da expulsão do cantor neerlandês Joost Klein continua a marcar o debate, em torno da alegada agressão a uma repórter israelita, acusação que nunca foi provada.
Outro ponto de pressão significativo envolve a posição de Espanha, pertencente aos chamados Big Five (Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Espanha), que financiam grande parte da Eurovisão e têm acesso directo à final. Dentro deste grupo, a Espanha tem sido uma das vozes mais críticas em relação à participação de Israel e afirma igualmente que não participará caso Israel se mantenha no concurso, o que aumenta a pressão sobre a EBU.
A lista final de países a concurso será conhecida até Dezembro de 2025. Entretanto, o risco de uma edição fragilizada cresce a cada nova ameaça de boicote. Para ganhar tempo, a EBU decidiu prolongar o prazo de confirmação de participação, inicialmente fixado para 13 de Outubro, até meados de Dezembro.
“As emissoras têm até meados de Dezembro para confirmar se desejam participar no evento do próximo ano em Viena. Cabe a cada membro decidir se quer participar no concurso e respeitaremos qualquer decisão que as emissoras tomem”, afirmou Martin Green, director da Eurovisão, à Sky News em Setembro.
Resta agora perceber se a participação dependerá exclusivamente das emissoras nacionais ou se a EBU avançará com a exclusão de Israel.
A RTP ainda não manifestou a sua intenção de participar no certame em 2026. Certo é que as vozes dos últimos vencedores que representaram Portugal já se manifestaram várias vezes contra a presença e actos de Israel em Gaza, nomeadamente Conan Osíris, Iolanda, Salvador Sobral, António Calvário, Fernando Tordo, Lena D’Água e Rita Reis (das Nonstop). Os últimos cinco cantores chegaram mesmo a subscrever uma carta aberta onde pediam a exclusão de Israel da edição anterior.
Recorde-se que, este ano, graças ao televoto a cantora israelita, Yuval Raphael, que sobreviveu ao atentado de 7 de Outubro de 2023, obteve a maior votação do concurso ficando em segundo lugar. A situação levou Espanha a pedir uma investigação ao televoto que deu pontuação máxima a Israel em vários países.
É longa a relação entre os fãs LGBTIQIA+ e o Festival da Eurovisão, palco de celebração da união, diversidade e de paz. Por isso mesmo, muitos fãs exigem agora boicote enquanto Israel permanecer no certame.
Viena acolherá o evento, se a edição de 2026 vier a ocorrer, entre 12 e 16 de Maio.
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Ricardo Duarte
Texto revisto por Cláudia Almeida e Paulo Monteiro


