Passámos Setembro. O mês dos regressos. Regresso às aulas, regresso ao trabalho, regresso à rotina. Mas, aquilo que para algumas pessoas é apenas o regresso à normalidade, para outras pode ser o regresso a um lugar de sofrimento ou, por total oposição, o regresso ao único lugar onde se sentem seguras. Falo sobre as escolas.
As escolas têm um papel crucial no desenvolvimento cognitivo, académico, social e emocional dos jovens. É lá que passam grande parte dos seus dias; que constroem a sua identidade, que convivem, aprendem e descobrem com os seus pares; que se apaixonam e desapaixonam. É na escola que surgem as primeiras preocupações com a aparência e aceitação; que o corpo começa a desenvolver-se duma forma desconfortável e desconhecida e, para piorar, temos de o expor nas aulas de Educação Física e nos balneários; que percebemos hierarquias sociais e jogos de poder; que perpetuamos ou sofremos de bullying; que fazemos de tudo para pertencer ao grupo ou, por outro lado, fazemos de tudo para nem ser notados. E também é na escola que deixamos de ter alguém para vigiar o que comemos, ou o que não comemos.
Isto não é diferente para pessoas queer. Também é na escola que passam grande parte do seu tempo, com tudo o que isso acarreta. Com todo o estigma, preconceito e falta de tolerância que isso acarreta.
A evidência científica é clara: percepcionar a escola como um lugar seguro é um fator protetor contra o desenvolvimento de transtornos alimentares, inclusive em pessoas LGBTQIA+ – principalmente em pessoas LGBTQIA+, uma vez que, para jovens queer que não encontram aceitação em casa, a escola pode ser o único lugar de acolhimento.
Nesse sentido, deixo-vos com alguns sinais de alerta a considerar pelos diferentes intervenientes em contexto escolar:
– Professores:
– Alterações súbitas de rendimento escolar ou concentração;
– Comentários depreciativos sobre corpo/peso (seu ou dos outros) ou recusa constante em participar em atividades/interagir;
– Uso frequente de roupas largas ou desajustadas à temperatura, para esconder o corpo.
– Colegas e amigos:
– Deixar de almoçar/conviver com o grupo ou de participar em atividades que era habitual participar;
– Comentários frequentes de autodepreciação ou vergonha (corporal, mas não só);
– Publicações preocupantes nas redes sociais;
– Sinais de automutilação (ex: cortes nos braços, queimaduras, feridas ou hematomas constantes, arranhar ou beliscar a pele repetidamente).
– Auxiliares e pessoal não docente:
– Recusa sistemática da refeição escolar;
– Tentativas frequentes de se isolar (ficar no recreio sozinho, evitar filas de refeição);
– Choro nos corredores ou casas de banho;
– Desmaios, queixas frequentes de tonturas e cansaço;
– Comentários depreciativos entre colegas, sobre o corpo ou aparência – “maricas”, “gorda”, “aberração”, etc.;
– Mães, Pais e Educadores:
– Alterações rápidas de peso, acompanhadas de desculpas para não comer; – Perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas;
– Irritabilidade constante, principalmente à refeição.
Complementarmente, eis alguns comportamentos protetores a considerar: – Professores:
– Valorizar o desempenho, esforço e criatividade, ao invés da imagem corporal evitando, desta forma, comentários sobre o peso ou aparência;
– Promover uma educação alimentar positiva, focando na energia, bem estar e diversidade corporal, sem moralizar os alimentos em “bons” ou “maus” – preferencialmente, convidar um nutricionista da área do comportamento alimentar para abordar estes temas;
– Oferecer conteúdos pedagógicos inclusivos e diversos, tanto do ponto de vista da diversidade de corpos como de grupos minorizados;
– Colegas e amigos:
– Evitar piadas ou segredinhos sobre o peso, comida, corpo, identidade, orientação sexual, contexto familiar ou social;
– Convidar os colegas para almoçar/lanchar, sem pressão ou julgamento; – Fazer companhia a uma pessoa que notes que está sempre sozinha no recreio, mesmo que essa pessoa não queira falar nada;
– Valorizar os talentos e interesses dos colegas e amigos, além da aparência; – Ser um ombro amigo para escutar, sem criticar – mostrar aos teus amigos que não estão sozinhos é muito importante;
– Não contar aquilo que te confidenciam, exceto se envolver a pessoa magoar-se a si própria ou aos outros;
– Auxiliares e pessoal não docente:
– Intervir em situações de gozo ou exclusão na cantina, bar e recreios; – Chamar os alunos pelo nome correto, respeitando os seus pronomes – isto é válido para todas as pessoas envolvidas no contexto escolar;
– Estar atento a jovens que evitam refeições, que mudam abruptamente de comportamentos, que se isolam e aparecem chorosos, e encaminhar para o Diretor de Turma e/ou Psicólogo Escolar;
– Mães, Pais e Educadores:
– Facilitar refeições em família num ambiente sem discussões e incluindo todos os alimentos;
– Não criticar o corpo das suas crianças e jovens, nem fazer comparações com outras pessoas da mesma idade;
– Permitir que as crianças e jovens explorem a sua identidade, sem forçar o comportamento esperado pelos papéis de género;
– Evitar comentários negativos sobre o seu próprio corpo ou dietas restritivas diante dos seus filhos;
– Validar a identidade diversa dos jovens de quem cuida, uma vez que a aceitação familiar é altamente protetora da saúde mental.
Cabe a todos nós, adultos, cuidar das nossas crianças e jovens. Mas, considerando que passam grande parte do seu tempo na escola, é primordial que a sintam como um lugar
seguro, respeitoso, e onde podem explorar não só o seu conhecimento mas também a sua identidade, em todas as suas dimensões. Enquanto adultos, cabe-nos ser os facilitadores deste ambiente, para que possamos proteger a saúde mental dos adultos de amanhã.
.
Daniela Marques, Nutricionista


