opinião

“Pride fatigue”: porque é que o Mês do Orgulho também pode ser emocionalmente difícil para muitas pessoas LGBTQIA+ 



Entre fotografias de marchas, festas, viagens e celebrações, junho pode dar a impressão de que toda a comunidade LGBTQIA+ está a viver o mesmo sentimento: orgulho. Mas a realidade nem sempre é assim. Para algumas pessoas, o mês mais visível do calendário queer pode trazer comparação, ansiedade, solidão e até exaustão emocional. 

O fenómeno tem vindo a ser descrito internacionalmente como Pride fatigue, uma espécie de exaustão emocional associada ao excesso de estímulos, expectativas sociais e pressão simbólica que o Mês do Orgulho pode concentrar. 

Nem toda a visibilidade é vivida como leveza. 

Embora o Pride tenha uma base política e histórica fundamental — marcada por luta, resistência e afirmação de direitos — a sua versão contemporânea, altamente mediática e comercializada, tem vindo a criar experiências muito diferentes dentro da própria comunidade LGBTQIA+. 

Para algumas pessoas, sobretudo aquelas que ainda não se assumiram totalmente, que vivem contextos familiares pouco seguros ou que não têm redes de apoio, junho pode intensificar sentimentos de comparação e invisibilidade. Nas redes sociais, a constante exposição a imagens de celebração, pertença e liberdade pode gerar a sensação de estar “de fora” de algo que deveria ser coletivo. 

Na prática clínica, este período é frequentemente descrito como emocionalmente paradoxal: ao mesmo tempo que reforça identidade e visibilidade, pode também amplificar ansiedade, solidão e desconforto interno. Algumas pessoas relatam sentir uma espécie de pressão implícita para “estar bem”, para celebrar, para participar — mesmo quando emocionalmente não se sentem nesse lugar. 

Entre pessoas LGBTQIA+ mais introvertidas, ou que não se identificam com ambientes festivos, a intensidade do mês pode ser particularmente desafiante. A ideia de que o Pride deve ser vivido de forma entusiástica e pública pode acabar por criar uma narrativa pouco inclusiva dentro de um espaço que, paradoxalmente, nasceu para combater exclusões. 

Também dentro da própria comunidade surgem dinâmicas de comparação. Quem participa em eventos, quem tem visibilidade, quem está assumido, quem tem uma rede afetiva ativa — tudo isso pode tornar-se um espelho involuntário de pertença. E nem todas as realidades encaixam nesse espelho. 

Em paralelo, há também quem sinta um desgaste mais subtil: o peso de relembrar continuamente histórias de luta, discriminação e violência estrutural pode reativar memórias pessoais difíceis. Para algumas pessoas, o Pride não é apenas celebração — é também recordação. 

Especialistas em saúde mental têm sublinhado que este tipo de exaustão não invalida o significado do Mês do Orgulho, nem a sua importância social e política. Pelo contrário: mostra que a experiência LGBTQIA+ não é homogénea. E que a forma como cada pessoa vive a sua identidade pode variar consoante o contexto emocional, social e familiar. 

Não existe uma forma certa de viver o Pride. 

Para algumas pessoas, cuidar da saúde mental durante este período pode passar por reduzir exposição às redes sociais, escolher de forma seletiva os eventos em que participam, ou simplesmente permitir-se não “celebrar” se não houver disponibilidade emocional para isso. 

No fundo, a chamada Pride fatigue não fala de ausência de orgulho. Fala de outra coisa mais subtil: a ideia de que até a celebração pode, por vezes, ser emocionalmente exigente. E talvez isso também precise de espaço no discurso sobre o Orgulho — a possibilidade de existir dentro da comunidade sem ter de demonstrar constantemente felicidade, pertença ou visibilidade. 

Porque, no meio das bandeiras, dos discursos e das festas, há também vidas que continuam a acontecer de forma silenciosa. E todas elas fazem parte do mesmo arco-íris.   

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Letícia David, Psicóloga

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