O Teatro Turim, em Lisboa, recebe entre 30 de Abril e 24 de Maio o monólogo “Corações de Papel”, de Peter Pina, uma proposta que cruza intimidade e intervenção política para reflectir sobre identidade, direitos humanos e modelos de família.
Adaptado, encenado e interpretado por Peter Pina, o espectáculo acompanha a vida de Arnaldo, um homem gay e travesti que expõe em palco as tensões de amar e existir num contexto ainda marcado por preconceito e estruturas conservadoras.
A narrativa desenvolve-se a partir de uma dimensão íntima, mas rapidamente se expande para questões de ordem social e política. O amor surge como eixo central, assumido não apenas como experiência pessoal, mas como forma de resistência. Amar um homem, amar um filho, amar-se a si próprio são gestos que, ao longo do espectáculo, ganham uma leitura que ultrapassa o plano individual.
Um dos temas mais marcantes é o da parentalidade. Arnaldo adopta David, um jovem com um percurso de rejeição e violência, colocando em evidência os desafios e os preconceitos que ainda persistem em torno da adopção por pessoas LGBTQIA+. A peça questiona, assim, a forma como continuam a ser avaliadas as capacidades parentais fora dos modelos tradicionais de família.
“Corações de Papel” dialoga também com o contexto político e social actual, nomeadamente com o ressurgimento de discursos conservadores e com o debate em torno das chamadas “terapias de conversão”. O espectáculo assume uma posição clara ao denunciar estas práticas como formas de violência psicológica e emocional, reforçando a ideia de que a identidade não pode ser sujeita a correcção.
A dimensão interventiva da peça é ainda ampliada pela ligação a uma carta aberta de Peter Pina dirigida ao Presidente da Assembleia da República, onde o actor e activista chama a atenção para o impacto da discriminação e da violência sobre jovens LGBTQIA+.
Do ponto de vista estético, o espectáculo aposta numa linguagem que cruza humor, provocação e uma componente visual assumidamente kitsch, criando um contraste que reforça o carácter crítico da proposta.
Mais do que um retrato individual, “Corações de Papel” apresenta-se como um contributo para a reflexão sobre direitos, representação e pertença, num momento em que várias conquistas da comunidade LGBTQIA+ continuam a ser alvo de contestação.
“Corações de Papel”
Teatro Turim, Lisboa
30 de Abril a 24 de Maio de 2026
Quinta a sábado às 21h30 | Domingos às 17h
Os bilhetes custam 10 euros.
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