Há livros de História que procuram explicar grandes acontecimentos a partir das estruturas económicas, das ideologias ou dos movimentos de massas. Sergio Luzzatto escolhe outro caminho em O Primeiro Fascista: A Vida Extraordinária e o Tenebroso Legado do Marquês de Morès, editado de forma muito cuidada pela editora Zigurate. Através de fontes históricas como cartas, diários, jornais e relatórios policiais o autor vai relatar esta figura errática, aristocrática, profundamente teatral e movida por ressentimentos sucessivos, para demonstrar como, muito antes de Mussolini ou Hitler, já existiam práticas políticas, discursos e imaginários que antecipavam aquilo a que o século XX chamaria fascismo.
O Marquês de Morès nasce no coração da aristocracia francesa decadente do final do século XIX, num mundo ainda marcado pelo brilho social do Faubourg-Saint-Germain, mas já atravessado pelas tensões da modernidade capitalista. Luzzatto descreve esse ambiente de forma particularmente eficaz quando escreve que Paris assistia ao “advento de uma sociedade moderna de consumo, comunicação e moda”, onde “as forças mais vivas da velha aristocracia operavam lado a lado com as da burguesia emergente”. Morès cresce nesse universo ambíguo, entre a nostalgia aristocrática e a emergência de um novo mundo industrial e urbano. O autor recorda mesmo que os nobres que rodeavam o jovem Antoine de Vallombrosa não eram apenas os decadentes caricaturados por Émile Zola, mas também homens que procuravam reinventar o seu poder num tempo em rápida transformação.
É precisamente essa tentativa de reinvenção que atravessa toda a narrativa (lembremos que a burguesia capitalista ganhará todo o protagonismo social por esta altura). O livro acompanha Morès desde Cannes até aos Estados Unidos, numa sucessão quase cinematográfica de aventuras, fracassos e reinícios. Na América funda Medora, cidade batizada com o nome da mulher, no Dakota do Norte, acreditando que o capitalismo da carne e das linhas ferroviárias lhe permitiria construir um império pessoal. Sergio Luzzatto mostra bem como esta experiência americana está profundamente ligada às transformações técnicas da época: os caminhos-de-ferro, os matadouros industriais, a refrigeração da carne, os novos mercados urbanos e financeiros. O percurso de Morès acompanha o momento em que os Estados Unidos e a Europa assumem a dianteira da ciência e da técnica modernas, sempre sustentadas pela expansão colonial e pela exploração de territórios periféricos.
Ao longo da obra percebe-se que Morès é simultaneamente produto e agente desse mundo violento. O livro cruza constantemente imperialismo, masculinidade agressiva e culto da força. Numa passagem particularmente reveladora, durante uma caçada ao tigre na Índia colonial, Morès escreve: “O primeiro tigre. Não vamos voltar sem ter matado.” Depois descreve friamente a execução do animal: “Aproximo-me e outras cinco balas de calibre 8 na cabeça acabam com ele.” A violência surge aqui não apenas como gesto individual, mas como ética política e colonial. A dominação da natureza, dos povos colonizados e dos adversários políticos faz parte do mesmo imaginário de conquista.
O ódio como programa político
O autor do livro demonstra igualmente como o anti-semitismo se transforma no verdadeiro cimento ideológico da acção política de Morès. É aqui que o livro se torna particularmente perturbador e actual. O aristocrata falhado percebe rapidamente que o ressentimento social pode ser manipulado através da construção de um inimigo interno. Aproveitando o crescimento das tensões operárias e o clima social alimentado pelas críticas ao capitalismo financeiro — onde circulavam influências tão diversas como Proudhon, Bakunin ou Marx — Morès apresenta-se como defensor dos trabalhadores franceses contra as elites financeiras judaicas. O populismo protofascista nasce precisamente desta falsa síntese entre discurso social e nacionalismo xenófobo.
Num dos momentos mais fortes da obra, Luzzatto escreve que Morès procurava criar “uma aliança estrutural entre os pequenos e os grandes da França: o fascio”. A palavra aparece antes do fascismo italiano e revela a genealogia política que o autor pretende reconstruir. O anti-semitismo deixa então de ser apenas preconceito religioso ou social para se transformar em tecnologia política de mobilização das massas. Morès organiza conferências violentas contra os Rothschild, acusa “a seita judaica” de controlar a economia nacional e constrói um discurso conspirativo onde banqueiros, judeus, republicanos e estrangeiros aparecem fundidos num mesmo inimigo. A passagem em que exige a expulsão de Alphonse de Rothschild da economia francesa mostra como o discurso do ódio se alimenta de frustrações pessoais transformadas em projecto político colectivo.
O grande mérito historiográfico de Sergio Luzzatto está precisamente na forma como articula biografia e estrutura histórica. O autor não reduz o fascismo a uma consequência inevitável da crise económica ou das massas manipuladas. Mostra antes como determinadas personalidades narcísicas, profundamente ressentidas, teatralmente carismáticas e politicamente oportunistas conseguem captar os medos e ansiedades do seu tempo. Morès fracassa quase sempre, mas cada fracasso radicaliza ainda mais a sua visão do mundo. A política torna-se espectáculo, provocação permanente, manipulação mediática e culto da violência performativa. Ao olhar para o Marquês de Morès, o leitor reconhece inevitavelmente mecanismos que regressariam no século XX — e que continuam perigosamente presentes no século XXI.
Por isso, O Primeiro Fascista é um livro extremamente útil para professores e alunos de História A do 11.º ano. A obra permite compreender como nacionalismo, populismo, colonialismo, anti-semitismo e culto da autoridade se foram articulando muito antes da Marcha sobre Roma ou da ascensão de Hitler. Ao mesmo tempo, oferece uma excelente demonstração de uma historiografia de perfil biográfico que parte do particular para iluminar tendências globais da modernidade ocidental.
Mas este é também um livro que deveria ser lido atentamente por democratas e sectores da esquerda que continuam a subestimar a força destrutiva destas figuras políticas. Luzzatto mostra que personagens profundamente narcísicas, ressentidas e movidas por frustrações pessoais podem corroer lentamente as instituições democráticas enquanto afirmam agir em nome do povo. Quando não são limitadas pelo Estado de direito democrático, acabam por destruir precisamente aquilo que dizem defender. O fascismo, sugere o livro, não começou apenas com partidos organizados ou ditaduras formais. Começou muito antes, em discursos de ódio normalizados, em espectáculos políticos assentes na humilhação pública do inimigo e na transformação do ressentimento em programa político.
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Autor: Sergio Luzzatto
Título completo: O Primeiro Fascista: A Vida Extraordinária e o Tenebroso Legado do Marquês de Morès
Tradução: Maria do Carmo Figueira
Editora: Livros Zigurate
Ano da edição portuguesa: 2026
Páginas: 512
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André Soares


