opinião

“Já me assumi. E agora?”  



O mito de que o coming out acontece apenas uma vez 

Durante anos, o coming out foi apresentado como um momento único, quase cinematográfico: uma conversa decisiva, uma revelação e, a partir daí, uma espécie de linha de chegada emocional. Mas para muitas pessoas, a realidade é bastante diferente — menos linear, mais repetida e, em muitos casos, mais complexa do que o imaginário popular sugere. 

Na prática, assumir-se não é um ponto final. É um processo que se reativa ao longo da vida, em contextos diferentes, com pessoas diferentes e em fases emocionais diferentes. E essa repetição, muitas vezes invisível no discurso público, tem impacto direto na forma como a identidade é vivida. 

Para muitas pessoas LGBTQIA+, o coming out não é um momento. É uma rotina social. 

Mesmo após uma primeira partilha com família ou amigos próximos, surgem novas situações em que a identidade volta a ter de ser “explicada”: um novo trabalho, um novo grupo de amigos, uma consulta médica, uma mudança de cidade, ou até uma simples conversa informal em que a heteronormatividade é assumida como padrão. 

Em cada um destes contextos, a pessoa pode voltar a enfrentar a mesma decisão interna: 

partilhar ou não partilhar, corrigir ou não corrigir, expor-se ou proteger-se. 

A ideia de um “armário único” já não encaixa na realidade atual 

A noção tradicional de coming out parte da ideia de que existe um “antes” e um “depois”. Mas essa lógica não acompanha a diversidade de experiências contemporâneas dentro da comunidade LGBTQIA+. 

Hoje fala-se cada vez mais de “coming outs múltiplos” — não como exceção, mas como experiência comum. Isto inclui desde pequenas correções do dia a dia (“a minha namorada”, “o meu marido”, “a pessoa com quem estou a sair”) até decisões mais conscientes sobre quando e onde é seguro assumir-se. 

Em contextos mais urbanos e inclusivos, estas repetições podem ser quase automáticas. Em contextos familiares conservadores, profissionais ou religiosos, podem ser emocionalmente exigentes, implicando uma avaliação constante de risco, segurança e impacto relacional. 

Quando a visibilidade não elimina o esforço 

Mesmo com maior representatividade mediática e social, o coming out não desaparece. Apenas muda de forma. 

A presença de figuras públicas LGBTQIA+ em cinema, música ou televisão ajudou a normalizar muitas identidades. No entanto, isso não elimina a experiência individual de ter de se explicar repetidamente em espaços quotidianos. 

Em alguns casos, a visibilidade até aumenta expectativas: a ideia de que todas as pessoas LGBTQIA+ devem ser abertas, orgulhosas e visíveis pode gerar pressão adicional para quem ainda não se sente confortável ou seguro para se assumir em todos os contextos.

O peso emocional da repetição 

Do ponto de vista da saúde mental, o coming out repetido pode ter diferentes impactos. Para algumas pessoas, torna-se um exercício de autenticidade. Para outras, pode gerar cansaço emocional, antecipação de rejeição ou necessidade constante de adaptação social. 

Não é apenas o momento da revelação que importa, mas o esforço acumulado de gerir, escolher e repetir essa informação ao longo da vida. 

Em consulta, é frequente surgir uma tensão interna: por um lado, o desejo de viver de forma transparente; por outro, a necessidade de preservar segurança emocional e evitar situações de desconforto ou discriminação. 

Nem sempre dizer é libertador — e nem sempre não dizer é esconder 

Uma das mudanças mais importantes na forma como se olha para o coming out hoje é o reconhecimento de que não existe uma única forma correta de o viver. 

Há quem escolha ser aberto em todos os contextos. Há quem opte por uma abordagem seletiva. E há quem apenas não sinta necessidade de tornar a sua vida pessoal um tema público. Nenhuma destas formas invalida a identidade. 

E se o coming out não fosse um evento? 

Talvez o maior mito não seja apenas a ideia de que “toda a gente tem de se assumir”, mas a noção de que isso acontece uma única vez e resolve tudo. 

Na realidade, para muitas pessoas, assumir-se é menos um evento e mais uma negociação contínua entre identidade, contexto e segurança. 

“Já me assumi.” 

Talvez seja apenas o início de muitas outras vezes em que isso ainda vai ser necessário dizer. 

E talvez isso também diga algo importante sobre a experiência queer contemporânea: a liberdade não está apenas em poder dizer quem se é, mas também em poder escolher quando, como e para quem isso faz sentido ser dito. 

Letícia David, Psicóloga 

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