Muitos de nós conhecemos a Frida Kahlo como artista, latina, bissexual, esquerdista, com limitações físicas. A temática deste artigo é mais voltada para a sua bissexualidade e como a história acaba por apagar as mulheres por quem Frida se apaixonou fora Diego Rivera.
Nascida na Casa Azul, na Rua de Londres, em Coyacan, Cidade do México no dia 6 de Julho do ano de 1907, filha de uma mulher mestiça mexicana e de um fotógrafo alemão e judeu, Frida Kahlo passou toda a sua infância na casa que havia sido construída no ano de 1904 pelo seu pai. Na infância sofreu de poliomielite, o que moldou a sua personalidade tornando-a mais solitária e imaginativa. Na adolescência começou a estudar numa Escola Preparatória onde conheceu o seu primeiro amor: Alejandro Gómez Arias, com quem muito discutia sobre várias temáticas, especialmente política. Na adolescência Frida já era uma jovem que gostava de quebrar os estereótipos de género. Inclusive, há uma foto muito interessante na qual a artista está de fato enquanto as mulheres da família estão todas adornadas com detalhes femininos. Naquela fase Frida envolveu-se mais com o comunismo e conheceu Diego Rivera: muralista com ideais comunistas.
Com 18 anos sofreu um acidente de transporte público que a afectou o resto da sua vida, fazendo com que ficasse muito tempo acamada e começasse a sua relação com a arte como uma forma de superação sobre suas dores físicas e emocionais. Além de sentir dor, o seu namorado de muito tempo foi viver na Alemanha com a promessa de que voltaria brevemente, o que não ocorreu. Naquele ano, depois de ter se recuperado, decidiu não ir para a faculdade e focar em pintar e refazer as suas amizades em grupos políticos. Diego Rivera estava envolvido num desses grupos. Foi naquele momento que os dois se conheceram mais profundamente e começaram um relacionamento. Em 1929 casaram-se e herdaram a Casa Azul.
No ano a seguir mudaram-se para os EUA devido a uma oferta de trabalho feita a Diego que foi aceite apesar de não concordar com os ideais daquele país. Frida não se sentia muito pertencente ao país, apesar de o casal estar em contacto com muitos amigos que conheceram lá. Tudo piorou quando decidiram tentar um filho, mas o corpo dela não tinha estrutura para carregar o feto, o que levou a que sofresse abortos involuntários. Após esses acontecimentos traumatizantes quis voltar para a sua terra natal.
Uns anos depois, o casal regressou ao México, mas a uma casa com uma estrutura muito diferente: eram duas casas ligadas por uma ponte. Uma das casas era do Diego e outra de Frida. Frida já sabia há muito tempo que Diego a traía. Entretanto, decidiu continuar com ele reconhecendo que era da natureza dele e que ela, tanto quanto ele, podia se envolver com quem quisesse: homens e mulheres. No entanto, tudo mudou quando ela descobriu que Diego a traía com a sua irmã mais nova. Frida decidiu então separar-se em Junho de 1935.
No fim do ano Frida já o havia perdoado, mas agora retomavam o relacionamento com novas condições: eles não iriam mais ter relações sexuais e poderiam se envolver com quem quisessem desde que se mantivessem leais um ao outro. Frida fazia pinturas que faziam alusão ao safismo, utilizando elementos da natureza que representavam o feminino. Dentre estes quadros o mais polémico era o chamado Dois nus na floresta, que podiam tanto ser duas versões da Frida como duas mulheres apaixonadas na floresta, deitadas no colo uma da outra.
Além dos quadros, é possível reconhecer que Frida teve envolvimentos amorosos com outras mulheres a partir das cartas que ela enviava e alguns poemas que escrevia no seu diário no fim da sua vida. Inclusive, há uma carta que escreveu para a esposa do artista André Breton, que revela que possam ter sido amantes. É possível supor outros envolvimentos com outras mulheres, mas dificilmente foram declarados pelo contexto em que ela viveu.
Frida passou os seus últimos anos com problemas de saúde, mas sempre ao lado de Diego Rivera. Nos seus últimos dias de vida, Diego fez uma exposição em homenagem à artista. Após a sua morte, Rivera transformou a Casa Azul num museu para que as pessoas conhecessem Frida de uma forma íntima, focando no seu cotidiano, nos móveis da casa que moldavam a sua personalidade e outras fontes como obras de arte e fotografias.
Diante das informações retiradas a partir das suas cartas, dos seus quadros, do seu diário, das fotografias, é visível que Frida era uma mulher que desafiava os padrões de género e sexualidade impostos pela sociedade, mesmo com todo o sofrimento. Seria injusto definir a Frida como esposa de Diego, mulher, bissexual, latina, com limitações físicas. Isto porque ela não só ela era todas estas categorias como tinha sua própria personalidade. Frida não era considerada feminista, mas tinha comportamentos que questionavam os estereótipos de beleza e de género. Não se considerava bissexual, mas não se sentia limitada a género quando se apaixonava por alguém. Era mulher e mostrava as suas dores, muitas vezes femininas, o que faz com que muitas mulheres se identificavam e se identificam com ela, mesmo que o objectivo dela não tenha sido captar a atenção das mulheres.
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Foto: https://depositphotos.com/pt/
Carolina do Nascimento Bueno, Mestre em História de Género
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