Mais do que um documentário biográfico, o novo filme de Philipp Fussenegger e Judy Landkammer é uma imersão visceral no universo de Peaches. Recorrendo a um arquivo privado inédito e a imagens electrizantes da “The Teaches of Peaches Anniversary Tour”, a obra traça o percurso de Merrill Nisker: a canadiana que, há mais de duas décadas, abala as fundações da cultura pop. Entre ensaios exaustivos e a euforia dos palcos, os realizadores captam a essência de uma artista que transformou o feminismo e a defesa dos direitos LGBTQIA+ em hinos de resistência. Conversámos com a dupla de cineastas sobre o desafio de transpor para o ecrã a força criativa e o humor mordaz de um ícone que continua a desafiar todas as convenções.
dezanove.pt: Qual foi o momento que levou ao desenvolvimento deste filme e qual foi o catalisador para escolher especificamente a Peaches como tema? Já tinham uma ligação de longa data com a música e a carreira da Peaches ou só descobriram o seu trabalho em detalhe durante este projecto?
Philip: A ideia para o documentário partiu originalmente da nossa produtora, Cordula Kablitz-Post, inspirada pela digressão de aniversário do primeiro álbum, The Teaches of Peaches. A Cordula e a Peaches já se conheciam desde o início dos anos 2000. (…) Eu e a Cordula já estávamos a colaborar noutro projeto, um documentário sobre o KitKat Club, quando ficou claro que o projecto da Peaches ia avançar. Por isso, fui contratado como realizador apenas três dias antes do início previsto das filmagens, coincidindo com o arranque da digressão da Peaches; para ser sincero, fui atirado aos lobos sem grande preparação. (…)
Ouvi o álbum The Teaches of Peaches pela primeira vez durante a minha juventude. Estava a passar em repeat na primeira vez que tive sexo com um homem. Por isso, já conhecia a música dela, mas nunca me considerei um fã incondicional, portanto acho que ainda tinha um pouco a aprender…
Judy: Juntei-me ao projecto pouco depois como produtora, o que mais tarde evoluiu também para a co-realização. Eu e o Philipp colaboramos há muitos anos e partilhamos uma compreensão mútua dos nossos processos criativos. Juntamente com o Diretor de Fotografia Dino Osmanović, e a dramaturga Susanne Heuer, aproximámo-nos da Peaches como uma equipa transparente, explicando quem somos e como trabalhamos. O nosso lema (menos ego, mais troca de ideias, ciclos de feedback e trabalho de equipa colaborativo) teve eco na Peaches.
Pessoalmente, cruzei-me com a música da Peaches pela primeira vez em 2009, pouco depois de me mudar para Berlim. A energia do som dela marcou-me profundamente: não apenas as letras, mas a intensidade destemida; era exatamente o que eu precisava enquanto baby queer numa cidade nova. Mas nunca a tinha conhecido pessoalmente antes de trabalhar no filme, embora fosse provável que acontecesse, já que é uma espécie de “figura mítica” de Berlim.
Tendo em conta a ascensão global dos discursos conservadores e de extrema direita nos últimos anos, sentiram um maior sentido de responsabilidade criativa? Existiram momentos em que sentiram hesitação ou preocupação relativamente à potencial reação do público ou da crítica?
J: Com a Peaches, há sempre esta energia destemida; ela desafia as normas sem pedir desculpa (mas também sem dar lições de moral a ninguém), e acho que isso deu o tom ao filme. Para ser sincera, nunca abordámos o projecto com a ideia de auto-censura ou de nos preocuparmos demasiado com possíveis reacções negativas, mas sim com o intuito de captar a sua mensagem e aquilo que ela defende. Claro que temos consciência da ascensão global dos discursos conservadores e do maior escrutínio, por exemplo, em torno do género, da expressão sexual, e por aí fora, mas essa consciência não se traduziu em hesitação. Além disso, a própria Peaches sempre tentou, e continua a tentar, dar voz àqueles que são frequentemente ignorados, especificamente pelos conservadores e extrema direita. Esse compromisso tornou ainda mais importante para nós honrar a visão dela.
D: Trabalhar tão de perto com uma artista que personifica a auto expressão sem concessões como a Peaches mudou ou redefiniu a vossa própria compreensão sobre a liberdade artística? De que forma esperam que a voz poderosa e activa da Peaches em prol da comunidade LGBTQ+ e das mulheres ecoe e tenha impacto nas novas gerações, após verem este filme?
P: O projecto surgiu num momento em que muitos dos temas que a Peaches trabalha há décadas (liberdade sexual, o envelhecimento dos corpos, a cultura queer, a resistência através da alegria) pareciam urgentemente relevantes de novo, tanto a nível político como pessoal. Conhecia o The Teaches of Peaches desde o início da minha idade adulta. Para mim, não era música de fundo; estava ligada a experiências formativas, à descoberta da minha própria sexualidade, a momentos de vulnerabilidade e libertação. Por isso, embora não me descrevesse como um fã incondicional, o trabalho dela acompanhou-me silenciosamente durante muito tempo.
O que realmente me impressionou quando começámos a trabalhar juntos foi perceber quão coerente tem sido a sua visão artística ao longo dos anos, e o quão generosa ela é. A Peaches cria mundos nos quais os outros podem crescer, experimentar e sentirem-se seguros o suficiente para serem audazes. Isso teve um eco imediato na forma como eu próprio gosto de trabalhar. Assim, embora as circunstâncias da produção tenham sido bastante intensas e aceleradas, houve uma ligação interior muito clara desde o início. Não se tratou de tentar “apanhar o comboio” da Peaches – tratou-se de reconhecer algo que já lá estava há anos e, finalmente, envolver-me com isso de forma consciente através do cinema.
J: Trabalhar com a Peaches tem sido uma recordação poderosa do que pode ser a verdadeira liberdade artística. A sua mensagem central – mantermo-nos fiéis a nós próprios, abraçar a auto expressão e empoderar os outros – já existia há 20 ou 25 anos e continua tão relevante como sempre. O que evoluiu (no geral) foi a linguagem e o vocabulário à volta disso, tornando-se mais preciso, inclusivo e reflexivo em relação aos tempos actuais, e é possível ver e ouvir isso claramente no trabalho dela. A Peaches ensina coragem, alegria e a importância da comunidade, entre outras coisas. Ela cria com e para as pessoas que a rodeiam, dando espaço a vozes que são frequentemente ignoradas, ao mesmo tempo que mistura resistência com irreverência e humor, algo que eu, pessoalmente, aprecio muito.
Por último, podem deixar-nos uma mensagem para os leitores do dezanove.pt e para todas as pessoas que estão a pensar ver o documentário?
J: “Há uma frase do filme Black Cracker que resume verdadeiramente tudo. Ele descreve a tour de aniversário como “a celebration of a big f*** you”. Um grande “’vão-se f****”, mas de uma forma positiva e de afirmação da vida. O objetivo é que o filme pareça um murro no ar de celebração: com camadas subjacentes mais sombrias e profundas, mas que, em última análise, faça as pessoas pensar: “sim, eu sou capaz disto” – especialmente quando estamos rodeados de pessoas que nos inspiram.
P: O nosso desejo foi sempre fazer um filme queer feel-good: algo que deixe as pessoas cheias de energia ao saírem do cinema, quer sejam fãs de longa data da Peaches ou tenham simplesmente tropeçado no filme por acaso. Era importante abordar temas como a cultura queer, o envelhecimento e a positividade sexual sem impor mensagens ao público, muito no espírito de como a própria Peaches trabalha. Vejam por vocês mesmos se o conseguimos fazer 😉
O filme estreou hoje, com o carimbo da ZERO EM COMPORTAMENTO, em várias salas do país – e o dezanove.pt tem bilhetes para te oferecer! Vê como participar aqui.
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Entrevista de Maria Raposo


