Primeiro bailarino português a alcançar projeção internacional, Valentim de Barros (1916 – 1986) viu a sua carreira interrompida no auge por um sistema que tratou a sua identidade como doença. Entre os palcos europeus e as celas do Hospital Miguel Bombarda, construiu-se uma vida marcada pela criação, pela resistência silenciosa e pela violência institucional de uma época que recusava reconhecer a diferença.
A história de Valentim de Barros é uma das mais perturbadoras e reveladoras do Portugal do século XX. Nascido em Lisboa, a 11 de Novembro de 1916, destacou-se desde cedo por uma sensibilidade invulgar e por um talento que encontraria expressão plena na dança. Ainda adolescente, começou a estudar ballet clássico e, contra a vontade familiar, iniciou um caminho artístico que o levaria além-fronteiras, num tempo em que poucos portugueses alcançavam reconhecimento internacional nesta área.
Aos 20 anos, Valentim já percorria a Europa. Depois de passar por Espanha e França, fixou-se na Alemanha, onde integrou o corpo de baile da Ópera de Estugarda. Aí, afirmava-se como intérprete de exceção, sendo particularmente elogiada a sua performance em Prometeu, com música de Beethoven inspirada em Prometeu Agrilhoado. Jovem, belo e seguro em palco, parecia destinado a uma carreira de sucesso. Tornava-se, assim, o primeiro bailarino português a conquistar uma verdadeira dimensão internacional.
Mas esse percurso ascendente seria abruptamente interrompido. Em 1938, foi afastado da companhia e expulso da Alemanha, em circunstâncias pouco claras. No regresso a Portugal, em Janeiro de 1939, foi detido pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), após ser identificado com documentação irregular. A detenção rapidamente extravasou o âmbito policial e deu origem a uma avaliação psiquiátrica que viria a marcar o resto da sua vida.
Num contexto social profundamente conservador, a diferença era frequentemente confundida com desvio. A orientação sexual e a expressão de género de Valentim foram interpretadas como sinais de perturbação. Os relatórios médicos descreviam-no com termos carregados de preconceito e classificavam a sua vida íntima como patológica. O diagnóstico acabaria por ser claro à luz da medicina da época: “psicopatia homossexual”.
Em 1940, com apenas 23 anos, Valentim iniciou um longo ciclo de internamentos no Hospital Miguel Bombarda. O que poderia ter sido um episódio passageiro transformou-se numa condenação prolongada. Ao longo da década, alternou entre tentativas de regressar à vida artística e novos internamentos, até que, em 1948, foi submetido a uma leucotomia, procedimento então utilizado para “corrigir” comportamentos considerados desviantes. No ano seguinte, o internamento tornou-se definitivo.
A partir desse momento, o bailarino desapareceu do mundo. Transferido para o Pavilhão de Segurança, espaço reservado aos considerados perigosos ou irrecuperáveis, passaria ali décadas, afastado da sociedade, da carreira e da liberdade. Aquele que dançara nos palcos europeus via-se agora confinado a uma cela, reduzido à condição de doente e privado da sua identidade pública.
E, no entanto, resistiu. Privado da dança, encontrou na criação uma forma de sobrevivência. Dentro do hospital, produziu bordados, tapeçarias, pinturas e cenários para eventos internos. Decorou a sua cela com cores, flores, imagens religiosas e gaiolas de pássaros, transformando um espaço de reclusão num território íntimo de expressão estética. A necessidade de beleza, que o definira em palco, persistia ali, silenciosa mas firme.
Os testemunhos de quem o conheceu descrevem-no como uma figura singular. Vestia-se com cuidado, por vezes com elementos vistosos que contrastavam com a monotonia do hospital. Era vaidoso, conversador e mantinha um certo encanto pessoal. Apesar das descrições de episódios de agressividade nos primeiros anos, muitos recordam-no, mais tarde, como alguém afável, dedicado ao trabalho manual e à criação contínua.
Curiosamente, Valentim raramente se via como vítima. Numa entrevista concedida em 1980, mostrava dificuldade em compreender plenamente as razões do seu internamento, atribuindo-o à doença ou às circunstâncias, mais do que à perseguição. Essa ausência de revolta aparente, possivelmente construída ao longo de décadas de institucionalização, tornou a sua história ainda mais inquietante: um homem afastado do mundo sem verdadeira consciência da injustiça que sofrera.
Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, o sistema mudou, mas não o seu destino. Apesar de alguma liberdade adicional, Valentim permaneceu no hospital, sem uma rede que permitisse a reintegração. O mundo avançara, mas ele ficara para trás, preso a uma realidade que já não correspondia ao tempo exterior.
Morreu a 3 de Fevereiro de 1986, aos 69 anos. Durante anos, o seu nome caiu no esquecimento. Só mais tarde, através de exposições, estudos e testemunhos, começou a ser recuperado. Obras como Conhecimento do Inferno (1980), de António Lobo Antunes, ou estudos incluídos em Hospital Miguel Bombarda 1968 (2017), ajudaram a contextualizar a sua experiência e a revelar a dimensão humana por detrás do caso clínico.
Hoje, Valentim de Barros começa finalmente a ocupar o lugar que lhe foi negado em vida. Não apenas como vítima de um sistema repressivo, mas como artista. A sua história tornou-se símbolo de um tempo em que a diferença era silenciada e, simultaneamente, de uma resistência feita de criação, mesmo nas condições mais adversas.
Entre o brilho dos palcos e a sombra das enfermarias, permanece a imagem de um homem que nunca deixou de ser aquilo que sempre foi. Apesar de tudo. Apesar de todos. Um bailarino.


