opinião

Arco-íris de néon, direitos em sombra: o pinkwashing como política de imagem



Israel anuncia o “maior festival gay do mundo” enquanto mantém, na sua própria arquitetura legal, a negação do casamento igualitário. A contradição não é subtil, é gritante. Vende-se uma imagem de vanguarda e inclusão para consumo internacional, enquanto internamente persistem limites claros à igualdade plena. Quando a liberdade depende do postal turístico, deixa de ser liberdade e passa a ser vitrina.

Esta distância entre discurso e prática não é um acidente, é política. Há uma gestão cuidada da imagem do país como “moderno” e “progressista”, sobretudo em áreas como a visibilidade LGBTQ+, mas essa modernidade não se estende de forma homogénea aos direitos fundamentais. A igualdade, quando é parcial, não é igualdade — é hierarquia com boa iluminação.

É aqui que entra o conceito de pinkwashing: a utilização selectiva de direitos LGBTQ+ como ferramenta de reputação internacional, desviando o olhar de outras realidades políticas e sociais. Não se trata de negar avanços ou espaços de liberdade que possam existir, mas de recusar que esses avanços sejam usados como cortina para encobrir contradições estruturais. Arco-íris não pode ser verniz sobre desigualdade.

Ao mesmo tempo, existem denúncias de organizações de direitos humanos sobre abusos, discriminação e vulnerabilidades acrescidas que afetam pessoas LGBTQ+ em contextos de conflicto e ocupação, incluindo em territórios palestinianos, bem como relatos de maus-tratos em detenção. São matérias sérias, documentadas por diferentes entidades, e que exigem escrutínio, não propaganda. Reduzir tudo isto a festa e marketing é intelectualmente preguiçoso e politicamente conveniente.

O problema agrava-se quando eventos desta natureza são promovidos como símbolo global de progresso, ignorando deliberadamente o contexto em que se inserem. A cultura, aqui, é instrumentalizada como cenário: luzes, música, bandeiras e slogans funcionam como linguagem de legitimação. Mas nenhuma pista de dança apaga estruturas de poder nem substitui direitos concretos.

Por isso, a leitura crítica não é um capricho ideológico, é uma exigência ética. O boicote, enquanto gesto político, surge desta recusa de separar espectáculo de realidade. Não se trata de rejeitar pessoas ou identidades, mas de não validar usos oportunistas dessas mesmas identidades para fins de reputação estatal.

No fim, o que está em jogo é simples e desconfortável: ou os direitos humanos são universais e consistentes, ou são apenas ferramentas selectivas ao serviço de imagem. E quando a diversidade é usada como publicidade enquanto a igualdade não chega a todos, não estamos perante inclusão — estamos perante encenação.

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João d’Oliveira

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