Novembro. 2025. Século XXI.
Os nossos telemóveis vibram incessantemente com notificações de apps que prometem mundos virtuais inclusivos, onde avatares de todas as cores e géneros dançam em harmonia.
Há uma ilusão generalizada de que o progresso é linear. Que a homofobia, esse fantasma do século XX, foi exorcizado pelas leis, pelas marchas e pelas séries da Netflix, que nos mostram que o amor pode ser vivido de qualquer forma ou feitio.
Mas basta ligar a caixinha mágica, a televisão, – sim, essa relíquia analógica que ainda reina nas salas de estar portuguesas – para ver o quanto nos enganamos.
Basta assistir a um vídeo de quatro minutos, uma mera amostra do inferno vivido por um concorrente de reality, para nos confrontarmos com a realidade crua: o ódio não desapareceu. Disfarçou-se de entretenimento.
Nas últimas semanas, ouvi e vi em televisão insultos homofóbicos cuspidos com a naturalidade de quem comenta futebol numa tasca: “paneleiro”, piadas depreciativas sobre a alegada orientação sexual de alguém (considerações essas justificadas com os maneirismos dessa pessoa), ameaças veladas de agressão física.
Risos colectivos, olhares cúmplices, um isolamento que não é subtil – é brutal, televisionado em directo para milhares de lares. O Leandro, um chef de 31 anos, decidiu entrar num reality show com a vulnerabilidade de quem sonha com visibilidade mas transformou-se num punching bag humano. E o que faz a produção? Nada. A apresentadora, com o seu sorriso polido e coreografado, limita-se a um silêncio que ecoa como conivência.
É isto o “reality show” em 2025? Um circo onde o preconceito é o palhaço principal, e o público aplaude pelo rating?
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A televisão, ah, a televisão. Cresci com ela como uma ama severa, moldando as minhas noções de normalidade.
Lembro-me vagamente de ver o Big Brother nos anos 2000, fascinado pela ideia de que vidas reais podiam ser esquadrinhadas ao vivo, sem filtros. Na altura, era progresso: quebrava tabus, expunha hipocrisias.
Mas hoje, em pleno século XXI, com podcasts queer a debater interseccionalidade e TikToks a viralizar coming-outs, a TV tradicional revela-se o que sempre foi em essência – um espelho da sociedade que a financia.
E que espelho torto é este? Num país onde o casamento de casais do mesmo sexo foi legalizado há uma década, onde as adopções por casais do mesmo sexo são realidade, ainda permitimos que um programa da TVI normalize a homofobia como “drama”. Há quem comente que o visado se faz de vítima ou usa chavões. Há quem diga que o concorrente devia ultrapassar e dar “abertura” aos agressores.
Isto não é acidente: é escolha do canal, da apresentadora e de quem o dirige.
A produção sabe que o conflito vende, que o ódio gera audiências. E eu, e nós, espectadores, consumimos. Quantos de nós mudámos de canal, mas não de mindset?
Penso nos tempos que vivemos e sinto uma raiva misturada com fadiga e ansiedade.
2025: o ano em que a inteligência artificial nos substitui nas mais variadas tarefas, mas onde um homem é humilhado por ser percepcionado como gay – assumido ou não, pouco importa. O estigma basta, grita alto demais e deixa feridas.
O Leandro não se assumiu abertamente no programa, nem tinha que o fazer. E quem tinha a obrigação de o proteger e dar o exemplo, não o faz. Pelo contrário: alimenta as insinuações, as “brincadeiras” que cortam como lâminas.
É o mesmo mecanismo que já vi nas ruas de Lisboa, nos comentários online, nas conversas de café: a homofobia disfarçada de humor, de “coisa de homem”. E a TV amplifica isso. Não é só entretenimento; é pedagogia perversa e reversa.
Ensina os jovens que o isolamento de um “diferente” é aceitável, que rir de feridas alheias é catarse coletiva. Quantas crianças, vendo isto ao lado dos pais, internalizam que ser ‘diferente’ é sinónimo de se ser alvo?
Calar é conivência. Eu, bem como tantos que se aliaram a mim, fizemos o que podíamos: barulho nas redes, petições internacionais, queixas à ERC, queixa à ILGA, queixas na PGR. Silêncio. Em troca, tivemos a mesma apresentadora, num outro formato que conduz, a dizer de peito cheio que “as redes não mandam”.
Isto é um lembrete de que a visibilidade, essa palavra tão gasta mas tão vital, não é só sobre celebração; é sobre confronto. Sobre forçar o espelho a reflectir a verdade inteira, com as suas rachaduras.
Reflectindo sobre isto, pergunto-me: qual o papel da TV nestes tempos? Pode e deve ser ferramenta de mudança. Mas em Portugal, com a TVI a priorizar audiências sobre ética, arrisca-se a ser cúmplice do atraso.
Em 2025, não basta ter diversidade nos créditos; é preciso intervir quando o ódio irrompe em directo. A produção devia ter pausado, educado, protegido. Em vez disso, deixou acontecer e fechou os olhos às circunstâncias, como se Leandro fosse descartável.
E no entanto, há esperança nestes pixels furiosos. O vídeo de quatro minutos não é só denúncia; é catalisador. Já vi amigos héteros partilharem, questionarem, evoluírem. Já ouvi debates em grupos de WhatsApp onde o “é só TV” dá lugar a “isto não pode continuar”. O Leandro, com a sua força quieta, recorda-nos que a resiliência não é passiva. É activa, vocal, transformadora. Num mundo onde o digital nos isola, a TV – paradoxalmente – pode unir-nos contra o que nos divide.
Que estes tempos nos acordem. Que 2025 não seja o ano da ilusão, mas da acção. Desliguemos o canal do ódio, mas não os olhos para ele. E ao Leandro, que não me pode ler ou ouvir: força. Os teus tiques não te definem. A pessoa que amas ou podes vir a amar também não.
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Paulo Silva L.


