Ler Maurice, de E. M. Forster, é uma experiência curiosa. O romance foi escrito há mais de um século, mas em muitos momentos parece surpreendentemente contemporâneo. Não tanto pela história em si, mas pela forma como descreve o processo de alguém tentar perceber quem é, num mundo que insiste em dizer-lhe quem deveria ser.
O que mais me chamou a atenção foi o contraste entre as personagens. Clive representa um tipo de amor intelectualizado, quase idealizado, mas que acaba por se revelar incapaz de enfrentar a realidade. Já Alec surge como algo muito mais directo e concreto, quase como uma ruptura com aquele universo social rígido onde Maurice foi educado.
Também é impossível ler o livro sem pensar no contexto em que foi escrito. Forster terminou-o em 1914, numa altura em que a homossexualidade era crime em Inglaterra. Talvez por isso seja tão marcante saber que o autor insistiu num final feliz. Na literatura da época, histórias como esta raramente terminavam bem.
Mais do que um romance sobre uma relação, Maurice acaba por ser um livro sobre libertação pessoal. E é curioso perceber como um texto escrito há mais de cem anos ainda consegue provocar essa sensação de descoberta.


