a ler

“O perigo das vírgulas malpostas” de Filipe Castro



Mil novecentos e noventa e seis. Eu tinha oito anos e eu costumava dançar na sala. A minha mãe nunca se importava com a música alta e o meu pai quase nunca estava em casa. Eu girava, saltava, inventava coreografias, imitava os meus artistas favoritos, imaginava um microfone e sonhava. O suor era o líquido que transformava o chão da sala em palco. Eu era feliz.
Um dia, o meu pai me viu na sala. Ríspido, disse que a música estava muito alta. Eu diminuí o volume e continuei a dançar. Mas não pareceu suficiente, o meu pai voltou à sala e, ainda mais áspero, desligou o som com a justificativa de que queria ver a tv em paz. Respondi que ia usar o walkman. Eu só queria dançar. Ele saiu de casa visivelmente agitado. Eu dancei.
Mas esse foi só o primeiro dia. Depois houve outro. E outro. O meu pai bebia. Eu só queria dançar. O sofá cheirava sempre a cerveja. Eu confundia com o cheiro do meu pai.
— Homem não dança desse jeito! … (O que é ser homem?, pág. 13)

“O perigo das vírgulas malpostas”, de Felipe Castro, é uma das obras mais recentes da Editora Urutau, publicada em 2025. O livro, composto por fragmentos narrativos, mergulha fundo nas experiências queer, na descoberta da identidade e nas múltiplas formas de habitar o corpo e o desejo.

Felipe Castro escreve com uma linguagem incisiva, emocional, e frequentemente confronta o leitor com aquilo que a sociedade prefere esconder: o corpo, a vulnerabilidade, o desejo que não se encaixa. Esta escrita, íntima e política, constrói um espaço de resistência e de reinvenção, em que o sujeito queer reivindica a liberdade de ser e de dizer.

Entre vulnerabilidade e resistência, “O perigo das vírgulas malpostas” afirma-se como um gesto de coragem literária. É um livro que fala de exclusão, mas também de libertação; que mostra o peso do olhar social, mas celebra a autenticidade e a multiplicidade de quem se recusa a caber em moldes impostos. O resultado é uma escrita que provoca, questiona e, sobretudo, abre espaço para outras vozes.

Com uma prosa intensa e profundamente humana, Felipe Castro convida-nos a reflectir sobre as pausas erradas da vida — as vírgulas que nos colocam fora de tempo, fora de lugar — e transforma esse aparente erro em beleza e potência. É uma leitura que desconforta, mas também ilumina, e que merece ser lida com a mesma atenção que o autor dedica a cada palavra, a cada vírgula.

O perigo das vírgulas malpostas” é, assim, mais do que um livro: é uma afirmação de presença.

.

Editora: Urutau

Páginas: 160

ISBN: 978-85-7105-250-5

.

Daniel Morais

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *