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“Por Dentro do Chega”, de Miguel Carvalho: a cruzada da extrema-direita contra o “lóbi gay”, a “ideologia de género” e outros fantasmas



Na sua ascensão meteórica a segundo partido mais votado nas legislativas deste ano, o partido de André Ventura tem levantado um conjunto de bandeiras comuns à maioria dos partidos de extrema-direita um pouco por todo o mundo. A partir do livro do jornalista Miguel Carvalho, recentemente publicado, analisamos os ataques dirigidos aos direitos das pessoas LGBTQIA+, um dos temas predilectos do Chega.

O livro Por Dentro do Chega, publicado em Outubro de 2024 pela Objectiva, resulta de uma investigação jornalística minuciosa sobre o fenómeno que mais transformou a política nacional no passado recente. A partir de centenas de testemunhos, documentos internos e relatos inéditos, é analisada a ascensão fulgurante do Chega desde a sua fundação até à mais recente eleição de 60 deputados do partido. O livro oferece um retrato rigoroso e inquietante de um movimento que, ao manipular e contaminar o debate político nacional, desafia os princípios basilares da democracia portuguesa.

A obsessão com a “agenda LGBT” começa ainda antes da fundação do Chega, quando André Ventura não tinha ainda descoberto as suas ambições políticas e almejava, isso sim, ser um escritor de sucesso. Em 2009 lança o livro A última madrugada do Islão, romance que pretendia replicar no panorama nacional a mesma polémica de Os Versículos Satânicos de Salman Rushdie. As cenas pornográficas com figuras sagradas daquela religião eram encaradas como mecanismo para instigar a indignação dos crentes. No livro de Ventura, Yasser Arafat, líder histórico da Organização para a Libertação da Palestina, surgia no enredo como traficante de droga, homossexual e doente com SIDA. A orientação sexual e a doença fazem parte da composição de uma personagem mergulhada no seu fanatismo religioso e numa corrupção moral que chocam com a devoção de fé e comprovam a degenerescência do Islão – o principal objectivo do autor com esta obra. 

A estratégia de identificar os inimigos como homossexuais será recorrente doravante. Tanto nos trabalhos de Miguel Carvalho que, em 2021, tinha já investigado para a revista Visão sobre o partido, como o jornalista Pedro Pinto, que preparou uma série de reportagens para a SIC sobre os bastidores do Chega, eram identificados como homossexuais, cúmplices de encobrimento de crimes e perigosos esquerdistas com ligações a ditaduras de extrema esquerda, entre outras efabulações. 

Após as eleições autárquicas de 2017, na qual experimenta a sua campanha anti-ciganos em Loures que o catapultou para o estrelato mediático, André Ventura começou a disputar, dentro do PSD, o posicionamento ideológico do partido, que o seu líder de então, Rui Rio, definia como ao centro. Ventura, por outro lado, queria um PSD mais virado à direita e, enquanto líder de uma facção interna no PSD que se iria tornar o gérmen do Chega, escrevia na sua coluna no Correio da Manhã: «Chega de neutralidade ideológica em temas fundamentais como as minorias, o casamento homossexual ou a eutanásia».

O apelo de Ventura teve um forte eco em vários sectores da sociedade. Miguel Carvalho refere, em particular, os cristãos evangélicos, que aceitaram a deixa do Chega para «sair das igrejas e participar nos destinos do país». Entre estas hostes estavam as evangélicas Maria Helena Costa e Cibelli Almeida, que militavam contra uma «Educação estatizada, marxista e totalitária», fundada na «ideologia de género e no marxismo cultural», como referiam numa moção apresentada em congresso do partido. Como afirma um dos evangélicos entrevistados para este livro:

Queremos gente de Deus no governo de Portugal e influenciar aqueles que amam Deus, defendem a moral e os costumes cristãos contra os gays e modernices antinatureza, antifamília, antibíblica, contagiadas pelo espírito do anticristo. […] Os meninos e as meninas podem ser o que quiserem, vivem como os cães fazem na rua. A corrupção, a ladroagem e o abandono é por causa da imoralidade e de termos atirado Deus para o lixo. Queremos arrebatar o poder à esquerda, a esquerda é o mal do mundo.

De facto, talvez mais do que qualquer outro assunto, a “cruzada” contra o activismo LGBTQIA+ e a política de género foi uma das causas que mais mobilizou a militância evangélica, como defende o investigador dos extremismos de direita Riccardo Marchi. Esta participação tomava forma nas redes sociais, através da partilha de vídeos e da veiculação de desinformação, depois aproveitada pelo Chega que se afigurava como braço organizado e “institucionalizado” dessas posições.

O partido de André Ventura ia repercutindo essas vozes e alinhando-se em posicionamento às direitas identitárias e nacionalistas que cresciam por todo o mundo. Manuel Ferreira dos Anjos, ex-vereador do CDS em Sintra e fundador do Chega, enumerava os “contras” que constituíam o programa ideológico do partido: 

Somos contra aborto, eutanásia, homicídio, parelhas gay, ideologia de género, adoção gay, casamento gay, barrigas de aluguer, drogas e traficantes, imigrantes ilegais, terroristas islâmicos, pedófilos e violadores, marxismo cultural, stalinismo fascista, nacional-socialismo totalitário, esquerdismo doentio e/ou psicopata. 

Era inevitável, segundo esta posição, não defender uma destas coisas sem defender todas as outras, já que, como que por “contágio” político, ser de esquerda era defender tudo isto. Luís Forinho, vereador na Câmara do Entroncamento declarava-se um verdadeiro homem de direita:

Sou homofóbico, não gosto de gays, lésbicas, transexuais, pedófilos, violadores, assumindo o nojo pelas relações sexuais: Homem com homem dá crocodilo, mulher com mulher dá tapete persa.

Em Novembro de 2024, já desfiliado do partido, apresentou-se numa das reuniões da assembleia municipal com uma t-shirt do movimento de extrema-direita Grupo 1143, de Mário Machado.

O Chega foi servindo de guarida a políticos dissidentes foram assumindo posições radicais e convidados a sair por manifesta contradição com os princípios defendidos pelos partidos “tradicionais” da democracia portuguesa. Fernando “Feitor” é um desses exemplos. Enquanto militante do PS envolvido na política autárquica de Vila Verde, acabou por ser expulso do partido por comentários nas redes sociais, como este:

Depois de um mês, volto ao Facebook devido a um bando de LGBTIPedófilos que andam sempre a denunciar algumas de minhas publicações por ter vindo a repugnar essas aulas de ideologia de género às crianças e os sete milhões de euros que este governo aprovou para esse fim. Ou seja, para alimentar esses tiranos. 

Mas o recrutamento não era feito apenas nos partidos do arco do poder – também se estendia aos movimentos de extrema-direita com um longo lastro de violência e cadastro criminal. É o caso de Tiago Leonel, membro dos Hammerskin Portugal, um grupo neonazi, e candidato pelo Chega à Assembleia Municipal da Amadora e segundo lugar na freguesia de Falagueira-Venda Nova. Na madrugada de 31 de Agosto de 2014, um grupo ligado aos Hammerskin, no qual se encontrava Tiago Leonel, danificou um automóvel a pontapés, partindo o pára-brisas, e retirou de lá um indivíduo que lhes pareceu ser homossexual, acabando depois por agredi-lo. A vítima foi atingida no rosto, no abdómen e no tórax, até cair no chão inconsciente de que resultou uma lesão pulmonar irreversível. Meio ano mais tarde, Leonel voltou a estar envolvido em agressões e insultos dirigidos a clientes do bar Fontória, em Lisboa, conhecido por acolher eventos “gay-friendly”.

Não foi caso único. Aliás, a simpatia pelo Chega dos grupos neonazis e ultranacionalistas não era circunstancial. Mário Machado, do Grupo 1143, descreveu em 2019 o partido como um “Cavalo de Troia” capaz de introduzir a extrema-direita no parlamento, apelando a que “nacionalistas” se juntassem ao partido. Também o movimento neonazi Nova Ordem Social se aproximou no partido em 2020. Afonso Gonçalves, do movimento Reconquista, filmou um conjunto de vídeos intitulado A Grande Invasão (baseada na teoria conspirativa da substituição dos europeus brancos por outros povos) como estratégia para aumentar o peso eleitoral do partido, declarando: «O meu apoio a André Ventura, líder indisputado do Chega!». Fontes policiais e de serviços de informação a que tive acesso indicavam que centenas de perfis ligados a membros e simpatizantes do Grupo 1143 demonstravam apoio às causas promovidas pelo partido de André Ventura nas redes sociais. Em várias destas estruturas encontravam-se pessoas que tinham militado, ou ainda militavam, no Chega. Mesmo não tendo funções oficiais na direção do partido, alguns desses actores acabavam por influenciar o seu percurso, reforçando e radicalizando publicamente temas que o partido já trazia para o debate político.

A estratégia definida por Ventura nos anos iniciais pautava-se pelo acolhimento a apoio a todas estas facções nos bastidores e, em simultâneo, pela construção de uma imagem pública que inspirasse respeitabilidade e aparente moderação. As aparências, no entanto, não agradaram a todos, que viram nisso uma cedência a interesses obscuros. No congresso do partido em Sagres, realizado em julho de 2021, o discurso oficial era de prudência doutrinária, silenciando algumas das posições mais incendiárias do partido. Suprimira-se, por exemplo, a «proibição da propaganda da agenda LGBTI no sistema de ensino» e, além da «família natural», o Chega já admitia considerar «outros modos diferentes de partilha da vida em comum». Para alguns delegados, estas eram as principais bandeiras que os tinham feito alistarem-se no partido. Um episódio aparentemente anedótico, protagonizado por Gerardo Pedro, dinamizador das redes sociais e comunicação do Chega, ilustra este estado de espírito de revolta. Conta Gerardo que:

No fim [do congresso], eles puseram a música YMCA, dos Village People, a tocar e fui direto ao palco. [Dirigindo-se a Ventura:] “Mas o que é esta merda?! […] Não tens vergonha de estar aqui a dançar a música dos rabetas?!” […] Ele estava a dançar, aquela dancinha de merda que ele faz, e estive quase a mandar-lhe um estaladão […] O gajo ficou ofendido, mas eu não quis saber. Aquilo foi muito mau.

Havia uma grande indignação contra o que foi visto no interior do partido como uma concessão ao “lóbi gay”, que levou a protestos como o de Gerardo Pedro ou a desfiliações, como a do fundador Manuel Ferreira dos Anjos.

Inevitavelmente num partido em efervescência ideológica que vive de bandeiras identitárias, estes temas acabaram por ressurgir com toda a força e instalar-se no âmago da agenda política do Chega. Em 2022, André Ventura apresentava-se às eleições legislativas com um programa de governo de 100 medidas pautadas, como refere Miguel Carvalho, por «níveis elevados de testosterona: restrição de fronteiras, deportação de imigrantes ilegais, ataque a direitos sociais e cívicos dos imigrantes, proibição de “propaganda” LGBTQIA+, castração química de pedófilos, prisão perpétua, agravamento de penas, corte de salários dos políticos, redução drástica de deputados e vasta desregulação de direitos e leis que ainda travavam a ferocidade irrestrita do mercado». É essa a cartilha combinada que compõe o discurso do Chega desde então. 

No congresso de Viana do Castelo em 2023, em várias das 32 moções apresentadas exigia-se que a difusão de mensagens e conteúdos de «movimentos LGBT» e Black Lives Matter fosse limitada a adultos, já que «representam ideologias que não se alinham com os valores tradicionais», sugerindo-se ainda «acabar com o conceito de identidade de género». Desde então, o partido tem recrudescido a perseguição às pessoas queer, convertendo-as, à semelhança das minorias étnicas e de migrantes, em bodes expiatórios para os problemas do país. Num recente elogio ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, país que tem liderado a perseguição política aos direitos das pessoas LGBTQIA+ no velho continente, André Ventura elogiava o caminho seguido:

A Hungria tem sido um baluarte de defesa de muito daquilo que a Europa devia ser, [ao avançar politicamente] contra a propaganda LGBT nas escolas, contra a ideologia de género, contra a cultura woke que está a dominar neste momento a Europa.

Em suma, a investigação de Miguel Carvalho mostra que o Chega não apenas instrumentalizou o medo e a moral sexual como combustível político, mas ancorou o seu crescimento justamente nas campanhas contra a “ideologia de género”, os direitos LGBT e tudo o que nelas se projecta como ameaça civilizacional. Mais do que desvios retóricos de dirigentes exaltados, isto constitui um fio condutor consistente na definição dos inimigos do partido (e, por extensão, dos portugueses) e na desumanização de minorias. O caso do Chega inscreve-se, assim, num fenómeno global de radicalização identitária — e a forma como os confrontarmos definirá a qualidade (a sobrevivência?) da nossa democracia nos próximos anos.

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Autor: Miguel Carvalho
ISBN: 9789895891436
Data de publicação: Setembro de 2025
Edição atual: 5.ª
Páginas: 752
Editora: Objectiva

Pedro Leitão

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