Rita Felski,no seu Uses of Litterature (2008) defende que um “livro palatável” é caracterizado pela interactividade horizontal, desvinculada da verticalidade académica, pela linguagem emocional, a materialidade e a tactilidade da leitura, a dopaminação e volitividade positivas e transformadoras do e no leitor e pela democratização, reconhecimento e sobrevivência da diversidade literária. Sobre esta abordagem, direcciono para a visualização do vídeo de Rodrigo de Lorenzi – o moço do vinho sobre a importância e o papel dos bookneters na consciencialização da outridade, da afirmatividade positiva e do pertencimento inter(intra)pares.
Enquanto é importante reconhecer que existem influencers que só estimulam o consumismo de material fast-food e o internet trash, o spam, o lixo electrónico, a toxicidade do online (internet toxicity), daí a importância do blockout, há influenciadores digitais que são um self-service de conteúdo cognitivamente positivo e extremamente prazeroso. Falo dos bookneters (assim como também podemos falar dos filmneters, que muitas vezes são indissociáveis). E mais deleitável é ainda, quando verificamos que o material produzido é promotor, dinamizador e uma “voz” que materializa visibilidade para as pessoas LGBTQIA+. E aqui serei extensivo nos exemplos, iniciando pelos booktokers Sérgio Alves e Íris Bicho, conhecidos pela promoção de literatura direccionada para a diversidade, incluindo a literatura LGBTQIA+ . Menciono, ainda, Marcela Peixoto, fundadora do Booknet, página internética de “livros de romance gay, livros BL ou livros LGBT para jovens”, cuja primeira leitura recomendada para 2026 é o livro queer Red, White & Royal Blue (2019), da autoria de Casey McQuiston, que foi transportado para o ecrã em 2023, com o nome homónimo (RW&RB), e que, em 2026, será prolongado no filme Red, White & Royal Wedding (RW&RW). Ambos os filmes são protagonizados pelos actores e activistas queer Taylor Zakhar Perez e Nicholas Galitzine. A mesma bookneter, na página, recomenda também para 2026, a leitura do clássico, ganhador de um Óscar, Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome), romance queer publicado como livro em 2007 e tornado filme em 2017 . Importante mencionar que os livros e os filmes supracitados são, astronomicamente, divulgados, reviewsados e reactados pelos bookneters.

Não posso deixar de mencionar, que foi, principalmente, através destes influencers específicos, que tive o meu primeiro contacto com a série espanhola Olympo (2025), a mini série Objection I`m not Gay (2025), a mini série No, Your Majesty (2025) e a primeira temporada da série Heated Rivalry, protagonizada pelo canadiano, assumidamente bissexual e defensor da representatividade queer, François Arnaud. Arnaud fez o seu came out no Instagram, em 2020. Outro dos protagonistas, Robbie G. K. é defensor do activismo LGBTQIA+ e apologista da visibilidade das narrativas queer, assim como Arnaud.
E, neste ponto, evidencio a importância da dezanove.pt, que, à la bookblogger, nos Prémios dezanove 2025, nos apresenta, no respeitante à representatividade portuguesa LGBTQIA+, a personalidade do ano (o influencer Kiko is Hot), o político do ano (o político e bombeiro profissional Cristiano Maganinho), o casal do ano (João Cajuda e João Pedro Caldeira) e o coming out do ano (o escritor Lourenço Seruya). Estas referências são extremamente importantes para a afirmação LGBTQIA+, considerando a crescente neo-fasciszação, polarização, sectarização, a nível nacional e internacional.
Não posso deixar de referir, no contexto, Diogo Simões e a sua Estante de Livros LGBTQIA+ e Daniel Santos Morais, administrador do site Leituras Queer. Uma referência especial ao bookneter Hugo Cunha e ao seu canal de Youtube @AprendizdeLeitor, onde dialogamos, muitas vezes, com o romance queer Pode Um Desejo Imenso, do professor universitário, gay assumido e activista queer Frederico Lourenço (2002; 2022). Hugo Cunha assume, de forma espontânea e emocionada, a preferência pela obra como uma das suas mais gustativas. É um exemplo do defendido por Felski e apresentado na introdução, onde dialogamos com a emocionalidade e a informalidade da linguagem, horizontalizada, uma linguagem visual, diferenciada da formal recensão crítica ou resenha, e dominada pela crítica afectiva e pela funcionalidade da literatura como agente social, socializador, inclusor e, primeiramente, humano.

As booknets foram também determinantes para a divulgação de obras literárias como o romance Pão de Acúcar (2018), de Afonso Reis Cabral e Puta Feminista — Histórias de uma Trabalhadora Sexual, da autoria de Georgina Orellano (2023). O primeiro ficcionaliza os dias finais da transsexual Gisberta Salce Júnior, assassinada em 2006, sob a perspectiva dos agressores, e o segundo, autobiograficamente, mostra a estigmatização da prostituição no feminino. Há, nestas duas obras, assumida pela bookesfera, consciencialização, directa ou indirectamente, das questões queer e da e para a humanização da prostituição.
As booknets e os seus actores são, quando pedagogicamente direccionados, constructores de uma comunidade Onli(ne)fe, ou seja, onde o “Online is Life”, o online dinamiza e promove espaços não excludentes e espaços dialogadores com a outridade. Encontramos, inclusive, na internet, booklists LGBTQIA+, como o LGBTQ Reads, o Queer Lit, o LGBT+ Library e, em Português, além dos supramencionados, a plataforma interactiva affirmative Q, do psicólogo Ruben Seromenho, o Clube de Leitura LGBT+ das BLX – Bibliotecas de Lisboa, a artista drag-queen Alecia Fluffy, booktuber, o activista booktoker, e bookstagrammer Pedro Carreira integrante da comunidade (book)blogger esQrever, iniciada em 2014. Esta plataforma apresenta também já “o novo Podcast LGBTI português”, o Dar Voz a EsQrever – esQuta, da autoria de Hélder Baptista. O Podcast Dar Voz A esQrever tem “foco na escrita e na partilha de ideias sobre a temática LGBT, algo que, …, Portugal tinha défice em espaços destes” afirma Pedro Correia.
A impossibilidade de nomear todos os actores da bookesfera direccionada para a diversidade, particularizada directa ou indirectamente na LGBTQIA+, é-me evidente, pois a mesma solicitaria uma maior profundidade temática, o que é, per se, divorciado de um artigo de opinião. Considero, porém, que os exemplos apresentados, materializam, significativamente, um universo multidisciplinar, reconhecedor e consciente da importância da cada vez maior representatividade, visibilidade e afirmatividade de qualquer manifestação da sexualidade humana.
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Jorge da Silva Pereira


