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O que é ser homem hoje? “A Reinvenção da Masculinidade: Homens e Feminismo”, de Josep M. Armengol



Armengol inicia o seu livro de ensaios chamando a atenção para esta contradição: as mulheres foram historicamente definidas com base no seu sexo (o “outro” em relação ao masculino), enquanto que os homens foram naturalizados como a medida universal do humano, como se o masculino fosse neutro, normativo e invisível. Esta suposta neutralidade é, na verdade, uma construção política e cultural que favorece a chamada masculinidade hegemónica e que, paradoxalmente, leva à invisibilidade da masculinidade enquanto entidade genderizada. Como afirma, “Enquanto que as mulheres foram habitualmente definidas pelo seu sexo, os homens foram considerados representantes de uma subjectividade universal e sem género específico”. 

O livro aborda também a diversidade de masculinidades, rejeitando a ideia de que existe uma única forma de ser homem. Em contraste, fala-se de masculinidades plurais, situadas e interseccionais, marcadas por factores como classe, raça, sexualidade ou cultura. A masculinidade hegemónica impõe aos homens normas rígidas de comportamentos, como a repressão emocional, a competitividade agressiva, a homofobia internalizada e a obrigação de sucesso material. Estas normas não só sustentam o patriarcado, como causam sofrimento aos próprios homens. Neste sentido, a masculinidade “ideal” é um mito, um ideal impossível de atingir e que causa sentimentos de inadequação a rapazes e homens.

No que toca à participação de homens no debate e movimento feminista, e apesar do aceso e contínuo debate relativo este tema, o autor reforça a importância da participação de homens no feminismo e nas discussões acerca de género. Considera que, por um lado, a participação de homens é instrumental para o desenvolvimento e sucesso do movimento pela igualdade de género e que, por outro, os homens muito terão a ganhar com o desmantelamento das expectativas patriarcais de que também são reféns (como afirma, “A questão não é (apenas) a que privilégios devem os homens renunciar em nome do feminismo, mas (também) o que podemos ganhar com a nossa participação activa nele”.

Ancorado por pensadoras e pensadores incontornáveis dos estudos de género, como bell hooks, Judith Butler e Michael Kimmel, Josep M. Armengol convida-nos a conhecer e construir novas masculinidades ao tornar a masculinidade o objecto de novos estudos.  Sem recorrer a um tom prescritivo ou moralista, Armengol apresenta uma crítica informada à masculinidade normativa e abre caminho para formas mais inclusivas e plurais de viver o género masculino. O livro é útil tanto para investigadores e estudantes das áreas de género e sociologia, como para qualquer leitor interessado em compreender os mecanismos de reprodução do patriarcado e os seus efeitos sobre todos os géneros.

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Editora: Tinta da China

Publicação: Julho de 2025

Páginas:  320

ISBN: 978-989-671-957-9.

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Cláudia Almeida

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