Exmo. Senhor José Pedro Aguiar-Branco,
Presidente da Assembleia da República,
Venho por este meio fazer-lhe um desafio. O meu nome é Pedro Pina e gostaria que pensasse na minha simples proposta: calçar, por alguns minutos, os meus sapatos, neste caso, os meus ténis.
Quando eu nasci, em 1976, ser homossexual era um crime. Quando eu nasci, em 1976, ser homossexual era considerado uma doença. Ser a única criança gay, numa vila do interior deste país, nos anos 80, era ter uma porta aberta para o bullying, a discriminação, o preconceito, o medo, a solidão, a tristeza e uma tremenda vontade de desaparecer.
Depois de acordar de manhã para ir para a escola, ao apertar os cordões dos meus ténis, as minhas mãos tremiam. Não conseguia respirar. Nessa altura, desconhecia completamente que se tratavam de consecutivas crises de ansiedade. Ao pensar que teria de atravessar os portões do liceu, caminhar até aos pavilhões das salas de aulas, passando por todos os rapazes que enchiam a boca para atirar insultos de humilhação, o meu corpo bloqueava. As pernas, trôpegas, paravam. Não conseguia caminhar. O medo colava-me os pés ao cimento.
Eu era diferente da maioria das pessoas que vivia à minha volta. Se pedi para ser diferente? Não. Se foi uma escolha? Não. Ninguém na sua sã consciência escolhe um caminho de dor. Dor essa causada, pela forma como a sociedade me via. Medo de ir sair à rua. Medo de ir à casa de banho. Medo dos intervalos. Medo de tomar banho depois da aula de educação física. Medo de almoçar na escola. Medo de adormecer, sabendo que no dia seguinte, iria acordar e vivenciar a repetição de todo aquele pesadelo diurno e diário, novamente.
Se eu sabia que era diferente? Não. Não sabia. Eu existia. Eu era. Apenas isso. Estava vivo, queria viver. Somente isso. Será pedir muito? Será pedir muito, uma criança de 10 anos, que apenas deseja viver? E viver, nessa altura, para mim, era apenas ter paz. Tratava-se somente do sonho ilusório de poder estar, seja em que sítio fosse, sem medo. Caminhar na rua sem ter que medir rapidamente com o olhar, quantas crianças ou adultos estavam lá ao fundo, com a possibilidade de me fazerem mal. Sim, eu também disse adultos. Os adultos conseguem vestir-se de uma crueldade muito maior do que as crianças. Porque têm consciência do mal que estão a causar e ainda assim continuam. Que direito tem um adulto de fazer com que uma criança se sinta um lixo na sua própria pele?
Viver entre insultos e humilhação, não é viver. É apenas sobreviver. Porque é que uma criança de apenas 10 anos, é forçada a sobreviver, sem conhecer absolutamente nada da vida, nem sequer ter ferramentas para tal? Solidão. Vergonha. Medo. Enquanto os rapazes em grupo se riam e mandavam as suas bocas desenhadas em formas de armas aéreas, eu existia sozinho. Não tinha amigos. Fugia. Escondia-me. Todos tinham descoberto um segredo que, nem eu sabia que existia. Aos 10 anos eu não sabia que era gay. Aos 10 anos eu não sabia nada. Aos 10 anos eu apenas queria brincar em paz. Em criança era um rapaz mais feminino. Apenas isso. Nada tinha a ver com amor ou sexualidade. Aos 10 anos eu não pensava em amar, muito menos em sexo. Com 10 anos, nada é suposto estar relacionado com sexo. Contudo, era já torturado, por algo que eu não sequer sabia que existia. O meu pai tinha vergonha de mim. A minha irmã tinha vergonha de mim. A minha mãe, com todo o seu amor, não via o que estava a acontecer.
Tente fechar os olhos por alguns segundos e imagine, como será existir, na consciência que estamos a mais? Que não fazemos parte, que têm tanta vergonha de nós, que nós mesmos passamos a ter vergonha de nós próprios, sem sequer percebermos o motivo. Como é que nestas condições, uma criança consegue estudar, fazer os trabalhos de casa, estar atento nas aulas e conquistar boas notas? A resposta é simples: não consegue. Durante as aulas, durante os testes, a minha cabeça desligava. Eu só queria sair dali. Concentrar-me era um verbo impossível de ser conjugado. Entre um pai austero e déspota e uma irmã, cuja maldade superava o expectável para uma criança com menos 2 anos que eu, eu vivia escondido no sótão lá de casa, o meu pequeno mundo. Nesse mundo eu era feliz. Ou pelo menos assim o fingia ser. Naquele espaço, apenas existia eu e a minha imaginação, na qual eu tinha amigos, carinho respeito e amor. Fora dali, era uma criança tímida, assustada, sem forças para fazer fosse o que fosse. Considera isto ser uma infância saudável? Eu não considero ser uma infância de todo.
Convido-o ainda a fazer um outro exercício. Imagine o mundo ao contrário. Imagine que todos os jornais, revistas, filmes, anúncios de publicidade, séries de televisão diziam que o senhor José Pedro Aguiar-Branco devia ser gay. O senhor José Pedro Aguiar-Branco, sabe que não é, que nunca poderá ser, não está na sua natureza, não é assim, nem pretende assim viver. Como é que vai viver? Como é que vai viver, num mundo, onde todos lhe dizem que, somente por existir, está errado? Como é que vai viver ouvindo palavras como aberração, doente, estranho, esquisito, pecado, erro, invertido, florzinha, maricas, paneleiro, entre muitas outras, que a minha educação não me permite repetir?
Aceitava ser convertido? Converter o quê? Os seus pulmões? O seu cérebro? Rins? Fígado? Braços? Pernas? Coração? Artérias? O miocárdio? Para si não existe absolutamente nada para ser convertido e tem tanta certezadisso, como a de que é fulcral respirar. O que responde ao mundo? Pretende entrar em salas de tortura física e psicológica, até negar a sua existência? Até afirmar que o seu braço não é o seu braço, mas sim uma cadeira? Porque é apenas disto de que se trata. Negar o nosso nascimento.Negar a nossa existência. Negar a nossa natureza. Seja ela qual for. Eu sou gay, não sei porquê. Acho que ninguém sabe. Acordo de manhã com sono e remelas nos olhos. Ressono durante a noite, gosto de beber café, caminhar à frente do rio, rir-me e abraçar as pessoas que amo, sou frontal e deixei, há muito tempo, de ter medo de existir e dizer aquilo que penso. O que é que pretende mudar em mim? O que é que pretende converter? Terapias de conversão não são terapias. São somente torturas. Porque a conversão não existe.
Partilho ainda consigo um episódio da minha vida, por volta dos 14 anos. O medo, a tortura, a solidão e a tristeza, de viver num mundo que me considerava a mais, era tão grande, que uma noite, ainda a viver numa vila no interior do país, sentei-me na janela do quarto. Eu tinha 14 anos. O meu quarto era lá em cima, no sótão da moradia. Coloquei as minhas pernas de fora da janela, em cima das telhas e olhei lá para baixo. Pensei: se eu me deixar escorregar, amanhã os meus pais encontram lá em baixo no chão, o meu corpo morto e todo este pesadelo terá terminado. Contudo, existiu uma força que não me permitiu continuar a escorregar pelas telhas do telhado e me colocou as pernas, novamente dentro do quarto. Essa força chama-se vontade de viver. Ainda assim, a taxa de suicídio na comunidade Lgbtq+ é demasiado elevada. Deixem de nos insultar. Deixem de opinar sobre a nossa vida. Deixem-nos viver. Deixem-nos em paz. E parem de nos matar aos poucos.
Escrevo-lhe esta carta, para que nunca mais nenhum rapaz ou rapariga, mulher ou homem transgénero, gay, bissexual, não binário, género fluido, pensem sequer em se sentarem na janela com as pernas nas telhas do telhado. Escrevo-lhe para que nunca mais nenhum de nós tenha de ler ou ouvir insultos. Escrevo-lhe para que nunca mais nenhum de nós tenha de passar pelas atrocidades de terapias de conversão. Escrevo-lhe para que terminemos de vez com o preconceito, a discriminação e todas essas vontades desprezíveis de todos os neofascistas e extremistas sentados nessas bancadas. Não passarão. Fascismo nunca mais.
Quando alguém me pergunta porque é que ainda é necessário fazer uma Marcha do Orgulho gay, a resposta é simples, porque jamais voltarei a ter vergonha de o ser. Alguém que nunca teve vergonha de existir, jamais poderá perceber o que isso é. Quando alguém me perguntam: mas que direitos é que vocês querem, que ainda não têm? A resposta é ainda mais simples. O direito de viver sem ver a minha existência novamente ameaçada. A mim não me voltam a pôr num armário, nem numa prisão, hospital ou salas de tortura.
Escrevo-lhe em paz, porque é a única coisa que pretendo e desejo na vida, para mim e para os outros. Deixo-lhe com um desafio final. Descalce todos os ténis, sapatos ou botas. Sinta os seus pés no chão. Esse chão caminhado por todos os seres humanos semelhantes a si que têm uma vida, um nome e muitos sonhos. Não somos uma massa invisível de gente. Somos pessoas. Não desejamos privilégios. Apenas queremos paz.
Viver é urgente. Mas muito mais urgente é viver em paz e amor.
Agradeço desde já toda a atenção prestada,
Com os meus melhores cumprimentos,
Obrigado
Pedro Pina


